1. Introdução.

A questão, aqui, é debater se há graus de felicidade, isto é, se podemos ser, no céu, na vida eterna, mais bem-aventurados do que outros seres humanos. Não é um debate trivial: trata-se de saber se podemos aumentar nossa amizade com Deus, isto é, se podemos desenvolver as virtudes para alcançar uma plenitude mais ampla, mais completa, na relação final com Ele. Em uma palavra, se podemos ser mais santos, ou se a santidade é um estado uniforme para todos, independentemente de ser um santo fervoroso, um mártir ou apenas um fiel ordinário que mantém uma relação morna com Deus. Em suma, trata-se de saber se nosso agir, nosso caminhar em busca da perfeição, assistidos pela graça, faz diferença na santidade final, ou se a conduta humana perante a graça é indiferente. As consequências para a ética, aqui, são evidentes: se as nossas virtudes são indiferentes para a nossa relação final com Deus, então o fundamento da ética não é a procura ativa da perfeição. Mas se há a possibilidade de buscar ativamente ser uma pessoa melhor, em função do amor imerecido de Deus, então a ética tem parte essencial na salvação. 

Vamos ao debate.

  1. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que não se pode mensurar a felicidade eterna, isto é, não pode existir alguém mais feliz do que outro. Segundo a hipótese, a felicidade da vida eterna seria a mesma para todos, objetivamente. Há três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese. 

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Segundo Aristóteles nos ensina na Ética a Nicômaco, a felicidade, como plenitude, é resultado da virtude. Ora, prossegue o argumento, segundo a Bíblia, resultado final da virtude é igual para todas as pessoas que trabalham por sua relação com deus – como se vê na parábola dos trabalhadores na vinha: todos recebem igualmente uma moeda apenas, quer tenham trabalhado o dia todo, quer tenham chegado na última hora ( Mateus 20, 10). Portanto, a plenitude final, que chamamos de felicidade, será igual para todos, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor.

A felicidade, como já sabemos, é o supremo bem, o bem universal, que é bom sob todos os aspectos. Ora, se é assim, não pode haver nada maior do que esse bem que nos faz plenamente felizes. Portanto, não pode haver alguém mais feliz do que outro, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

A felicidade é o repouso na plenitude do bem, que sacia completamente a vontade do coração humano. Mas a vontade não descansa enquanto houver algum bem mais elevado a ser buscado. Ora, se houver a possibilidade de que um ser humano seja mais bem-aventurado que outro, então a vontade daquele que é menos bem-aventurado sempre se inclinará ao bem daquele que é mais bem-aventurado, e deseja mais felicidade. Mas se todos forem igualmente felizes, não haverá mais motivo para que um deseje a maior bem-aventurança do outro. Logo, ou a felicidade dos bem-aventurados é perfeitamente igual para todos, ou ninguém repousará de fato na felicidade, sabendo que sempre poderá aumentá-la, e a felicidade não existirá para ninguém, conclui o argumento. 

  1. O argumento sed contra.

O argumento contrário à hipótese inicial cita João 14, 2: “na casa do meu Pai há muitas moradas”. Ora, Santo Agostinho, comentando o evangelho de João, diz que este versículo se refere à diferença na dignidade do mérito dos santos, que viverão, na eternidade, conforme o amor a Deus que manifestaram na vida. Ora, essa dignidade de mérito nada mais é do que a própria felicidade, que é concedida de modo personalizado, isto é, proporcional ao amor que cada um vive. Logo, há diversos graus de felicidade, e não são iguais para todos, conclui o argumento. 

  1. Encerrando por enquanto.

Eis aqui o grande mistério da vida cristã: nem todos a vivemos do mesmo jeito. Há uns que foram mártires e morreram por sua fé. Há quem tenha entregue sua vida inteira, como os que se recolhem na vida monástica de oração, silêncio e contemplação. E há os que viveram uma vida comum, laical, em meio ao mundo, sem esquecer do amor de Deus. Deus concede a cada um a graça de viver a santidade em seu próprio modo de vida, que não é igual. Mas certamente o esforço para responder à graça fará diferença na amizade com Deus. 

No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás neste interessante debate.