Tenho estado na missa algumas vezes e, como viajo muito, costumo ir à missa em muitos lugares diferentes. e noto alguns “detalhes” litúrgicos que me incomodam. Como leigo e soldado raso da Igreja, muitas vezes me resta lamentar pela pobre compreensão da liturgia que, em alguns casos, revelam. Eis como penso:

A Missa tem seu início no céu, é claro… mas entre nós humanos, na história da salvação, se inicia com a última ceia e a paixão, morte e ressurreição. Cada missa prossegue ininterruptamente esse único sacrifício, como diz a Carta aos Hebreus 7, 27. Não é a repetição, mas a expressão da nossa participação nesse sacrifício que é intra-histórico mas supratemporal.
Talvez seja por isso que a missa começa com uma expressão que, sintaticamente, é uma locução adverbial (ou expressão prepositiva) com valor de adjunto adverbial de conformidade ou modo. Claramente incompleto do ponto de vista gramatical. Vejo até algumas pessoas reclamando: “como é que alguma coisa pode começar com uma frase incompleta, retirada de Mateus 28, 19b, como “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”? Não faz sentido gramatical, dizem. E querem corrigir o missal, acrescentando expressões como “estamos reunidos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, ou “iniciamos nossa celebração em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, para completar o que, julgam, é um erro gramatical.

Mas teologicamente é muito adequado que cada missa comece como uma conversa que continua: a ação que começa, a cada missa, não tem início em nós, mas em Deus e na história da salvação: é como se entrássemos no meio de uma conversa no ponto em que ela está, assim: “(…) em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!” E a comunidade é convidada a responder “amém”.

Tenho a opinião de que, começando com “bom dia” ou “iniciamos nossa celebração em nome do Pai…” ou “estamos aqui reunidos em nome do Pai” estamos fazendo, na verdade, uma “correção litúrgica” equivocada que interrompe esse fluxo contínuo de intercâmbio salvífico com Deus, nos fecha à Tradição, à ação de Deus na história e coloca a comunidade e o Padre como fundamento do que se celebra, no lugar da Trindade. A ação passa a “iniciar” na comunidade, no celebrante, a ter seu princípio teológico em nós, e não na ação da Trindade na história. De acordo com a Instrução Geral ao Missal Romano ( parágrafo 50) o lugar próprio para dar bom dia e introduzir os fiéis à Missa é após a saudação litúrgica própria, e não antes. E faz todo sentido teológico.

Tenho o mesmo desconforto quando vejo algum leitor, na missa, ao se deparar com as palavras “leitura do livro do profeta tal”, não lerem a palavra “leitura”, mas apenas “… do livro do profeta tal”, sob a ideia de que dizer “leitura” significa ler o livro inteiro, o que é falso, mas alguns querem “corrigir” a liturgia e suprimem o verbo. estão desobedecendo à orientação da instrução geral ao lecionário, que expressamente manda ler a expressão inteira.

Outros ainda dizem “palavras do Senhor” e não “palavra do Senhor” após a leitura, achando que a expressão se refere à quantidade de palavras no texto e não à Palavra de Deus, O Filho, que é um só – com grave distorção teológica. Mais uma vez, querendo corrigir o missal, a liturgia daquilo que julgam, individualmente, que é um equívoco. Tenho vontade de dizer-lhes: Deus tem uma palavra só, não é como certos sujeitos que não têm palavra, ou que têm mais de uma palavra e neles não se pode fiar. A Palavra do Senhor, uma vez dada, realiza seus efeitos e não se multiplica!

Confiar na Liturgia é confiar em Deus! Não precisamos corrigi-la individualmente, apenas amá-la e celebrá-la!