- Introdução.
Já conversamos muito sobre a felicidade. Mas pouco sabemos, ainda, sobre a felicidade vivida, experimentada. De fato, os filósofos sabem que a felicidade apenas pode ser vivida como um estado provisório, precário, e que ela apresenta um estranho paradoxo, já apontado por Aristóteles na sua Ética a Nicômaco: se a felicidade é estável e completa, e se a vida pode, a qualquer momento, mudar e trazer infortúnios e desastres, parece que a dinâmica da felicidade só poderia se instalar ali onde, por definição, já não há nenhuma possibilidade de dinâmica, humanamente falando: quando o ser humano morre. Somente então ele não poderia mais sofrer alterações em sua situação existencial. Será, então, que, no fundo, a felicidade é impossível para o ser humano? Este é o debate que iniciaremos agora.
- A hipótese inicial.
A hipótese inicial, para provocar o debate, propõe que a felicidade não é possível de ser alcançada pelos seres humanos, sendo, portanto, uma miragem, uma ilusão. Motivadora, talvez, mas utópica. Há três argumentos iniciais que tentarão comprovar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor traz a visão altamente hierárquica da criação, tão própria dos tempos antigos. Trata-se da chamada “hierarquia do ser”, que acredita que a realidade está escalonada desde o ente mais simples até o mais complexo e perfeito, conforme aquele ente reflita de modo mais completo as perfeições de Deus. Assim, um ente inanimado, como uma pedra, reflete muito pouco as perfeições de Deus. Os seres de natureza vegetal já refletem-nas um pouco mais, seguidos pelos animais irracionais, os seres humanos e, finalmente, os anjos, que são o reflexo mais pleno das perfeições divinas.
Ora, prossegue o argumento, a felicidade é uma plenitude espiritual. Mas os seres inanimados, e mesmo os vegetais e até os irracionais, não possuem as dimensões espirituais adequadas para alcançar a felicidade. Ocorre, diz o argumento, que os seres humanos são inteligentes apenas como seres racionais, e não como seres propriamente espirituais, como os anjos. Assim, os seres humanos não estão aptos, por sua natureza limitada, a alcançar a verdadeira felicidade, conclui imprudentemente este argumento.
O segundo argumento objetor.
A verdadeira felicidade consiste na dinâmica de viver a verdade plena, conhecê-la como um amigo conhece outro, desfrutar dela em sua plenitude. Mas, diz o argumento, o ser humano não é capaz de conhecer e entrar em relação com a verdade absoluta, metafísica, estrutural, porque sua inteligência é adequada apenas para o conhecimentos as coisas naturais, materiais, que podem ser examinadas pelos sentidos e compreendidas pela razão. Deste modo, apenas o conhecimento científico sobre o mundo natural pode ser atingido pela razão humana, e não se deve esperar nenhum tipo de vivência de intimidade com a Verdade absoluta que é o próprio Deus. Assim, diz este argumento – que parece tão comum nos dias de hoje – o ser humano não deve esperar algo como a felicidade dos santos em Deus na eternidade.
O terceiro argumento objetor.
A felicidade consiste em conquistar o bem absoluto, pleno, aquilo que chamamos de Sumo Bem ou bem último. Ora, ninguém chega ao que é último, pleno, sem passar pelo que é intermediário. Ninguém chega ao fim do caminho sem percorrer seu meio.
Mas entre Deus e o ser humano existem os anjos, que são criaturas mais elevadas do que os seres humanos, mas são inferiores a Deus. Estão, pois, no meio entre o ser humano e Deus, e o ser humano não pode superá-los, porque é dotado de uma natureza inferior a eles. Logo, completa o argumento, o ser humano jamais alcançará o sumo bem e, por isso, jamais será feliz de fato.
- O argumento sed contra.
O argumento que se opõe à hipótese inicial cita o Salmo 92(93), 12: “feliz o homem a quem ensinais, Senhor, e instruís em Vossa lei”. Ora, se as Escrituras proclamam que e feliz aquele ser humano a quem Deus conduz e instrui, então a felicidade não pode ser inatingível para o ser humano, conclui este argumento.
- Encerrando por enquanto.
Nós, seres humanos, temos uma característica que compartilhamos: consideramos que só é legitimamente nosso aquilo que conquistamos por nossos próprios esforços, que dominamos por nossas próprias forças, que conhecemos por nosso próprio aprendizado, que controlamos por nossa própria vontade. Seja o que for a felicidade – e ela indiscutivelmente é algo próprio de Deus – ela não pode ser alcançada, compreendida e dominada por nossos esforços, nem controlada a nosso bel-prazer, porque Deus não se deixa dominar. Será que ela não pode ser alcançada por nós?
Veremos mais sobre isto no próximo texto.
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