- Retomando.
Vimos, no texto anterior, a hipótese inicial, proposta para provocar a polêmica, de que a felicidade completa e eterna dos bem-aventurados está condicionada à presença de amigos, ou seja, a presença de amigos é condição essencial para atingir a felicidade plena, diz a hipótese. Três argumentos tentam comprovar esta hipótese. O primeiro argumento
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial, proposta para provocar o debate, é a de que a presença de amigos é essencial para que haja a felicidade plena na eternidade. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese. O primeiro argumento lembra que as próprias Escrituras Sagradas chamam o estado final de felicidade de “glória”, e ninguém pode ser glorificado senão por aqueles que são seus amigos e o amam, concluindo que a presença de amigos é essencial para a felicidade plena. O segundo argumento lembra que o próprio Boécio declarava que os amigos são condição essencial para a felicidade. Finalmente, o terceiro argumento determina que o amor de caridade ao próximo é parte inseparável da felicidade, e isso pressupõe a presença dos amigos para serem amados.
Por fim, o argumento contrário cita o Livro da Sabedoria (7, 11) para afirmar que Deus é mais do que suficiente para a nossa felicidade, e portanto os amigos não são requisito necessário para vivê-la.
Colocados nestes termos os argumentos, examinemos agora a resposta sintetizadora do próprio Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Como em muitos casos, aqui também Tomás fará uma distinção essencial à boa compreensão deste assunto.
De fato, diz ele, os amigos são essenciais para a felicidade que podemos obter nesta vida. Disso já sabia Aristóteles. Na Ética a Nicômaco (Livros VIII e IX), Aristóteles define a amizade (philia) como uma virtude essencial para a felicidade e a boa vida, descrevendo-a como um desejo recíproco de bem-estar. Sendo o homem um animal social, a amizade é necessária para a virtude, a política e a felicidade, sendo a amizade baseada na virtude (vontade do bem do outro) a mais elevada. Assim, nesta vida terrestre, não se pode ser razoavelmente feliz sem amigos, sem algum tipo de relação de confiança e amor recíprocos. E isto se aplica mesmo ao mais recluso dos monges, na sua vida contemplativa, quanto ao mais atarefado dos operários no frenesi de sua atividade.
É preciso lembrar, aqui, que a palavra “amigos”, para Aristóteles – e para Tomás, neste particular – não se refere a conhecidos com os quais podemos passar algum momento de lazer juntos, mas a pessoas com quem possamos realmente dividir a vida – esposos, filhos, genitores, parentes próximos, colegas de trabalho, fiéis da mesma paróquia, até mesmo o sacerdote que nos acompanha ou o companheiro com quem trabalhamos de perto ou coabitamos, os benfeitores em geral, sempre que entram numa relação de partilha e dom conosco. Não simplesmente por serem parentes, colegas ou próximos fisicamente, mas por estabelecerem uma comunidade de amor fraternal conosco. Um pai distante, um irmão em conflito, um mau chefe não são amigos neste sentido.
Em suma, a presença de amigos, no sentido de pessoas com quem vivemos, em qualquer grau, um amor fraterno, é parte essencial da felicidade – conquanto limitada e flutuante – que podemos ter nesta vida.
Mas se falamos da felicidade eterna da vida dos bem-aventurados junto a Deus, então essa comunidade de amigos não é mais requisito essencial para a felicidade plena dos santos. Neste caso, Deus basta para nossa felicidade, e apenas a amizade com Ele é suficiente para prover a felicidade completa. Porque, como diz Santa Teresa, “a quem tem Deus nada falta. Só Deus basta!”. Assim, se alguém renuncia a amigos, família, trabalho ou comunidade para permanecer fiel a Deus, como fazem os mártires, não perderá em nada a felicidade plena do céu. Ser amigo de Deus, compartilhar de Sua perfeita alegria, de todo o bem que está só Nele, de toda a verdade que se revela nele, isto basta para nos plenificar. Isto é, quanto ao que nos basta no âmbito do nosso coração, do mais íntimo do nosso ser em sua relação com Deus, o amor de Deus nos é suficiente, e morrer em amizade com Ele nos basta.
Mas é claro que a presença de amigos, de pessoas a quem amamos e que nos amam, será um complemento extrínseco a esta felicidade; ser parte dessa família de santos, compartilhar com eles a felicidade divina, eis o verdadeiro significado daquilo que o Credo chama de comunhão dos santos, que amplia o nosso coração para que vivamos ainda mais intensamente esse amor de Deus na eternidade.
Ou, como ensinava Agostinho na sua obra Sobre o Sentido Literal do Gênese, “a criatura espiritual [como os seres humanos e os anjos] não precisa mais do que o apoio interior da eternidade, da verdade e do amor divinos para ser feliz; mas pode-se dizer que ela precisa também de um certo ‘apoio externo’, que, podemos dizer, vem pela presença e disponibilidade recíproca dos amigos”.
3. Encerrando por enquanto.
Salvamo-nos em comunhão, na Igreja. As amizades humanas não podem concorrer com Deus, que nos basta. Mas podem contribuir como lastro para a nossa bem-aventurança, quer nesta vida, quer no paraíso.
No próximo texto veremos, firmes nestes ensinamentos, os argumentos iniciais e a resposta de Tomás a eles.
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