1. Retomando para concluir. 

Os santos anjos são nossos irmãos maiores. Mas o risco de confundi-los com deuses sempre foi muito grande. Não podemos esperar deles mais do que podem nos dar: companhia, proteção, inspirações, amizade. Há uma luta que nos é invisível, entre eles e os anjos decaídos, e ela também envolve nossa amizade com Deus. E para nos proteger nessa luta é que contamos com sua amizade. 

Mas a nossa completude, nossa felicidade, nosso objetivo, é entrar no coração da Trindade, e esse milagre, para o qual não temos a menor pista, só pode se dar pela própria graça de Deus. Os anjos podem ajudar, acompanhar, interceder, mas não podem nos conceder aquilo que somente Deus pode. Vimos tudo isto no texto anterior.

Agora é hora de retomar os argumentos iniciais, que tentavam comprovar a hipótese de que os anjos podem nos conduzir, por suas próprias forças, à felicidade plena, para estudar as respostas que Tomás apresenta a eles. 

  1. Os argumentos iniciais e suas respostas. 

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento parte da ideia de que o mundo criatural é organizado de modo hierárquico, a partir dos inanimados até os anjos, de tal modo que o “exército” das criaturas teria uma estrutura de dependência recíproca muito forte: cada grau que ascende depende do degrau seguinte para chegar a Deus. Deste modo, nossa felicidade perfeita estaria em estabelecer uma relação de amizade e dependência com os anjos, que estão acima de nós em perfeição na criação, e, já que são felizes, podem nos dar a felicidade de que precisamos. Deste modo, a felicidade dos seres humanos depende da amizade com os anjos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás. 

Há uma ordem no mundo criado, mas essa ordem está inteiramente submetida a Deus, que não faz parte do mundo criado, mas o governa de modo supremo e direto. Uma analogia vai nos ajudar a entender melhor o pensamento de Tomás neste ponto.

Imaginemos um estaleiro, onde se fabricam navios. Ora, no estaleiro existe uma ordem, na qual os operários se submetem aos coordenadores e estes ao engenheiro naval, que projetou o navio. Mas todos eles trabalham em função dos que vão, mais tarde, usar o navio, comandá-lo e dirigi-lo pelos mares afora, a fim de realizar sua missão. O fim supremo do navio não está nas mãos do engenheiro naval, mas do comandante que o dirigirá na sua missão.

De modo análogo, nosso mundo conhece uma ordem interna, na qual cada grau da criação se ordena com o grau posterior e encontra sua realização nele. Mas toda a criação está ordenada para Deus, que comanda tudo, e para quem todos se dirigem. Deste modo, a nossa felicidade suprema está em Deus, e não na ordem dos anjos, e só Deus pode nos conduzir a ela. Embora, é claro, nossos irmãos espirituais possam nos ajudar muito nesse caminho, e de fato o fazem. 

O segundo argumento objetor.

Na ordem do mundo, aquilo que está em ato pode conduzir aquilo que está em potência até seu ato. Por exemplo, a tinta, que está em ato para a cor, pode tornar colorida uma parede sem pintura.

Ora, os santos anjos são felizes em ato. Nós, humanos, somos felizes apenas potencialmente. Nossa alma é capaz de ser feliz, mas, como a parede que não foi pintada, ela tem apenas o potencial para a felicidade, que os anjos já têm em ato. Logo, os anjos podem levar nossa alma da potência ao ato, concedendo-nos a felicidade que eles já têm e nós ansiamos por ter, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Aqui, precisamos fazer uma distinção, diz Tomás.

As coisas que contêm em si mesmas uma perfeição em ato são capazes de transmitir essa perfeição às outras coisas. Por exemplo, o sol é brilhante e quente por natureza, e por isso é capaz de transmitir sua própria luz e calor para os outros seres, iluminando-os e aquecendo-os. Mas uma coisa que recebe de fora uma perfeição e a possui acidentalmente não pode transmiti-la para outras coisas. Por exemplo, uma parede que foi pintada de amarelo não pode transmitir a cor amarela a outra parede, porque possui essa perfeição em ato apenas como uma participação, como uma qualidade que recebeu de outra coisa, a tinta.

De modo análogo, apenas Deus é feliz de modo perfeito e natural, de tal maneira que os santos anjos recebem dele a felicidade e a possuem de modo derivado, participado, análogo, mas não próprio e natural. Assim, não podem transmitir diretamente a nós a felicidade de Deus, porque não a possuem por si mesmos, mas apenas porque são amigos de Deus. Eles podem nos conduzir, nos proteger, nos inspirar, mas não podem nos dar a felicidade em ato – que é de Deus, e de Deus somente. 

O terceiro argumento objetor.

A felicidade é a perfeição do nosso espírito, isto é, é o aperfeiçoamento completo da nossa dimensão propriamente intelectual, entendimento e vontade. Mas o anjo pode inspirar nossa mente com suas iluminações. Logo, ele pode nos encaminhar à felicidade, pelo aperfeiçoamento de nosso espírito por meio de suas iluminações, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Sim, é verdade que os santos anjos podem iluminar nosso espírito, ou mesmo o espírito dos anjos inferiores em capacidade, com aquelas razões e aspectos das coisas de Deus que ultrapassam as capacidades naturais das criaturas espirituais inferiores. Ou seja, os santos anjos podem, de fato, iluminar nossa alma com certos aspectos das coisas de Deus que nos ultrapassam. Mas eles não podem nos conceder a própria visão de Deus, a própria amizade pessoal e presencial com o Pai, no Filho, pelo Espírito Santo. E essa é a nossa felicidade perfeita, que os anjos, por mais santos que sejam, não nos podem conceder, apenas nos ajudar a alcançar. 

  1. Concluindo. 

Há o risco de desenvolver uma fé “angelical” e esperar dos anjos aquilo que só Deus pode nos dar. Esse é um risco presente ainda hoje, em certas correntes, por exemplo, de cristianismo new age. Precisamos nos precaver contra esse risco, e buscar apenas em Deus aquilo que só Deus pode nos dar.