1. Retomando.

O ser humano é um ser provisório, processual, obscuro a si mesmo, detentor de um conhecimento e de um autoconhecimento limitados, existente e individualizado na matéria. Isto tudo é verdade, e por isso é muito difícil, para nós, aceitar o fato de que há criaturas inteligentes que não são assim. Os anjos não são individualizados pela matéria, mas são mente que pensa a si mesma, que conhece tudo o que é necessário conhecer. aquilo que o anjo não conhece de si mesmo simplesmente não existe. Deste modo, o anjo não faz descobertas, não depende de discernimento, não desconhece os requisitos e as consequências da própria escolha e não pode se arrepender. O anjo é feliz de uma vez, estavelmente, ou se perde completa e irremediavelmente para sempre. Conosco as coisas não são assim.

A questão é: existe a possibilidade de que os seres humanos, em alguma fase de sua existência, cheguem a uma felicidade permanente, estável, eterna – ou mesmo a uma perdição irremediável, de impossível arrependimento e perdão? 

Vimos, no texto passado, a hipótese de que tal felicidade seria incompatível com a própria natureza humana, a hipótese propunha que a felicidade humana que podemos esperar é sempre provisória, instável, e sempre pode ser perdida, mesmo na eternidade. Vimos três argumentos iniciais que tentavam comprovar esta hipótese. 

O primeiro argumento lembra que a própria natureza processual do ser humano impediria um estado definitivo e permanente de felicidade em qualquer momento. O segundo argumento lembra que a liberdade humana, que sempre pressupõe a capacidade de escolher, também envolve a capacidade de escolher equivocadamente e, portanto, de perder a felicidade. O terceiro argumento lembra que há uma proporção entre o fim e o início de cada coisa; e o início do ser humano é precário, desprovido de perfeição, contingente e frágil, o que demonstra que a felicidade estável e definitiva não é algo inscrito na natureza humana desde o princípio, e, por isso, é inatingível para nós (ao contrário dos anjos, que já nascem estáveis e completos). 

Mas o argumento contrário nos traz as Escrituras, que, em Mateus 25, 46, diz que os santos irão para a vida eterna, que é bem-aventurança plena e definitiva em Deus, e é esta a esperança a que somos chamados. Logo, a felicidade eterna, estável e definitiva está dentro do horizonte humano. 

Munidos destes elementos, examinamos agora a resposta sintetizadora de Tomás. 

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

A felicidade nesta vida.

Tomás não tem dúvida de que a felicidade precária, imperfeita, analógica, que podemos experimentar nesta vida, pode se perder facilmente, e de fato isso acontece muitas vezes. Para esta vida, vale o ditado “não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe”. 

De fato, mesmo aqueles que se dedicam a uma vida de contemplação, monástica mesmo, que podem parecer protegidos contra a agitação exterior dos negócios mundanos, ainda experimentam sempre a possibilidade da doença, da demência, do envolvimento com necessidades, corporais e práticas, desagradáveis ou desgastantes, a perda de pessoas amadas e outros infortúnios, capazes de desviar o coração mais contemplativo da estabilidade da felicidade.

Na vida ativa, poderíamos nos deparar com aqueles desvios da vontade que acabam destruindo as virtudes, transformando-as em vícios, como aqueles que, dedicados ao trabalho duro, desenvolvem um transtorno de burnout ou viram workaholics e descuidam da família ou do envolvimento comunitário. Sem falar dos embates cotidianos, a luta pela vida, a disputa de poder, a opressão dos governantes, tudo isso, mesmo quando não afasta o ser humano de sua vida virtuosa, pode vir a tirar a paz e afastar da felicidade – mesmo daquela felicidade provisória e precária que vivemos aqui. 

É por isso, por vivermos uma vida histórica, processual, progressiva, muitas vezes surpreendente e trágica, sujeita a aprendizagem e a arrependimento, que o ser humano não pode conhecer, ainda aqui, uma felicidade permanente e inalterável. Com relação a esta vida, a felicidade permanente não é de se esperar. E esta é uma boa notícia, porque direciona nossos esforços à felicidade esperada como virtude teologal da esperança.

A felicidade eterna dos santos.

Mas outra coisa é a felicidade eterna daqueles que morrem em amizade com Deus. 

