- Introdução.
A qual esperança fomos chamados? Vimos, no artigo anterior, que a felicidade em sentido próprio não se pode viver nesta vida, porque deve ser plena, estável, firme e consolidada. É a amizade com Deus, vivida face a face, à qual se chega pela graça respondida com a virtude.
A pergunta que se põe agora é: pode-se perder a felicidade? Uma vez alcançada, ela pode ser perdida?
Havia um antigo samba de Tom Jobim e Luiz Bonfá cujo refrão é: “Tristeza não tem fim felicidade, sim”. Será que eles têm razão? É o que debateremos agora.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial propõe, para estimular o debate, que a felicidade pode ser perdida. E ela fala, aqui, da felicidade em sentido próprio, pleno, incondicional, e não apenas da alegria instável e fugaz que podemos gozar nesta vida, movidos pela esperança. A hipótese não distingue esta alegria da felicidade eterna dos bem-aventurados, quando propõe que se poderia perder a felicidade. Há três argumentos iniciais que tentam sustentar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que a felicidade é o repouso na plenitude, na perfeição desejada e atingida pelo ser humano. Mas o ser humano é um ser sempre em construção, é uma criatura imperfeita, processual, mutável; sua natureza é a de estar sempre a caminho, sempre em aperfeiçoamento. Logo, se esta é a natureza humana, então a felicidade que pode alcançar é também sempre provisória, mutável, processual, e pode sempre ser perdida. Logo, a felicidade do qual o ser humano pode participar é sempre contingente e pode ser perdida, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
A felicidade é um processo que depende da dimensão propriamente espiritual do ser humano, ou seja, de um discernimento intelectual que inicia com a apreensão, que é um crescimento intelectual, ou seja, um processo de aprendizagem, e um direcionamento da vontade, que, deparando-se com a possibilidade de escolher entre as diferentes (e às vezes opostas) possibilidades de caminho que se apresentam, escolhe aquela que lhe faz feliz. Ora, a escolha sempre pressupõe a possibilidade de erro, a abertura ao equívoco. Por isso, o ser humano, em sua liberdade, sempre estará sujeito a escolher mal e, com isso, perder a liberdade. Logo, a felicidade sempre pode ser perdida, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O fim de algo corresponde sempre a seu princípio, diz o argumento, citando um princípio filosófico bastante conhecido em seu tempo. Se o fim de alguma coisa, por exemplo, é a destruição, seu princípio é frágil e contingente.
O ser humano, como sabemos, não é originalmente feliz. Ele não nasce feliz, não possui a felicidade como um princípio inscrito em si mesmo. Logo, a sua felicidade final também não está entranhada nele de modo permanente e definitivo, mas deve ser igualmente precária e fugaz. Logo, o ser humano, mesmo que atinja a felicidade final, pode vir a perdê-la, diz o argumento em conclusão.
- O argumento contrário à hipótese inicial.
Quando fala do destino dos justos, as escrituras nos dizem que eles “irão para a vida eterna”, que é, como sabemos, a própria vida divina. A bem-aventurança dos santos não é outra coisa senão gozar da própria vida divina, portanto. Mas a vida divina não tem instabilidade, não é precária e não termina nunca. Logo, a felicidade, em sentido próprio e pleno, uma vez obtida não pode ser perdida jamais, conclui este argumento.
- Encerrando por enquanto.
Para onde aponta esta catedral que São Tomás construiu para nós, e na qual estamos mergulhados neste exame detalhado já há alguns anos? Esta catedral medieval, a Suma Teológica, aponta firmemente para o céu, sem os males do ceticismo e da crítica radical dos nossos dias. Em resumo, a esperança que Tomás ensina é uma esperança completa, confiante, capaz de dar base aos nossos pés. Construir a casa sobre a rocha (Mt 7, 24) significa saber que a salvação não é uma espécie de bilhete para um clube celeste de privilegiados, mas é o gozo definitivo e perpétuo de uma proximidade completa com a Trindade, ela própria fonte e cume da felicidade. Se esperamos isto, se buscamos isto, não nos decepcionaremos, porque estaremos no rumo certo.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás, neste interessante debate.
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