- Retomando.
Há espaço, de verdade, para o self-made man no campo da verdadeira felicidade? Somos capazes de ser felizes, isto sabemos. Movemo-nos sempre nesta direção, já o sabemos também. A pergunta que se debate aqui é justamente essa: podemos ser felizes por nossas próprias forças, ou a felicidade depende de forças mais elevadas do que as nossas?
Vimos a hipótese de que podemos, sim, ser felizes por nossas próprias forças. Três argumentos tentam comprovar esta hipótese; o primeiro lembra que todos os seres são criados de tal modo a alcançar o fim a que se destinam; se nosso fim é a felicidade, do mesmo modo que a semente de uma árvore já tem em si, naturalmente, todos os elementos da árvore de maneira potencial, então nós, humanos, também já temos os elementos potenciais necessários para a felicidade, cabendo-nos cultivá-los. O segundo argumento lembra que os outros seres possuem naturalmente as aptidões para atingir seus objetivos, e que, se nosso objetivo é ser feliz, devemos possuir naturalmente as aptidões para isso em nós mesmos. Por fim, o terceiro argumento lembra que nossa natureza é aperfeiçoável, e por isso devemos possuir a capacidade de nos aperfeiçoar completamente até atingir a felicidade.
Mas o argumento que se opõe à hipótese inicial nos lembra que a felicidade a que almejamos ultrapassa tudo o que somos capazes de planejar ou sonhar, como diz a primeira Carta aos Coríntios, 2, 9, de tal modo que apenas com uma força maior do que a nossa é que conseguimos atingi-la.
Estudemos agora a resposta de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Existe uma felicidade limitada, efêmera, imprópria, que podemos começar a viver nesta vida mesma, pelo desenvolvimento de uma vida virtuosa e atenta à busca do bem e da amizade com Deus e com os irmãos. Para essa felicidade as nossas forças naturais podem ser suficientes, porque as virtudes humanas, intelectuais e morais, cardeais ou secundárias, podem ser exercidas e desenvolvidas por uma vida disciplinada e honesta. Mais à frente, ainda nesta primeira seção da segunda parte – especificamente na questão 63 – Tomás tratará mais detidamente da satisfação e da alegria de viver uma vida com as virtudes naturais.
Mas esta não é a felicidade em sentido próprio, como já vimos nos debates anteriores. De fato, a felicidade humana está na relação face a face com Deus, na amizade de presença com Ele. Mas chegar a tal relação pessoal, a ver Deus face a face, é algo que ultrapassa nossas capacidades naturais. Aliás, não somente a capacidade do ser humano, mas de qualquer criatura, mesmo os anjos mais elevados.
De fato, a criatura conhece as coisas criaturais, e Deus não é uma criatura. E o conhecimento das criaturas se ajusta à natureza da própria criatura: se os anjos são capazes de conhecer direta e intuitivamente, mesmo as coisas espirituais, nós humanos somente conseguimos conhecer diretamente as coisas que se dão aos nossos sentidos, e apenas indiretamente as coisas espirituais que estão na esfera das coisas criadas.
Assim, nem nós, nem os anjos, nem qualquer criatura, pode iniciar uma verdadeira amizade com Deus, muito menos uma amizade de presença, face a face, simplesmente porque Deus está em outra esfera de existência, além do alcance das forças naturais das criaturas.
Mas o ser humano tem, em sua natureza, a necessidade de Deus para ser feliz, embora não tenha a capacidade de encontrá-lo ou de se relacionar com ele. Não podemos, não conseguimos, portanto, ser felizes no sentido pleno apenas pelas nossas forças, porque é preciso que Deus, pela Sua graça maravilhosa, nos alcance e nos eleve sobrenaturalmente até ele para que o conheçamos e amemos, e assim possamos ser felizes.
Em suma, o ser humano não pode ser feliz sem Deus, apenas por suas forças naturais. Mas ele é capaz de receber essa força divina e pode se deixar elevar até a felicidade.
- Encerrando por enquanto.
Somos naturalmente abertos à felicidade, mas incapazes de atingi-la por nossas próprias forças. Precisamos de uma enorme humildade espiritual para nos deixar encontrar por Deus e receber sua graça santificante, que nos eleva sobrenaturalmente para aquilo que, já naturalmente, ansiamos mas não alcançamos. Ou, ainda com Agostinho, podemos dizer: fomos feitos para ti, e nosso coração não tem repouso até descansar em ti.
Lembrando sempre que a iniciativa e a consumação dessa elevação está exclusivamente nas mãos de Deus.
No próximo texto, munidos desses belos conhecimentos, examinaremos os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
Deixe um comentário