1. Introdução.

O ser humano é uma criatura realmente peculiar: por um lado, possui uma natureza biológica que exibe, ponto por ponto, menos perfeição do que a natureza biológica de outros animais. Nossos olhos são mais limitados do que os olhos das águias, que, aliás, conseguem voar, coisa que não fazemos. Não somos fortes como os ursos nem hábeis caçadores como as raposas, e a lista segue longe. Por outro lado, somos capazes de reflexão, de aprendizagem e, principalmente, daquilo que nenhuma outra criatura biológica consegue: somos capazes de intuir a existência de Deus e louvá-lo. 

Outro aspeto muito interessante é o nosso fim, ou finalidade. Os outros seres biológicos são capazes de nascer, crescer, reproduzir, se alimentar e morrer, e nisto atingem a sua finalidade plenamente. Não existem criaturas biológicas com dramas existenciais sobre a razão de sua existência: eles simplesmente existem e atingem, desse modo, sua razão de existir. Mas nós, humanos, parecemos buscar algo que somos sempre incapazes de atingir, estamos sempre insatisfeitos com aquilo que buscávamos antes, cada conquista nossa sempre é seguida pela percepção de que, afinal, aquilo parece pouco, e se faz necessário buscar mais. Estamos sempre abertos a uma realização que, embora possamos desejar, ultrapassa qualquer coisa que podemos atingir. 

Desse paradoxo surge a questão que vamos debater agora. Será que podemos realmente obter, por nossos próprios esforços, por nossas habilidades naturais, por meios naturais, a felicidade pela qual ansiamos? Vamos ao debate.

  1. A hipótese controvertida inicial. 

A hipótese controvertida inicial nos propõe que o ser humano pode alcançar a felicidade por suas próprias forças; tudo seria uma questão de esforço, disciplina, um pouco de sorte e muito trabalho, algumas renúncias e pensamento positivo, talvez, e poderíamos, sendo boas pessoas, chegar a ser felizes no próprio paraíso, com Deus ou sem ele. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

  1. Os argumentos iniciais em favor da hipótese.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que todas as criaturas são criadas de modo a poder alcançar os fins a que se destinam. ora, o fim humano é repousar na plenitude, satisfeito – quer dizer, feliz. Se este é o desejo mais profundo, e é de certo modo a razão pela qual nós existimos, não poderiam faltar à nossa natureza os meios para realizar esse fim. Logo, o ser humano possui em si mesmo, em sua natureza, os meios para alcançar sua própria felicidade, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor.

O ser humano é uma criatura mais nobre, mais evoluída, do que os animais irracionais. Ora, os outros animais possuem todos os meios para atingir os objetivos para os quais foram criados – os que voam possuem asas, os que caçam possuem presas, os que respiram sob a água possuem guelras e assim por diante. Ora, nós não poderíamos ser as únicas criaturas que não possuem os meios adequados à obtenção dos seus fins últimos. Logo, possuímos as ferramentas adequadas, em nossa própria natureza, para atingir nosso objetivo de plenitude, a que chamamos de felicidade, conclui este argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Segundo Aristóteles, a felicidade é uma operação perfeita (Ética a Nicômaco, VII, 13). Ora, o que caracteriza uma operação perfeita é a capacidade de iniciar e terminar completa e adequadamente aquilo que se pretendia. Mas o ser humano tem o domínio da ação imperfeita, que está no início do seu agir, e pela qual ele controla sua própria operação, sendo responsável por ela. Assim, pelo processo de aperfeiçoamento, de desenvolvimento de capacidades e virtudes, podemos imaginar que o ser humano seja capaz de desenvolver um princípio de ação cada vez mais aperfeiçoado, de modo a conseguir, por suas próprias forças, uma operação perfeita, com a obtenção de seus fins de modo pleno, por suas próprias forças. Assim, podemos concluir que o ser humano é capaz de atingir a felicidade por suas próprias forças naturais, conclui este argumento. 

  1. O argumento contrário à hipótese inicial.

O argumento contrário à hipótese inicial lembra que, se por um lado o ser humano é, naturalmente, capaz de dar início ao seu próprio agir, deliberando por sua inteligência e por sua vontade e atuando no mundo, por outro lado as Escrituras nos lembram que a felicidade que espera os santos ultrapassa as capacidades da inteligência e da vontade humanas, como ensina São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios 2, 9: “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração imaginou, eis os bens que Deus preparou para aqueles que o amam”. Se esta é a felicidade, então não se pode alcançá-la apenas com as forças naturais dos seres humanos, conclui este argumento.

  1. Encerrando por enquanto.

Ansiamos pela felicidade, lutamos para que nossos fins nos levem à plenitude, buscamos a satisfação completa a cada passo. Mas podemos pressentir que nossos esforços jamais poderão nos levar a uma satisfação completa dos nossos corações. 

Como responder a esse anseio? É o que veremos no próximo texto.