1. Introdução.
A felicidade, para muita gente, está no acúmulo de bens e de dinheiro. Lembro-me, neste ponto, de uma frase que uma velha amiga, aliás muito rica – e muito santa – me disse uma vez, explicando sua escala de valores: olha, as coisas que estarão em meu inventário, quando eu morrer, não são realmente minhas. Será que a vida é realmente assim? Uma vez que somos realmente seres simultaneamente espirituais e materiais, será que as coisas externas a nós mesmos estão de algum modo relacionados à nossa felicidade? Eis o debate que agora se apresenta.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida, para nos provocar e estimular o debate, propõe que a felicidade não envolve apenas nosso corpo e nossa alma, mas está relacionada também às coisas externas a nós. Há três argumentos iniciais que tentam confirmar esta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor quer nos convencer que a próprio Bíblia garante que a nossa felicidade vai incluir coisas externas a nós mesmos, ou seja, a nosso corpo e alma. De fato, diz o argumento, segundo São Lucas (Lc 22, 30), após esta vida nós sentaremos no céu com Jesus, “para que comamos e bebamos” na sua mesa em seu Reino. Também São Mateus (Mc 6, 20) nos aconselha a “acumular tesouros no céu”, e ainda (Mt 25, 34) “vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino”. Ora, portanto a felicidade plena envolve também o acúmulo de bens para além de nós mesmos, conclui este argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que o próprio Boécio, grande pensador cristão, define a felicidade como o estado perfeito, com a reunião de todos os bens. Ora, é certo que aquilo que os seres humanos definem como “bens” incluem as coisas externas a nós mesmos, ainda que sejam de pouco valor em muitos casos. Logo, os bens externos estão incluídos na nossa felicidade, mesmo a felicidade eterna do paraíso, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Mais uma vez o argumento se volta para as Escrituras. De fato, em Mateus 5, 12, Nosso Senhor nos promete: “Alegrai-vos e exultai, porque grande será a vossa recompensa nos céus”. Logo, há necessidade, ao menos, de um lugar físico para que os bem-aventurados pudessem usufruir de seu prêmio – e um lugar físico é um bem externo a nós mesmos. Assim, a felicidade envolve bens externos a nós mesmos, conclui este argumento.
4. O argumento contrário à hipótese inicial.
O argumento contrário lembra que as Escrituras não permitem admitir ideia de que a felicidade final, plena, da bem-aventurança não podem envolver a posse privada de coisas materiais além do nosso próprio corpo e alma. Por exemplo, o Salmo 72(73), 25, nos lembra: “Além de vós, o que há para mim no céu? Se vos possuo, nada mais me atrai na terra”. O que este versículo nos ensina é que a felicidade consiste na visão de Deus, e que isto é mais do que suficiente para nossa completa satisfação. Logo, a felicidade não envolve a posse de nenhuma outra coisa no céu, além de nós mesmos e de Deus, conclui o argumento.
5. Encerrando por enquanto.
Caixão de defunto não tem gaveta, diz um velho ditado popular. Não levaremos posses ou riquezas materiais para a vida eterna. Mas, por outro lado, somos seres materiais, com necessidades materiais reais. Como equacionar estas realidades? É o que veremos no próximo texto.
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