1. Introdução e hipótese inicial.

Vimos, no debate anterior, que o ser humano é aberto à felicidade, que consiste na amizade pessoal com Deus. Mas é incapaz de alcançá-la, ou seja, de chegar à plenitude, à felicidade final e completa, por suas próprias forças. A pergunta é: que ajuda externa é essa que o ser humano precisa, para ser encaminhado a Deus como seu fim, sua meta plena, sua felicidade?

A hipótese inicial, aqui, propõe que essa ajuda, essa elevação do ser humano até Deus, para chegar a ser plenamente feliz, é na verdade feita pelos anjos. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese. 

  1. Os argumentos iniciais.

O primeiro argumento parte de uma ideia altamente hierárquica do universo, muito comum na antiguidade. De fato, se o universo é orientado desde as coisas mais simples, como os seres minerais e inanimados, passando pelos vegetais, animais, seres humanos e anjos, e se cada degrau desses sustenta o degrau imediatamente posterior e é, de certo modo, elevado por ele, então, diz o argumento, os seres humanos dependem dos anjos para sua elevação. 

O segundo argumento lembra da noção de “ato” e “potência”; as coisas em ato levam as outras coisas da potência ao ato. Por exemplo, somente uma tinta que está em ato para, digamos, a cor amarela, pode pintar uma parede sem cor que eu quero que seja amarela (potencialmente amarela). Ora, os santos anjos já são felizes, estão em ato para a felicidade. Nós somos apenas potencialmente felizes, temos a capacidade mas ainda não temos a efeitvidade da felicidade. Logo, os anjos podem nos levar da potência ao ato, diz o argumento.

Por fim, o terceiro argumento lembra que a felicidade é, antes de tudo, um aperfeiçoamento do intelecto, que se torna apto a ver Deus pessoalmente. Ora, prossegue o argumento, os anjos são capazes de iluminar os seres humanos intelectualmente, como já vimos quando estudamos a parte 1 da Suma. 

Assim, tentando comprovar a hipótese inicial, os argumentos objetores afirmam que os anjos são responsáveis por elevar os seres humanos a Deus e fazê-los alcançar a felicidade.

No entanto, há um argumento que se opõe à hipótese inicial: o argumento sed contra nos  lembra que, no Salmo 83(84), 12, as Escrituras nos prometem: “O Senhor dá a graça e a glória”. Ora, portanto, diz o argumento, a elevação à felicidade não é obra dos anjos, mas obra do próprio Deus, por sua graça, conclui.

  1.  A resposta de Tomás. 

Aquilo que excede a natureza não pode ser feito por uma natureza mais elevada. Todas as criaturas estão sujeitas aos mesmos limites criaturais, e há ocorrências, na história, cuja causa não pode provir de uma criatura, por mais elevada que seja. É o caso, por exemplo, do milagre de ressuscitar mortos, ou mesmo de curar certas condições de saúde que ultrapassam o poder da ciência, como a cegueira congênita, essas ocorrências dependem apenas e exclusivamente do poder de Deus. Nenhum anjo, por mais elevado na ordem dos espíritos, pode realizá-las. 

Ora, a felicidade humana é algo desse tipo. Não é uma ocorrência natural. Embora nossa natureza seja naturalmente capaz de receber em si o amor infinito de Deus, que é sua própria essência, ela não é capaz de encontrá-lo, de vê-lo, de conhecê-lo por suas forças naturais. Nenhuma criatura é. 

Assim, nenhum anjo pode nos elevar de tal modo a nos capacitar a ver o próprio Deus, sem que Deus nos tenha concedido, diretamente, a graça da conversão e da santificação, em vida, e a glória da sua amizade eterna, após a morte. A santidade é um milagre, como a ressurreição dos mortos e a cura de uma cegueira congênita, ou até maior do que estes. Somente Deus pode operá-la. 

  1. Encerrando por enquanto.

A salvação, ou santificação, é um milagre. É a cura mais perfeita que um ser humano pode experimentar. Não tem paralelo no mundo criatural. Não pode ser feita em nós por ninguém, senão por Deus. Por isso, quem olha para um santo olha para um sinal visível de Deus entre nós.

No próximo texto veremos as respostas específicas de Tomás à hipótese inicial e seus argumentos objetores.