1. Retomando.

Quão possível é que haja pessoas mais felizes que outras num contexto em que todos são tão felizes quanto é possível ser feliz? A hipótese inicial, que vimos no último texto, quer nos fazer acreditar que isto não é possível, e que todos os que são felizes, na vida eterna, o são no mesmo grau e com exatamente a mesma intensidade. Em suma, segundo aquela hipótese, não pode existir alguém mais feliz do que outro

Vimos que o debate trouxe três argumentos iniciais, que tentavam comprovar esta hipótese. O primeiro argumento traz a parábola dos trabalhadores na vinha, na qual o patrão premia a todos igualmente com uma moeda, independentemente do número de horas trabalhadas – e daí o argumento conclui que a recompensa da virtude, que é a felicidade, é sempre igual para todos os bem-aventurados. O segundo argumento lembra que ser feliz é alcançar o bem supremo, que é o próprio Deus. Ora, não há graus em Deus, de modo que não pode haver uma felicidade maior do que outra, para quem o alcança. Finalmente, o terceiro argumento lembra que a felicidade repousa completamente o coração, saciando-o de todas as maneiras possíveis. Mas se houver graus de felicidade, nada impediria o coração de almejar o grau mais alto, de modo que aqueles que estivessem num grau menor certamente não teriam repouso em seu coração, e não seriam felizes de verdade.

Como argumento contrário à hipótese inicial, o artigo traz a passagem de João 14, 2, em que Jesus diz: “na casa de meu Pai há muitas moradas”, que Agostinho interpretava no sentido de que Jesus se refere aos vários graus de dignidade dos santos no céu. Deste modo, o argumento conclui que a felicidade no céu se relaciona com o grau de intimidade com Deus que o santo adquire, pela vida virtuosa – ou seja, a felicidade é diferente para cada santo. 

Colocados assim os termos do debate, vamos examinar a resposta de Tomás sobre o assunto. 

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás diz, no início de sua resposta, que a felicidade se constitui de dois elementos: 1) o objetivo a ser alcançado como fim último, que satisfaz todo desejo, vontade ou inclinação, e 2) a relação estabelecida com esse bem supremo, que permite obtê-lo e desfrutar dele. 

Ora, o objetivo da felicidade é chegar a Deus, porque Ele é o objetivo mais elevado que se pode almejar, e somente ele pode aquietar o coração humano. Assim, do ponto de vista do objetivo a ser alcançado, a felicidade é a mesma para todos: trata-se de descobrir Deus, entrar em relação com Ele, amá-lo de tal modo a repousar nele. 

Mas do lado do nosso coração as coisas podem variar. Existem aqueles que se abriram à graça de tal modo que alcançaram, já nesta vida, uma intimidade muito grande com o Senhor. Não receberam em vão a graça santificante. Existem os que foram martirizados por amor a Deus, existem os grandes santos, que assombram o mundo com sua vida de amor pleno a Deus, como São Francisco ou São Bento, e existe aquilo que o Papa Francisco chamou de “classe média da santidade” na Gaudete et Exsultate n.º 7. Estes são os que, após uma vida de santidade anônima e amizade cotidiana com Deus, morrem sem se destacar especialmente no campo das “virtudes heroicas” ou do martírio. São santos, e serão, na eternidade, tão felizes quanto um santo assim pode ser; mas certamente não terão a mesma “largueza” de coração que os grandes santos.

Poderíamos dizer que o coração dos santos pode variar como, digamos, recipientes de água: existem os copinhos que se encherão com apenas uma fração de litro de água, e estarão repletos de água, e existem grandes baldes capazes de receber muitos litros. Ambos podem receber água até a plenitude, mas um grande balde conterá muito mais água do que aquele copinho. 

  1. Encerrando por enquanto. 

Portanto, do ponto de vista da “amplitude do coração”, a felicidade dos santos não é igual: alguém que viveu uma vida de virtude e amizade a Deus, de plena recepção dos sacramentos, de superação de desafios e de obstáculos pela fé, terá um “balde” no coração, para receber a glória da eternidade. Aqueles outros que viveram uma vida simples no amor de Deus terão um coração menor, mas também serão saciados com a glória na eternidade. E saberão que é justo que haja essa diferença, de tal modo que isto não diminuirá em nada sua felicidade. 

No próximo texto estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos iniciais.