Sabemos que os reencarnacionistas (e mesmo alguns escritores eclesiásticos antigos, como Orígenes) acreditam que a felicidade, mesmo depois da morte, pode ser perdida, isto é, mesmo os que morrem na amizade com Deus podem vir a perdê-la depois de mortos. Para estes, não existe um estado permanente de felicidade nem depois da morte. Mas, segundo pensa Tomás, eles estão errados, por dois motivos:

  1. Por definição, e por experiência existencial, sabemos que o coração do ser humano é inquieto, é um buraco sem fim de desejos e inclinações. Cada vez que conquistamos alguma coisa, alguma realização, já nos inquietamos com a possibilidade de perdê-la e desejamos mantê-la conosco. Ao mesmo tempo, já estamos desejando outra coisa. Assim, nosso coração só se aquietaria se atingisse o bem perfeito, absoluto, inesgotável, que preenchesse completamente o coração e não pudesse ser perdido. Portanto, para que possamos falar de uma perfeita felicidade, ela tem que incluir necessariamente a impossibilidade de ser perdida

Ora, se o coração do ser humano se aquieta na felicidade e conserva a dúvida sobre sua permanência, então não é feliz verdadeiramente, porque viverá sempre a aflição de poder perdê-la ou a convicção de que a perderá no futuro. Ora, essa aflição, ou mesmo essa convicção, presente num coração, demonstram que esse coração não é feliz de fato, porque ainda conserva o temor de ser infeliz (não goza da felicidade plena), quer porque a felicidade que tem não é plena, quer porque está enganado a respeito da própria felicidade eterna. Neste último caso, sua convicção é falsa, o que demonstra que, também nesse caso, seu coração conserva um engano, uma falsidade, e ninguém pode ser feliz e estar enganado ao mesmo tempo. Logo, a possibilidade de perda é incompatível, em qualquer hipótese, com a felicidade plena e final.

  1. A outra razão vem da própria noção de que a felicidade consiste numa relação de presença com Deus, que nos permite vê-lo assim como ele é. Ora, se Deus é o bem supremo, fonte e cume de todo bem, é impossível que nosso coração queira abandoná-lo, porque somente se abandona um bem quando se vislumbra a possibilidade de alcançar um bem ainda maior ou a necessidade de se afastar de alguma imperfeição ou de algum mal. Mas não pode haver bem maior do que Deus, em quem não há nenhum mal nem imperfeição. Logo, não há a possibilidade de que um coração humano queira perder a visão de Deus, que é a própria felicidade, quando a conquista.

Logo, a presença de Deus para a alma, numa relação de amizade e proximidade, sacia e plenifica a alma, e exclui qualquer desejo de mudança, como diz a Bíblia no Salmo 16(17), 15: ao despertar, saciar-me-ei com a visão da Tua face. Ou o Livro da Sabedoria de Salomão (7, 11): com ela, me vieram todos os bens, quer dizer, com a contemplação presencial da sabedoria divina. Da contemplação de Deus, de sua infinita sabedoria, ninguém jamais se fartará ou sentirá outras necessidades, como diz o mesmo Livro da Sabedoria (8, 16): porque sua convivência não tem nada de desagradável, e sua intimidade, nada de fastidioso. É claro, portanto, que nenhum santo escolheria, jamais, abandonar a amizade com Deus na eternidade.

Deus não rejeita seus amigos.

Alguém poderia, no entanto, argumentar que, se por um lado os santos jamais sentirão o desejo de abandonar Deus, quando o vêem face a face na eternidade, por outro lado Deus poderia aborrecer-se deles e rejeitá-los de sua presença. Mas isso é impossível.

De fato, Deus é amor, e, mais do que isso, é a própria justiça. Se os santos, aqueles que morrem em amizade com Deus, estão justificados e, vivendo uma vida de virtudes teologais (e mesmo de busca das virtudes cardeais e naturais), já não carregam consigo a marca do pecado, nem sequer de seus efeitos. ao entrar na vida eterna em plenitude. Uma vez contemplando a essência de Deus, já não querem, nem precisam, nem podem pecar, pelo que não se afastam mais de Deus. Por outro lado, Deus não tem uma vontade volúvel, nem está sujeito a emoções humanas ou a mudanças de humor. Assim, não haveria motivo, por parte de Deus, para excluir qualquer dos santos da condição de felicidade eterna.

  1. Encerrando por enquanto.

Vemos, deste modo, que não existe a possibilidade de perder a felicidade eterna da bem-aventurança, quando o santo morre em amizade com Deus. E que a maior felicidade possível, nesta vida, é viver, pela fé, esperança e caridade, essa antecipação da eternidade desde já, como lembra Hebreus 11, 1. Qualquer instabilidade na alegria decorre apenas do fato de que, enquanto vivemos neste mundo, estamos sujeitos a uma instabilidade que os justos, na eternidade, já não conhecem.

No próximo texto, munidos destes princípios, revisitaremos os argumentos objetores iniciais, para estudar as respostas de Tomás a eles.