- Retomando.
Vimos, no texto anterior, a hipótese controvertida que propõe que essa tal “felicidade plena”, pela amizade com Deus na eternidade, não é algo alcançável pelos seres humanos. Vimos o primeiro argumento em favor dessa hipótese, que propõe que, na hierarquia dos seres, apenas os seres mais elevados, que são os anjos, poderiam desfrutar a felicidade da presença plena de deus ao intelecto, já que os seres humanos não são propriamente seres intelectuais, mas apenas seres racionais. O segundo argumento diz que a mente humana é adequada apenas para conhecer as realidades materiais, e por isso jamais poderia alcançar o conhecimento de Deus, puro espírito, e por isso não poderia almejar à felicidade de viver em amizade plena com ele.
O terceiro argumento lembra que, para atingir o bem último, que é Deus, é preciso alcançar uma plenitude no ser que exigiria que o ser humano ultrapassasse o modo de ser dos anjos para se tornar semelhante ao próprio Deus. Mas isso é impossível, diz o argumento. Logo, a felicidade plena não é para o ser humano, diz o argumento.
Mas há um argumento contrário à hipótese inicial, retirado das Escrituras. Trata-se do Salmo 93(94), 12: “Feliz o homem a quem ensinais, Senhor, e instruís em vossa Lei”. Trata-se, assim, de uma declaração revelada de que o ser humano pode, de fato, ser instruído imediatamente por Deus e conhecê-lo de verdade – e ser feliz.
Colocados os argumentos, vamos estudar agora a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
A felicidade, como já vimos, consiste em obter o bem perfeito, conhecendo-o como verdade perfeita, ou seja, encontrar-se pessoalmente com Deus e viver em perfeita comunhão com ele.
A questão, portanto, é: será que o ser humano é capaz de conhecer a verdade plena, universal, e repousar no bem pleno, universal?
Sim, nosso intelecto é aberto à verdade plena, nossa vontade é insaciável até repousar no bem absoluto. Nosso coração é capaz de receber Deus, portanto. Somos capazes da felicidade, dessa plenitude que enche o coração e plenifica definitivamente a vida. Somos capazes de Deus. E há Deus para que o conheçamos. Isto já está suficientemente estabelecido de tudo quanto estudamos até aqui. Portanto, somos capazes de felicidade plena.
- Encerrando por enquanto.
Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti. Eis o resumo que Santo Agostinho faz da felicidade humana. Ela está ali, mas não a podemos alcançar por nosso próprio esforço. Se Deus é Deus, ele está além da capacidade humana de dominá-lo e conquistá-lo. Ele pode apenas ser desejado e recebido, nunca alcançado ou conquistado. Sem que Deus nos eleve até ele, ele é inalcançável para nós. Mas se Ele nos eleva, somos capazes de recebê-lo. Eis o paradoxo da felicidade humana: ela só pode ser recebida como graça. E nós somos orgulhosos demais para perceber uma verdade tão simples, e receber de graça, livremente, aquilo que jamais poderíamos alcançar. Paradoxo da felicidade humana: somos capazes de recebê-la de graça, mas não de forçá-la, merecê-la ou conquistá-la. Mas podemos perdê-la por nossa própria culpa.
Estabelecidos estes princípios, veremos as respostas de Tomás aos argumentos iniciais no próximo texto.
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