- Retomando para concluir.
Há um sentido amplo para a palavra “amigo”, que, de certa maneira, perdemos hoje em dia. Amigos são benfeitores, ou seja, pessoas que querem nosso bem, e para quem queremos o bem. Amigos não são apenas aqueles com quem compartilhamos confidências e indiscrições. Diferentemente disso, o pensamento clássico considera, na noção de amigo, pessoas com as quais dificilmente compartilhamos indiscrições, como os nossos pais e os nossos governantes. A noção de amigo, hoje em dia, parece residual – amigos são aqueles que não são esposos, parentes ou amantes, mas gostam de nós e gostamos deles. Excluída dessa noção de amigo estão também, hoje, aqueles que mantêm relação hierárquica como patrão e empregado, ou autoridade e súdito. Nada mais longe do pensamento clássico.
Assim, não se pode ser feliz, nesta vida, sem amigos; todos precisamos de pessoas que nos amam, e a quem amamos, mesmo que não tenhamos, com elas, uma relação propriamente afetiva de proximidade e confidências. Mesmo o mais isolado dos eremitas pressupõe, para a sua existência, a existência de pessoas que cuidaram dele na infância e que se dispõem a cuidar dele em caso de necessidade – seus amigos.
Mas na eternidade os santos precisarão apenas de uma amizade: a amizade com Deus, com o Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. E isto lhes bastará, porque Deus é todo o bem. A felicidade plena não está condicionada por outras relações, especialmente pela relação entre as criaturas. Isto parece refletir o ensinamento de Jesus em Mateus 10, 37: quem ama seus familiares, seus amigos ou seus cônjuges mais do que a Deus não é digno de Deus.
Isto não significa que os amigos não nos alegrarão, na eternidade, se nos fizerem companhia: gozaremos com eles do amor de Deus, e isto permitirá um gozo ainda mais intenso.
Munidos destes princípios, que aprendemos no último texto, vamos revisitar os argumentos iniciais e as respostas de Tomás a eles.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que a ideia de felicidade, na eternidade, é descrita pela palavra glória, nas Escrituras. Ora, a glória é o prestígio, envolve ser conhecido e amado por muitos. Portanto, sem a existência de pessoas em torno de nós, para que nos conheçam, louvem e amem, não teremos glória. E portanto a presença de amigos é essencial para a felicidade eterna, diz o argumento.
A resposta de Tomás.
A glória que é essencial para a felicidade eterna é a glória de Deus, ou seja, a presença de Deus numa relação face a face, como amigo. Assim, o louvor de outras criaturas não é condição para a bem-aventurança dos santos na eternidade, diz Tomás.
O segundo argumento objetor.
Boécio já nos ensinou, diz o argumento, que nenhum bem é realmente desfrutado sem que o desfrutemos com os amigos. Ora, prossegue o argumento, a felicidade eterna é um bem. Logo, para desfrutá-la, precisamos da presença de amigos. Por isso, ninguém pode ser feliz, nem mesmo na eternidade, sem amigos, conclui este argumento.
A resposta de Tomás.
Boécio está tratando daqueles bens que temos nesta vida, aqui na Terra; aquilo que possuímos, quer fisicamente, quer espiritualmente, deve ser sempre desfrutado com os que amamos. Vem daí a necessidade de festejar, de repartir, de ter companhia, nos momentos de conquistas e vitórias da vida. Mas na vida eterna o bem é um só, Deus, e a sua amizade é companhia suficiente para usufruir dele.Portanto, a presença de amigos, de outros santos, no céu, pode nos alegrar, mas não é elemento essencial nem condição para desfrutar de Deus.
O terceiro argumento objetor.
A felicidade não exclui o amor, mas o aumenta. Ora, para viver o amor precisamos amar, e amar o próximo é parte do próprio mandamento de Deus para nós – e portanto a virtude da caridade deve ser vivida também na eternidade, até de um modo mais concreto e pleno do que nesta vida. Mas não é possível viver esta virtude sem que haja amigos em torno de nós, para que os amemos e sejamos por eles amados. Logo, a presença de amigos é condição essencial para a felicidade eterna, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não há dúvida de que a plenitude da felicidade é também a plenitude do amor, e que a virtude da caridade não somente persiste, mas se aprofunda no céu. Vemos isto em 1 Coríntios 13, 13: “Agora subsistem a fé, a esperança e a caridade – as três. Porém, a maior delas é a caridade.”
O que devemos entender é que a presença de amigos não está excluída, no céu, como algo que qualifica, que de algum modo permite o gozo mais intenso da felicidade plena. Mas ainda que o céu contivesse apenas a alma de um único santo, ele seria plenamente feliz, ao contemplar Deus como amigo, face a face. Neste sentido, a presença de amigos não condiciona, mas favorece, a felicidade plena dos santos a que somos chamados.
Concluindo.
Há santos no céu. Eles gozam da felicidade eterna, mas também gozam da presença recíproca e do amor que os une. São a Igreja Triunfante, que se regozija eternamente na presença da Santíssima Trindade, fonte única de sua felicidade. “Pela sua morte e ressurreição, Jesus Cristo «abriu-nos» o céu. A vida dos bem-aventurados consiste na posse em plenitude dos frutos da redenção operada por Cristo, que associa à sua glorificação celeste aqueles que n’Ele acreditaram e permaneceram fiéis à sua vontade. O céu é a comunidade bem-aventurada de todos os que estão perfeitamente incorporados a Ele”, é o que nos ensina o Catecismo da Igreja Católica, § 1026.
Sim, teremos muitos amigos no céu. Mas a alegria de sua presença é apenas derivada, resultante da unidade no amor de Deus, em cuja amizade os santos encontram a felicidade.
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