- Retomando para concluir.
O ser humano é capaz de ser levado à felicidade por Deus. Mas ele próprio não pode chegar a ela por seus próprios esforços. Ou seja, somos capazes de felicidade, mas de uma capacidade apenas receptiva. Se permitimos, Deus nos guiará e nos elevará, mas se tentarmos dominá-lo, simplesmente não chegaremos até ele. Esta é a luta mais impressionante da fé: deixar Deus ser Deus, deixar-se ser criatura e saber-se capaz de receber Deus em si, de receber o seu amor e ser feliz ou de rejeitá-lo ativamente e permanecer na infelicidade.
De posse desses princípios, vamos reexaminar os argumentos iniciais e as respostas de Tomás a eles.
- Os argumentos iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
Como lembramos, o primeiro argumento objetor recorda que todas as criaturas são criadas de modo a poder alcançar os fins a que se destinam. Se o desejo mais profundo e a inclinação mais fundamental é a felicidade, não poderiam faltar à nossa natureza os meios para realizar esse fim. Logo, o ser humano possui em si mesmo, em sua natureza, os meios para alcançar sua própria felicidade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A natureza não falha em nos prover daquilo que é necessário ao nosso desenvolvimento, embora não do mesmo jeito que provê os outros seres. De fato, os outros animais, por exemplo, têm pêlos que fornecem proteção térmica e garras que ajudam a obter alimento. Nós temos as mãos e a inteligência, de tal modo que podemos conseguir vestimentas e artefatos para obter alimento. Não podemos nos esquecer, portanto, que a inteligência é parte da natureza humana, e por isso temos que incluir na conta da natureza aquilo que obtemos pela inteligência. Ora, a inteligência humana não é suficiente para que conquistemos por nós mesmos a felicidade, mas nos habilita a consegui-la na medida que ela nos abre a Deus. É a inteligência que, iluminada pela graça, recebe e vive a fé que gera a amizade com Deus em nós, e nos conduzirá à felicidade final que nos será dada por essa amizade. Neste sentido, a felicidade está a nosso alcance, porque nos é dada pela amizade com Deus, ou seja, pelo próprio Deus como nosso amigo. E “aquilo que podemos alcançar com a ajuda de nossos amigos está, de certo modo, ao nosso próprio alcance”, diz Aristóteles no Livro III da Ética a Nicômaco.
O segundo argumento objetor.
Este argumento quer fazer uma comparação da nossa natureza com a das outras criaturas vivas. De fato, diz o argumento, os outros animais possuem todos os meios para atingir os objetivos para os quais foram criados. Ora, nós não poderíamos ser as únicas criaturas que não possuem os meios adequados à obtenção dos seus fins últimos. Logo, possuímos as ferramentas adequadas, em nossa própria natureza, para atingir nosso objetivo de plenitude, a que chamamos de felicidade, conclui este argumento.
A resposta de Tomás.
Se algum ser está aberto a atingir o bem mais elevado, mais perfeito de todos, mesmo que apenas possa fazê-lo se for ajudada por recursos externos, é mais perfeita, mais nobre, do que aqueles seres cuja natureza nem é capaz de desejar o bem mais elevado. Quem ensina isto é Aristóteles, na obra “Sobre o Céu”.
A intuição de Aristóteles não dizia respeito, originalmente, à relação entre o ser humano e Deus, mas podemos usá-la também neste sentido. De fato, embora a inteligência humana seja capaz de perceber que deve existir um Deus, como já vimos na questão 2 da primeira parte da Suma, a natureza humana não consegue alcançar Deus por suas próprias forças. A ajuda da graça santificante é necessária: Deus nos elege, nos chama à conversão e nos fortalece, pela graça, até a glória da salvação, ou seja, até a amizade plena com Ele. A natureza humana, justamente por ter essa “abertura natural a Deus”, pode receber a graça que a conduz à salvação. As outras criaturas vivas não possuem a capacidade reflexiva de intuir que há um Deus que as criou, e por isso sua natureza irracional não pode ser elevada pela graça até a glória, que é a felicidade eterna.
Com isso, podemos dizer que a natureza humana, por ser capaz de atingir a felicidade eterna com Deus, embora com a ajuda da graça, é mais perfeita do que as naturezas das outras criaturas, que, embora possam atingir seus objetivos sem ajuda externa, são capazes apenas de objetivos muito inferiores.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento parte de duas ideias: 1. O ser humano é um ser progressivamente capaz de se aperfeiçoar. 2. O ser humano é verdadeiro autor de suas ações, é capaz de escolhas e atuações livres e de responsabilidade no agir, quanto às ações naturalmente mais simples da vida cotidiana, embora essa liberdade e essa responsabilidade sejam imperfeitas e, muitas vezes, cheias de falhas.
Ora, se o ser humano é capaz de aperfeiçoar-se e é capaz de comportamentos livres e responsáveis, ainda que imperfeitos, no caminho da felicidade nesta vida, nada impediria que, por disciplina e educação, ele não fosse gradativamente se aperfeiçoando até ser capaz de agir também no campo da felicidade eterna, atingindo-a por suas próprias forças naturais, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Aqui, diz Tomás, temos que fazer uma distinção. As coisas podem ser aperfeiçoadas apenas na mesma espécie de coisas, não quando as linhas de ação pertencem a coisas de espécies diferentes.
Tomemos como exemplo um velho violão de baixa qualidade e um piano de caudas sofisticado e caro. Não existe dúvida de que o piano é um instrumento mais perfeito do que o velho violão. Mas um mau músico, que toque sofrivelmente esse velho violão, pode até se aperfeiçoar e vir a ser um bom tocador de seu violão pobre. Mas, por mais que se aperfeiçoe, todo o seu progresso no violão jamais fará dele um bom pianista.
Algo similar, numa escala muito maior, acontece com a felicidade eterna. A felicidade imperfeita e limitada que podemos obter nesta vida, como já vimos em outros debates, não pertence à mesma espécie da felicidade sobrenatural que aguarda os santos na eternidade. Por isso, ainda que alguém desenvolva as virtudes e habilidades capazes de alcançar uma vida razoavelmente bem realizada aqui na terra, isso não seria suficiente para fazê-lo alcançar aquilo que não é da ordem natural, mas da ordem sobrenatural: a amizade com Deus, que é a única felicidade perfeita na eternidade. Por isso, nenhum esforço humano pode conquistar a felicidade eterna (embora possa perdê-la), mas apenas a elevação pela graça santificante. Por isso, diz Tomás, o argumento não é correto.
- Concluindo.
A frase “ninguém pode antecipar-se à graça de Deus” reflete o ensinamento católico fundamental de que a graça divina é um dom gratuito, precedente e iniciador de qualquer ato de conversão ou mérito humano. Deus sempre toma a iniciativa de amar e chamar o ser humano.
Mas se o coração humano não fosse capaz de receber essa graça – como não são as outras criaturas vivas – essa elevação simplesmente não poderia ocorrer. O ser humano é, como diziam os antigos, capax Dei. O ser humano foi criado com uma natureza que possui uma abertura intrínseca para o Transcendente. Ser capax Dei significa que a natureza humana é habilitada para participar da vida divina, sendo sustentada pela graça de Deus. Deste modo, somos capazes de receber a felicidade eterna, mas não de conquistá-la por nossos próprios esforços.
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