1. Retomando para concluir.

Há duas noções que são essenciais, segundo Tomás, para que possamos viver uma vida digna dos filhos de Deus e possamos ser tão felizes quanto seja possível: 1) que não seremos realmente felizes nesta vida, e acreditar nisso é um grave erro de enormes consequências, e 2) que seremos perfeitamente felizes, de modo definitivo e completo, na vida eterna, se morrermos em amizade com Deus. Esquecer desta última parte também leva a consequências enormes. Ou seja, a frase da canção de Jobim e Bonfá (“tristeza não tem fim, felicidade sim”) é verdadeira apenas se considerarmos estes dois aspectos da felicidade. 

Vimos tudo isto nos textos anteriores. Sabemos agora que a felicidade eterna dos santos não pode ser mais perdida. Agora vamos voltar aos argumentos objetores iniciais, que tentavam comprovar justamente o contrário disso, e vamos estudar as respostas de Tomás a eles.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que a felicidade é uma completude, o atingimento de um estado de perfeição. Mas apenas aquilo que é imperfeito pode ser aperfeiçoado. O ser humano, diz o argumento, é imperfeito por natureza, e pode, por sua liberdade, sempre passar por um processo de aperfeiçoamento ou de derrocada. Assim, a felicidade sempre pode ser perdida por nós, conclui este argumento. 

A resposta de Tomás.

A bem-aventurança dos santos é um estado em que o ser humano, pela graça de Deus, se deixa elevar à relação pessoal com Deus, em quem não há imperfeição, nem transitoriedade, nem incompletude nenhuma. Essa elevação retira de nós toda incompletude, toda imperfeição, todo processo, e já não há caminhada, porque Deus mesmo é o nosso objetivo. Somos, pelo poder divino, elevados pela graça ao estado definitivo de união amorosa com ele, no qual toda consumação, toda plenitude é atingida e já não há mudança possível. A liberdade já não conterá a possibilidade de perder o bem, porque possuirá aquele que é o bem infinito e pleno. Logo, a felicidade dos santos não pode ser mudada, conclui Tomás. 

O segundo argumento objetor.

A felicidade, diz o argumento, é basicamente o resultado de um discernimento no qual a nossa inteligência assimila o bem, conhecendo-o, e o apresenta à vontade, que exercerá, com base nas informações trazidas pela inteligência, a opção entre as alternativas que lhe são oferecidas, inclinando o querer para aquela que, por seu discernimento, conduz à felicidade. Acontece que esse processo envolve a possibilidade de conhecer mal, ou escolher mal, e portanto perder a felicidade. Logo, a felicidade pode ser perdida pelo ser humano a qualquer momento, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Neste mundo em que vivemos, nada tem valor de bem absoluto, e a nossa liberdade envolve discernir, dentre os bens limitados que conseguimos conhecer, aqueles mais próprios para nos conduzir ao bem, à felicidade. Mas, como já sabemos, nossa vontade não escolhe seu fim último, que é a felicidade final e total, que se encontra em Deus – que é bom sob todas as dimensões e enfoques possíveis. Deste modo, ao chegar na presença de Deus, não precisamos mais escolher entre alternativas, porque não há alternativa ao bem de Deus e à felicidade que ele nos dá. Uma vez que o objetivo final do ser humano é a felicidade, e não há felicidade em sentido próprio senão somente em Deus, nele, na sua amizade face a face, a vontade humana deseja livremente aquilo que necessariamente deve desejar para ser feliz. Logo, uma vez alcançada a felicidade definitiva em Deus, já não a podemos perder, conclui Tomás. 

O terceiro argumento objetor. 

O fim de alguma coisa deve sempre corresponder ao seu princípio. Somente aquilo que não tem princípio é que pode também não ter fim. Mas as coisas que começam devem necessariamente acabar em algum momento, porque aquilo que começa é contingente, e seu fim deve ser contingente também. Ora, sabemos que o ser humano tem um início, e a sua felicidade também não está presente desde o início, mas é o resultado de uma busca ativa. Logo, uma vez que a felicidade humana tem um princípio contingente, deve ter, também, um fim em algum momento. Portanto, a felicidade humana sempre pode ser perdida, conclui este argumento. 

A resposta de Tomás.

A felicidade humana tem um início de fato. Viver na graça, corresponder virtuosamente ao amor de Deus, morrer em amizade com Deus, tudo isso nos introduz numa felicidade que não nasceu conosco, e à qual chegamos em algum momento.

Mas isso não significa que a nossa felicidade precise ter um fim, como consequência de ter tido um início. Na verdade, o princípio da nossa felicidade é o próprio Deus, que é a felicidade sem início e sem fim, e portanto o princípio da nossa felicidade não é contingente, mas absoluto. Deste modo, não se pode confundir o início da felicidade humana, que é contingente, e o princípio da felicidade humana, que é Deus. E, uma vez que esse princípio é absoluto, a felicidade resultante também não é contingente, e já não pode ser perdida, conclui Tomás. 

  1. Concluindo.

É impressionante essa distinção de Tomás entre o início da nossa felicidade, que é sempre contingente para cada ser humano, e o seu princípio, que é o próprio Deus. Uma vez atingida a união de amizade presencial com Deus, nada pode nos afastar dele. Outra distinção muito importante é aquela entre a possibilidade de escolher e a liberdade mesma: a possibilidade de escolha não é parte necessária da liberdade senão neste mundo, no qual não vemos Deus face a face. Uma vez que a liberdade é a capacidade de distinguir o bem, elegê-lo e alcançá-lo, quando estivermos face a face com o bem absoluto a capacidade de discernimento e eleição não terão mais sentido: nossa liberdade consistirá em querer necessariamente aquilo que livremente amamos e precisamos.