1. Retomando para concluir.

No último texto, vimos como Tomás nos explica que somos capazes da felicidade; principalmente da felicidade eterna junto a Deus. Devemos ser santos, e este é o nosso fim. Somente os santos, elevados à amizade de Deus pela graça, podem realmente ser felizes no sentido próprio: participando da felicidade divina. Mas a graça não atua sobre o nada: ela pressupõe uma natureza que deseja, que busca, que quer ser digna da felicidade, que se abre a Deus. 

Assim, a hipótese inicial, de que a felicidade não é algo próprio ao ser humano, fica respondida.

Fortes nestes princípios, vamos revisitar os argumentos objetores iniciais e estudar as respostas que Tomás dá aos argumentos objetores iniciais.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que há uma hierarquia de naturezas, na criação. Seria uma insensatez imaginar que os seres inanimados possam ser “felizes” de algum modo. Os vegetais tampouco possuem abertura à felicidade. Mesmo os animais que não são dotados de razão não podem ser felizes em sentido próprio. A felicidade é uma realidade espiritual que pressupõe uma inteligência aperfeiçoada e aberta ao mistério de Deus.

Ocorre que tal natureza intelectual não é própria do ser humano. Somos dotados de razão, quer dizer, de uma natureza capaz de aprender de modo processual e trabalhoso, sem jamais esgotar o objeto de conhecimento. Apenas os anjos são dotados daquela inteligência que sabe, que domina seu objeto, que é conatural com o conhecimento. Assim, a felicidade plena é acessível apenas aos anjos, não a nós, humanos, limitados demais para ela, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Não se pode comparar a distância entre as naturezas irracionais e a nossa natureza racional, por um lado, com a distância entre a nossa natureza racional e a natureza intelectual dos anjos. 

De fato, a nossa natureza humana supera a natureza inanimada, como também as naturezas vegetal e animal, porque nenhuma destas possui a marca do espiritual, isto é, a abertura ao universal, ao abstrato, ao divino, enfim. A marca das naturezas espirituais, como a nossa e a dos anjos, é a de poder reconhecer e amar a Deus. 

Mas a nossa inteligência, mesmo sendo aberta à universalidade e à relação com Deus, não é no mesmo sentido que aquela dos anjos. De fato, nosso processo de conhecimento é sempre lento, processual, demanda esforço, demanda inclusive a potencialidade da incompletude e do erro nesse processo. Os anjos simplesmente sabem, conhecem perfeitamente a si mesmos e sabem de Deus, tomam decisões plenamente informadas e não conhecem o erro da tentativa ou do desconhecimento. 

Mas isso não implica que não possamos, nós e eles, chegar ao mesmo fim, que é o conhecimento relacional amoroso com a amizade com a Trindade, que significa a santidade e representa a felicidade plena. Portanto, a diferença de natureza entre nós e as outras naturezas materiais é grande o suficiente para saber que eles não se destinam a esse tipo de felicidade na santidade. Entre nós e os anjos, no entanto, não existe diferença que nos impeça de chegar à santidade e à felicidade plena, conclui Tomás.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor reafirma que a verdadeira felicidade consiste em alcançar Deus, em alcançar sua presença maravilhosa numa relação completa de amizade e amor, conhecendo-o como bem e verdade universais.

Ocorre, diz o argumento, que nossa inteligência, limitada e processual, é capaz apenas de conhecer as verdades deste mundo material, criado, concreto, que nos rodeia, e ao qual podemos examinar com nossos sentidos. Não somos capazes de verdades universais e absolutas como as que se encontram em Deus, nem de compreender o bem completo e espiritual que ele é. Somente podemos conhecer o que se dá aos nossos sentidos e à nossa razão, e Deus não se dá assim. Assim, não podemos esperar alcançar algum tipo de felicidade espiritual junto a Deus, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Não pode haver dúvida de que, nesta vida biológica, nosso modo próprio de conhecer é aquele do exame sensível, do método e do raciocínio. Mas não será assim na vida eterna, justamente porque Deus se fez carne e rasgou nosso mundo material para se dar também aos nossos sentidos, de tal forma que possamos receber a graça de viver, após nossa vida biológica, uma vida espiritual de amizade e felicidade plena com ele na santidade. 

O terceiro argumento objetor.

A felicidade consiste em alcançar o bem supremo. Mas não se chega ao que é supremo, ou seja, ao que há de mais elevado, sem passar por aquilo que é intermediário. Ora, entre nós e o bem supremo estão os anjos, e nós nunca alcançaremos a natureza dos anjos, que são os espíritos que estão acima de nós e abaixo de Deus. Logo, nunca alcançaremos o que está acima dos anjos, ou seja, o próprio Deus, única fonte de felicidade plena. Assim, nunca seremos felizes de verdade, conclui o argumento.  

A resposta de Tomás. 

De fato, nunca alcançaremos a natureza dos anjos. Não somos anjos, e jamais seremos. Mas somos capazes de perceber que há algo acima dos próprios anjos, e nossa inteligência pode se abrir a esse ser supremo, que pode nos elevar até ele sem violar nossa própria natureza. Deste modo, é como seres humanos, e não como anjos, que seremos elevados à bem-aventurança em Deus. 

  1. Concluindo.

Somos “capazes de Deus”. Não por alguma força da nossa própria natureza, mas pela graça que nos santifica. Nossa natureza é capaz de receber essa graça, que cura e eleva, de tal modo que podemos realmente ser santos. E aí está a felicidade: viver eternamente em amizade com Deus.