1. Introdução.

Deus quis nos salvar como povo, não como indivíduos isolados em ligação direta com ele. Neste sentido, é verdade que ninguém se salva sozinho. Diz a Lumen Gentium 9 (citada pelo Papa Francisco na Gaudete et Exsultate 3): “aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente”. Deste modo, a comunhão dos santos, isto é, a reunião do povo de Deus na Igreja, é parte inseparável do plano de Deus para nós.

Mas a relação com Deus é bastante, é suficiente para a alegria plena, de tal modo que, mesmo renunciando a todas as amizades humanas por amor a Deus, eu possa viver feliz eternamente e de modo pleno? Eis a questão debatida aqui. Vamos a ela. 

  1. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese inicial, proposta para provocar o debate, é a de que a presença de amigos é essencial para que haja a felicidade plena na eternidade. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese. 

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

As Escrituras chamam a felicidade plena, a ser atingida pelos santos na eternidade, de “glória”. Mas a palavra “glória” significa, em seu sentido mais profundo, que alguém seja admirado, amado, conhecido, querido, ou talvez famoso. Mas tudo isto implica a existência de outras pessoas, em volta dele, que o louvem, admirem e amem, e das quais ele receba essa glória. Ora, as pessoas em torno de nós que nos amam, louvam e admiram são nossos amigos Logo, a felicidade eterna pressupõe a existência de amigos em torno de nós, conclui um tanto apressadamente o argumento. 

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que o filósofo Boécio afirmava: “a posse de bens nunca é plenamente senão no convívio com amigos”. Ora, a felicidade é um bem a ser desfrutado na alegria; logo, pressupõe a presença de amigos para ser plenamente usufruída. Portanto, para a plenitude da felicidade faz-se necessária a presença de amigos, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que a felicidade se caracteriza por conter em si a caridade, de modo muito mais pleno e perfeito. Ora, como sabemos, a caridade é aquela virtude teologal que envolve amar a Deus e ao próximo. Portanto, apenas para aquele que está rodeado de amigos, aos quais amará com amor de caridade, é que existe a perfeita felicidade, conclui o argumento.

  1. O argumento sed contra.

O argumento contrário lembra que as Escrituras nos ensina que a sabedoria que decorre da contemplação de Deus é a base e o fundamento da plenitude da felicidade; é o que se encontra no Livro da Sabedoria (7, 11): “com ela [a sabedoria divina] me vieram todos os bens, e nas suas mãos inumeráveis riquezas”. Logo, para quem contempla Deus em sua maravilhosa presença, e goza para sempre de sua amizade perfeita, nenhum outro bem é necessário para ser plenamente feliz, conclui este argumento. 

  1. Encerrando por enquanto.

Amigos nos fazem felizes. Mas a felicidade plena pode não estar na popularidade, já que o seguimento de Cristo pode implicar justamente a renúncia às amizades. A questão que fica é: será que o amor de Deus, a amizade com ele, é suficiente para nos fazer felizes para sempre, ou precisaremos de algum modo da popularidade, da presença de amigos e pessoas próximas, para que sejamos felizes, isto é, como condição para a beatitude plena? 

Veremos isto no próximo texto.