Introdução.

Como vimos nos textos anteriores, a felicidade é um desejo humano que, no entanto, o ser humano não tem forças para realizar por conta própria. Ele é capaz de ser feliz,.é capaz de ser conduzido para a felicidade, mas não é capaz de alcançá-la por si mesmo.
A discussão é: essa capacidade receptiva, que faz do ser humano alguém desejoso de uma felicidade que pode apenas receber, mas não conquistar, implica dizer que o ser humano não pode fazer nada para alcançá-la? Deve ser conduzido para ela completamente de fora, de modo passivo, quietista, sem nenhuma capacidade de ação?
Este debate é muito importante, porque toca esse assunto – ainda tão atual – da relação entre a fé e as obras. Será que as obras humanas têm alguma colaboração na salvação? Este é um debate similar ao que faremos agora, uma vez que a felicidade e a santidade são, para Tomás, sinônimos. Vamos ao debate.

A hipótese provocadora do debate.

Para iniciar o debate, o artigo propõe uma hipótese que suscita polêmica. A hipótese propõe que nenhuma atividade, nenhuma ação humana é necessária para alcançar a salvação. O ser humano seria conduzido a ela de modo estritamente passivo, sem obras de sua parte que o inclinasse nessa direção. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese inicial e rebater possíveis críticas a ela. Vamos examiná-los.

Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.
Já vimos, nos textos anteriores, que o ser humano não pode ser causa eficiente de sua própria felicidade. Ele não pode alcançar a felicidade por seus próprios esforços, mas deve ser conduzido a ela por Deus. Ora, se as atitudes, ações, obras do ser humano, não podem ser causa eficiente de sua própria felicidade, então elas poderiam apenas ser uma postura preexistente, uma espécie de material bruto sobre a qual Deus trabalha para levar o ser humano a ser feliz. Mas o argumento lembra que Deus é onipotente, isto é, todo-poderoso; assim, ele não precisa de alguma coisa preexistente para trabalhar. Criou o mundo a partir do nada. Ele pode produzir tudo sem precisar de coisa alguma.
então também pode produzir a plena felicidade no ser humano sem que preexista alguma coisa sobre a qual ele trabalhe, isto é, sem qualquer esforço ou obra precedente por parte do ser humano, conclui este argumento.

O segundo argumento objetor.
Deus cria a felicidade diretamente no coração dos seres humanos. Deus cria a natureza diretamente a partir do nada. Ora, quando ele criou a natureza, o cosmos, ele o criou cheio de criaturas completas, consumadas, capazes de realizar tudo o que sua natureza pede – as criaturas são, cada uma delas, perfeitas em sua natureza, capazes de realizar-se plenamente, sem necessidade de nenhum acréscimo externo posterior.
Ora, o mesmo deve ocorrer com os seres humanos: são capazes, naturalmente, de se realizar completamente, sem necessidade de nenhuma obra, disposição ou acréscimo posterior. Logo, nada do que o ser humano faz é necessário para a salvação, porque Deus concede a felicidade ao ser humano sem necessidade de nenhuma cooperação, de nenhuma ação por nossa parte, conclui este argumento.

O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento tem um “sabor” luterano, embora a Suma seja trezentos anos mais antiga do que as “teses” de Lutero. Este argumento antecipa a ideia da sola fides e afirma que, diante do texto de Romanos 4, 6 (“É assim que Davi declara felizes aqueles seres humanos a quem Deus atribui a justiça independentemente de obras”), a felicidade não depende de nenhuma obra humana para realizar-se, sendo uma pura ação de Deus sobre o ser humano. Logo, não há necessidade de nenhuma obra humana para que se alcance a felicidade, diz este argumento.

O argumento contrário à hipótese inicial.

Nossa discussão, no entanto, está longe de terminar. Após apresentar os argumentos que são favoráveis à hipótese controvertida inicial, o argumento agora vai apresentar aquela objeção que impede de aceitar a hipótese inicial tal como foi apresentada. O argumento contrário à hipótese inicial é retirado das Escrituras: em João 13, 17, Jesus, depois de lavar os pés dos apóstolos e adverti-los de que não são maiores do que o Senhor, afirma: “vós sereis felizes se praticardes estas coisas”. Ou seja, há necessidade de que nós atuemos positivamente pela nossa felicidade, segundo as Escrituras, diz o argumento.

Encerrando por enquanto.

Tema dificílimo. Como conciliar aquilo que é graça de Deus, por um lado, com a atividade humana, por outro?
Será que o fato de que a felicidade eterna da santidade é uma graça exclui a nossa própria participação em sua construção? Será que a graça não pode ser rejeitada ou recebida de modo inadequado por um coração despreparado? Deus, que nos criou sem nós, quer nos salvar também sem nós, ou mesmo contra nós?
É o que debateremos no próximo texto.