1. Retomando para encerrar. 

Uma vida plena, em que toda relação decorre de uma relação fundamental com Deus, que nutre e supre todas as necessidades, desejos e inclinações. Uma vida em que nada mais de biológico existe – nem o sexo, com todas as suas implicações, nem a fome ou sede, nem a doença e a morte – o que implicará, também, o fim das relações de possessão, de domínio entre nós e as outras pessoas e, não menos importante, entre nós e as coisas. Já não haverá a necessidade de possuir coisas, de atender necessidades e desejos por meio das coisas, mas apenas a paz espiritual de quem tem Deus em plenitude e, portanto, tem nele tudo o que precisa para ser feliz.  

É claro que esta é a situação na ressurreição. Não é o caso em nossa vida biológica, nesta terra. Aqui, a relação saudável e honesta com os bens materiais é necessária para aquela felicidade limitada e transitória que podemos viver aqui, em meio à ação e à contemplação de Deus que nos é permitida no estado atual. 

Vimos tudo isto no último texto. Agora vamos, firmes nestes princípios, revisitar, com Tomás, os argumentos objetores iniciais para conhecer suas respostas.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que as Escrituras, em diversas passagens, fazem menção a bens externos, materiais, que serão desfrutados pelos santos na vida eterna. E cita trechos como Lc 22, 30: “”para que comais e bebais à minha mesa no meu Reino”, ou Mt 6, 20: “ajuntai para vós tesouros no céu”; ou ainda Mt 25, 34: “vinde, benditos do meu Pai, tomai posse do Reino”. Deste modo, a felicidade eterna envolve possuir coisas materiais externas a nós mesmos, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Quando Jesus, nas Escrituras, fala em coisas materiais para se referir à beatitude eterna, ele está, diz Tomás, falando metaforicamente, para que nós, seres humanos, possamos entender, por meio de figuras de linguagem, uma realidade espiritual que está além da nossa capacidade limitada de imaginação. Trata-se, diz São Gregório Magno, de um modo que o Espírito Santo encontra para fazer que nós, com nossa capacidade limitada de compreensão, possamos, a partir das coisas terrenas, desejar as coisas do céu. Deste modo, quando Jesus fala em “comida e bebida”, ele está nos mostrando os prazeres da bem-aventurança. Quando ele fala em “riquezas”, está se referindo à satisfação de todos os desejos e necessidades do ser humano por aquele que é a fonte infindável de todos os bens, que é Deus. E quando menciona um “reino”, não se refere a um lugar, a território, mas àquela situação em que a vontade dos santos se torna plenamente unida à maravilhosa vontade de Deus. 

O segundo argumento objetor.

A definição de felicidade que nos foi legada pelo grande pensador cristão da antiguidade, Boécio, nos ensina que a felicidade “é o estado perfeito, pela reunião de todos os bens”. Ora, as coisas externas a nós, que podemos possuir e desfrutar são, sem sombra de dúvida, bens para o ser humano. Logo, essas coisas são necessárias, ou pelo menos convenientes, para a nossa felicidade perfeita, conclui o argumento.  

A resposta de Tomás.

Não existe dúvida de que, em nossa vida biológica aqui na terra, precisamos de muitas coisas para atender nossos desejos, inclinações e necessidades, e sem elas não se pode ser feliz. Mesmo um monge que vive na solidão precisa de algum abrigo, alimento e vestuário para sobreviver.

Mas na vida espiritual, na eternidade, estaremos em relação direta com Deus, fonte de todo bem, e não teremos necessidade, desejo ou inclinação a nenhuma outra coisa senão ele mesmo, fonte e fundamento supremo de todo bem. 

O terceiro argumento objetor.

Mais uma vez o argumento recorre às Escrituras. De fato, diz o argumento, Jesus nos ensina que “será grande a vossa recompensa no céu”. Logo, existe ao menos um lugar físico, uma localização, na qual gozaremos da bem-aventurança após a ressurreição dos corpos. Logo, temos necessidade de coisas fora de nós mesmos na vida eterna, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Tomás cita, aqui, a bela interpretação de Santo Agostinho na sua obra “O Sermão da Montanha”, na qual Agostinho afirma que a “recompensa dos santos” não deve ser entendida como algum bem localizado fisicamente num lugar denominado “céu”, mas o gozo de bens espirituais altíssimos, de altura divina e não simplesmente humana. 

É certo que a ressurreição final envolve uma recriação do cosmos, aquilo que as Escrituras chamam de “novo céu e nova terra” (Apocalipse 21, 1).  De algum modo misterioso, todas as coisas aguardam essa renovação, como ensina São Paulo (Romanos 8, 21-22): a criação geme e chora  “com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus”. Essa recriação, essa libertação final, não envolve somente a nós, mas é o resgate de todas as coisas, do qual também nós participaremos. Mas não podemos pensar que a felicidade envolve desfrutar dessas coisas, como se a eternidade fosse uma espécie de clube de recreação, um spa do céu. Jesus é muito claro quando ensina que a ressurreição não é um lugar, nem um estado, mas é Ele próprio (João 11, 25); ou seja, uma vida plena em perfeita integração com Deus nosso Senhor

3. Concluindo.

Na felicidade final, completa, plena, Deus nos basta. Ou, nas palavras poéticas de Santa Teresa D’Ávila: Quem a Deus tem, Nada lhe falta: Só Deus basta. Essa verdade se manifestou na vida de Tomás de Aquino. Conta a tradição que, após ter uma visão mística enquanto celebrava a missa no final de 1273, Tomás de Aquino parou de escrever suas obras teológicas, incluindo a nossa Suma Teológica. Quando seu secretário, Frei Reginaldo de Piperno, insistiu para que ele voltasse ao trabalho, Tomás respondeu que não podia, pois tudo o que escrevera lhe parecia “palha” em comparação ao que tinha visto. E o que ele tinha visto era o próprio Jesus, que, numa visão mística, disse-lhe: “escreveste muito bem sobre mim, Tomás. O que queres por recompensa?” Tomás respondeu: “Non nisi Te, Domine” (“Nada além de Ti, Senhor”).