- Retomando para concluir.
O amor de Deus não é padronizado. É personalizado. Ele ama a cada um de um modo diferente, próprio para cada amado. e o amor de Deus é tão perfeito que se adequa de modo completo a cada um de nós, a cada filho de Deus que se deixa amar.
A santidade, portanto, não pode ser discutida em termos de quantidade. Não se trata de imaginar que Dues ame mais ou menos este ou aquele filho. Ele ama na justa medida da necessidade e da capacidade de cada um, e isso é uma ótima notícia. Ou, como diz o Papa Francisco na Gaudete et Exsultate, “uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho. De fato, quando o grande místico São João da Cruz escrevera o seu Cântico Espiritual, preferia evitar regras fixas para todos, explicando que os seus versos estavam escritos para que cada um os aproveitasse ‘a seu modo. Pois a vida divina comunica-se a uns de uma maneira e a outros doutra’”.
Eis, pois, a chave aqui. A cada um a vida divina, que é a causa de nossa felicidade, se comunica de um jeito próprio. Isso não é para nosso desânimo, mas para nosso encorajamento: há um lugar para nós também na beatitude eterna. “Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais”; eis o que ensina o Papa Francisco, ainda na Gaudete et exsultate.
Firmes nestes princípios, que mostra que cada um de nós tem um lugarzinho especial, próprio e único no céu, vamos revisitar, com Tomás, os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
o primeiro argumento lembra que, para Aristóteles, a felicidade é o prêmio de uma vida virtuosa. Ora, o prêmio dado por Deus a todos os que respondem a seu chamado de amor com uma vida virtuosa é o mesmo, segundo Mateus 20, 10: “cada qual recebeu um denário”. Logo, se a retribuição é igual, então a felicidade dos santos no paraíso é rigorosamente igual, conclui o argumento.,
A resposta de Tomás.
É preciso interpretar bem esta passagem do Evangelho, adverte Tomás. O fato de que a todos se para a mesma moeda, nesta passagem, significa a unidade do objetivo, que é a amizade de Deus. Mas as “muitas moradas” na casa do Pai mencionadas em João 14, 2 significam a pluralidade de modos pelo qual a vida divina se comunica a cada um, conforme sua capacidade de recebê-la. Portanto, a felicidade dos santos é adequada aos diversos modos pelos quais se pode chegar à santidade, responde Tomás.
O segundo argumento objetor.
Para provar que a felicidade eterna é igual para todos, o argumento lembra que ela é o bem supremo, além do qual não há outro. Assim, não pode haver gradação naquele estado de felicidade que o ser humano atinge ao conquistar o bem mais elevado, de tal modo que não existem graus da felicidade verdadeira, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A felicidade, por seu objeto, é o bem supremo, de fato. Mas o modo de alcançá-lo e de vivê-lo varia em função da individualidade daquele que o alcança, suas capacidades, virtudes e circunstâncias. Logo, existem muitas maneiras diferentes de viver a felicidade.
O terceiro argumento objetor.
A felicidade é a saciedade pela obtenção do bem supremo, perfeito, completo, capaz de saciar o ser humano, de aquietar completamente seu coração pela satisfação completa de toda vontade, de todo desejo e inclinação. Mas se alguém é mais feliz do que outro, então este tem algum bem que o outro não tem, o que implica não somente que um siga a desejar o bem do outro, maior do que o seu, mas também que o outro possa querer que o primeiro alcance a mesma felicidade que ele. Deste modo, se a felicidade final tem graus, ninguém seria feliz de verdade. Deste modo, ou a felicidade final é a mesma para todo mundo, ou ninguém é feliz de fato, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Os santos, que estão na felicidade de Deus, não desejam mais nada, porque já possuem o bem infinito e absoluto na sua relação com Deus – que é o bem de todo o bem. Mas é claro que essa relação é de pessoa a pessoa, e isso implica que cada santo tem uma relação diferente com Deus. Ou seja, a felicidade é diferente para cada um, mas é a máxima felicidade que cada um pode viver, e cada um sabe disso. Não há espaço, aí, para desejos descabidos, invejas, despeito ou pena. É claro que há aqueles que mantêm uma relação de extrema proximidade com Deus, os grandes santos como Nossa Senhora e São José, os mártires, os doutores da Igreja, por exemplo. E há aqueles que viveram uma vida simples, santa, mas anônima, e morreram nessa amizade. Eles podem contemplar e se alegrar com a intensidade da felicidade dos grandes santos, mesmo sabendo que ela é mais intensa que a sua, de tal modo que todos vivem a mesma plenitude, cada um à sua medida. Deste modo, a felicidade no céu não é impessoal, homogênea, mas pessoal e própria para cada santo, sem que esta diferença seja causa de infelicidade para nenhum deles.
- Concluindo.
Não há felicidade fora da santidade,e não há santidade senão do ser humano integral, que vive em comunidade com todos os santos. como ensina o Papa Francisco, “Os santos, que já chegaram à presença de Deus, mantêm conosco laços de amor e comunhão. Atesta-o o livro do Apocalipse, quando fala dos mártires intercessores: «Vi debaixo do altar as almas dos que tinham sido mortos, por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho que deram. E clamavam em alta voz: “Tu, que és o Poderoso, o Santo, o Verdadeiro! Até quando esperarás para julgar?”» (6, 9-10). Podemos dizer que «estamos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus. (…) Não devo carregar sozinho o que, na realidade, nunca poderia carregar sozinho. Os numerosos santos de Deus protegem-me, amparam-me e guiam-me».
O céu é para um povo, o povo de Deus, em que cada um é filho de Deus e irmão do outro. Não há concorrência no céu. Por isso, cada santo é feliz à sua maneira, que reconhece como a mais própria para si, e se alegra com o fato de que a felicidade do outro é diferente da sua e adequada ao outro.
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