- Retomando.
Vimos, no texto anterior, a hipótese provocadora de que a felicidade plena, a bem-aventurança perfeita, envolveria a posse de bens materiais externos a nós, como elemento próprio. Vimos três argumentos iniciais que tentavam comprovar essa hipótese; o primeiro argumento cita as Escrituras ((Lc 22, 30; Mc 6, 20 e ainda Mt 25, 34) para lembrar que Jesus fala muito em “tesouros” e “banquetes” no céu, o que dá a entender que os bem-aventurados se envolverão com bens externos a eles em sua felicidade eterna. O segundo argumento lembra que Boécio define a felicidade como “o estado perfeito, pela reunião de todos os bens”, o que envolve, segundo o argumento, também as coisas externas a nós mesmos; e, por fim, o terceiro argumento lembra que as Escrituras falam do céu como um “lugar”, o que é um conceito físico e supõe a existência de realidades físicas além de nós mesmos. Mas o argumento sed contra lembra que as Escrituras também nos ensinam que a felicidade é apenas Deus, e Deus é suficiente para nós em todos os aspectos, e por isso os bens externos a nós não estão envolvidos nela.
Estudaremos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Não há dúvida, diz Tomás, de que precisamos de bens externos para a nossa felicidade aqui nesta vida na terra, nossa vida biológica. A felicidade que podemos ter nesta vida é parcial e imperfeita, mas envolve a posse e o desfrute de bens materiais (algum alimento, um abrigo, roupas para proteger o corpo, remédios e calçados, por exemplo). O perigo é que nós coloquemos os bens materiais como centro e fim da nossa vida. Eles não são, nem devem ser o fim de nossa existência. São úteis e necessários para atender demandas naturais, sociais e culturais, e por isso a sua ausência para o atendimento dessas necessidades pode ser fonte de infelicidade em nossa vida aqui. Mesmo a vida contemplativa necessita de alguns bens, e a nossa relação com os bens, nesta vida, deve sempre se dar, diz Tomás, de maneira virtuosa.
A felicidade perfeita, consumada, da vida eterna, no entanto, tem a sua consumação na relação de presença com Deus, contemplando-o face a face. Isto basta. Já não haverá necessidade, ou mesmo desejo ou conveniência, de bens outros que não o coração de Deus, o nosso próprio coração e o coração dos santos todos em comunhão.
E após a ressurreição dos corpos? Nosso corpo ressurreto não será mais biológico, mas será espiritual. Deste modo, já não terá mais necessidades materiais, nem sequer haverá a necessidade ou a conveniência de bens para fins culturais ou sociais. O corpo já não sentirá fome ou frio, nem terá necessidade de proteção ou mesmo de ocultação: seremos plenamente visíveis, plenamente transparentes, plenamente integrados. Por isso, não haverá a necessidade da relação com outras coisas.
Neste sentido, diz Tomás, a vida contemplativa dos que se dedicam à oração e à relação com Deus parece mais próxima do estado final de felicidade do que a vida ativa. Eis aqui o valor da vida de monges e freiras de clausura, que a modernidade desaprendeu a apreciar: de certa forma, eles nos antecipam a felicidade final do paraíso.
3. Encerrando por enquanto.
Dinheiro não traz felicidade, nem o acúmulo de bens participa da plenitude humana. Certamente a felicidade, especialmente a felicidade eterna, não envolve a posse de muitos bens. De fato, neste mundo decaído, a posse de muitos bens normalmente envolve a injustiça, a fraude, a exploração do trabalho alheio, e nenhuma pessoa que comete essas ações pode ser feliz. Disso já sabia Platão, que nos ensinou, no Timeu, que a “felicidade” do injusto é uma Ilusão: Embora o injusto possa conseguir poder, riqueza ou prazeres momentâneos (o que parece felicidade aos olhos da maioria), Platão argumenta que ele é “mais infeliz que o injustiçado“.
Lembrando a terminologia de Martin Buber, a vida no estado final de ressurreição é uma vida de relações eu-tu, e já não mais de relações do tipo eu-isso.
A morte, neste sentido, nos iguala a todos – levamos somente aquilo que está em nosso coração (“coração”, aqui, tem o significado que o Papa Francisco nos ensinou na Dilexit nos).
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