1. Retomando para concluir.

Queremos ser felizes. Esta é a motivação fundamental que nos leva a buscar viver, e viver bem. Quem não quer ser feliz, quem renunciou a essa busca, cai num estado patológico, seja de depressão que paralisa, seja de sociopatia destrutiva, seja de uma acédia cínica incapaz de gratidão. 

Ser feliz é um desejo fundamental, raiz de toda ética, porque qualquer espírito minimamente aberto à realidade percebe logo que o caminho da felicidade é o caminho da virtude. Caminho árduo, desafiante, mas gratificante.

O problema não está somente em desistir de ser feliz. Há, por outro lado, o risco de acreditar que a felicidade é algo para esta vida, para esta existência biológica, que somente não é atingido por causa de uma suposta estreiteza de mente das pessoas. O risco de acreditar em utopias, seja em utopias religiosas sectárias, seja em utopias sexuais, seja mesmo em utopias sociais ou econômicas, torna-se muito claro nos muitos desastres que presenciamos no século passado e no nosso. A perda da noção de que qualquer felicidade nesta vida será sempre limitada e pressupõe o desenvolvimento de virtudes nos levou a desastres sucessivos. Resgatar, pois, a certeza de que há uma felicidade limitada, tênue e fugaz que pode e deve ser buscada nesta vida, mas há uma felicidade plena, estável e perpétua a ser alcançada na eternidade pela relação de amizade com Deus é o que nos livra de ilusões e nos encaminha a uma vida verdadeiramente ética.

De posse desses princípios, vamos revisar, agora, os argumentos iniciais, que queriam nos provar que uma felicidade plena já nesta vida seria possível, estudando, simultaneamente, as respostas que Tomás nos oferece quanto a eles. 

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento cita o salmo 118(119), 1, que reza: “Felizes aqueles cuja vida é pura e seguem a lei do Senhor”. Ora, o salmo está se referindo, claramente, a esta vida, aqui na Terra, e declarando felizes aqueles que vivem, já aqui, com o coração puro e obedecendo a Deus. Logo, conclui o argumento, a felicidade plena pode ser atingida já aqui na Terra.

A resposta de Tomás.

Há, realmente, uma felicidade, ainda que estreita e limitada, que pode ser alcançada já nesta vida, quando se vive em comunhão com o Senhor e se busca sua vontade. Mas é uma felicidade ainda incompleta, vivida na esperança (como se diz em Romanos 8, 24: é na esperança que fomos salvos. Vale dizer: a felicidade vivida nesta vida envolve uma certa antecipação da felicidade eterna, usufruída como esperança na eternidade, única que se proclama como felicidade em sentido próprio – e é por isso que a esperança é uma virtude própria desta vida e não da eternidade.

O segundo argumento objetor.

No artigo anterior, vimos que há diversos graus de participação na felicidade divina, mesmo entre os santos. Ora, se o fato de que as pessoas que morrem em plena amizade com Deus podem experimentar diversos níveis de proximidade com Ele na eternidade, e mesmo assim dizemos que todos eles são, do mesmo modo, plenamente felizes, então não podemos excluir do mesmo conceito de felicidade aquela que podemos alcançar nesta vida, embora imperfeita, diz o argumento. Logo, o ser humano pode ser feliz ainda nesta vida, conclui.

A resposta de Tomás.

Há duas maneiras de falar sobre as diferenças nas bem-aventuranças:

  1. A primeira maneira é aquela que diferencia os que estão na presença mesma daquilo que é a perfeita felicidade, Deus, e os que ainda não podem vê-lo plenamente, pessoalmente, mas apenas podem entrar em relação mediada, sacramental, com ele. A diferença entre a felicidade dos que têm a visão beatífica de Deus de modo pleno, na eternidade, e os que caminham ainda na esperança, aqui nesta vida, não é uma simples diferença de grau, mas é uma diferença de essência: aqueles são felizes em diferentes graus. estes últimos não são propriamente felizes, mas gozam antecipadamente de certa alegria de caminhar com o Senhor. 
  2. A diferença de bem-aventurança entre os santos é de outra natureza: todos são felizes no céu, ao lado da Trindade, a quem contemplam pessoalmente. Uns, porém, são mais abertos à glória, por terem vivido mais intensamente as virtudes na vida terrena. Mártires, confessores, santas virgens, santos pastores e a “classe média da santidade” (para usar a expressão do Papa Francisco na Gaudete et Exsultate) são, todos, felizes em sentido próprio, embora em diferentes graus. 

Portanto, o que determina a felicidade em sentido próprio é a visão plena e eterna de Deus, que faz com que a felicidade eterna seja essencialmente diferente da alegria que podemos gozar, pela virtude da esperança, já nesta vida – que participa, ainda que imperfeitamente, da felicidade, mas não é felicidade em sentido próprio. 

O terceiro argumento objetor.

Aquilo que se realiza ordinariamente em muitos indivíduos de uma espécie não pode ser contra a natureza deles. De fato, a natureza não pode falhar repetidamente em muitos exemplares da mesma espécie, senão ela já não é natureza. Se muitos cães não latissem não poderíamos dizer que “latir” é algo próprio da natureza canina.

Ora, as Escrituras nos ensinam que muitos podem ser felizes ainda nesta vida. Vejamos, por exemplo, o salmo 143(144), 15; “feliz o povo agraciado com tais bens”, ou seja, os bens dados por Deus nesta vida. Ora, se a própria Bíblia nos ensina que muitos, até todos de um povo, podem ser felizes, então ser feliz é algo que pertence à natureza humana já nesta vida, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Sim, pode-se falar numa certa felicidade nesta vida, vivida na esperança em Deus por aquele povo que busca a santidade nos caminhos do Senhor. Essa felicidade, como vimos na resposta anterior, não é felicidade em sentido próprio, que será alcançada no céu pelos santos, mas é uma certa antecipação, pela fé, na esperança, da glória do céu, como vemos em Hebreus 11, 1. É neste sentido que as Escrituras tratam da felicidade para os fiéis, ainda neste mundo.

  1. Concluindo.

Uma antecipação da felicidade do céu, pela fé, vivida na esperança pelos que caminham neste mundo. Esta é a felicidade imprópria, instável, fugaz, que podemos esperar neste mundo, quando vivemos, pela graça, já uma relação com Deus, que é o bem supremo e a única fonte de felicidade.

Muitos não têm sequer a noção de que a alegria que sentem em alguns momentos é uma participação nesta felicidade. Muitos vivem uma vida de busca do bem, mesmo não explicitamente cristã, e Deus não lhes nega a graça pela qual podem, se houver abertura no coração, chegar à amizade com Deus. 

Mas há muitos que confundem a verdadeira alegria de uma vida que busca o bem, por um lado, com a euforia e o desfrute da riqueza, do prazer, do poder ou de qualquer outra fonte de gozo momentâneo. Esta euforia não é felicidade, nem sequer em sentido impróprio, mas talvez seja a fonte mais comum de desvio e perdição para os seres humanos.