- Retomando para concluir.
Terminamos o último texto mencionando uma peculiaridade da vida humana, olhada em seu mistério de eternidade, a partir da ressurreição: de fato, muitas coisas que serão normais no paraíso seriam pecaminosas hoje. Por exemplo, no paraíso não há reprodução biológica, não há pecado original, não há o olhar concupiscente. Logo, a nudez, no paraíso, será de regra: não há necessidade de esconder a beleza dos corpos espirituais. Mas nesta vida biológica, com a concupiscência e a reprodução sexuada, a nudez fora de contexto é fonte e causa de pecado. De modo semelhante, a perfeição física dos corpos ressuscitados é a situação ordinária, não o resultado de intervenções médicas extraordinárias ou de atividades atléticas extraordinárias. Na verdade, em nossa vida biológica, todos os corpos estão sujeitos ao enfraquecimento, o adoecimento e à deficiência, sem que isto possa ser fonte de tristeza, porque não é algo moralmente relevante. Ao contrário, a tristeza pela decadência física do envelhecimento pode ser, isso sim, algo pecaminoso, se representar uma rebelião contra a providência divina e a condição humana da vida biológica.
Posto isto, vimos no último texto que a ressurreição, na sua plenificação, nos dotará de um corpo perfeito, espiritual, completamente submisso à nossa inteligência, à nossa vontade e à nossa sadia relação com Deus, e que gozará plenamente da bem-aventurança, refazendo em nós a integridade corpo e alma que nos caracteriza. Dotados desta ideia, vamos rever, com Tomás, os argumentos objetores iniciais para estudar as suas respostas.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que a perfeição do nosso corpo, sua saúde, sua beleza, sua capacidade atlética, tudo isso é algo restrito a esta vida biológica, que se perde com a morte. Não é um bem último, transcendente, como é a felicidade. Logo, a felicidade não envolve a plenificação do corpo, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, a felicidade é uma realidade fundamentalmente espiritual, e não está na saúde corporal, nem na aptidão atlética nem na beleza dos músculos, realidades que, nesta vida biológica, são transitórias e não condicionam a própria felicidade. Mas é conveniente que o ser humano readquira sua integridade existencial, com a ressurreição, para que viva a felicidade eterna dos santos de um modo ainda mais pleno e completo. Deste modo, a ressurreição envolve a recomposição da integridade física, não de qualquer modo, mas com um corpo espiritual, perfeito, íntegro e feliz.
O segundo argumento objetor.
Se a felicidade consiste numa relação imediata com Deus, vendo-o assim como ele é, esta não é uma atividade que envolve o corpo de nenhum modo. De fato, a chamada “visão beatífica”, ou seja, ver Deus em sua presença imediata, é uma realidade estritamente espiritual. Logo, a felicidade plena não envolve nem implica um corpo perfeito.
A resposta de Tomás.
De fato, a chamada “visão beatífica”, própria dos santos, em que consiste a felicidade plena dos seres humanos, é uma realidade estritamente espiritual, e não depende da mediação do corpo para ocorrer. Seremos felizes mesmo após a morte, antes da ressurreição final, quando, tendo vivido em santidade, podemos alcançar a visão direta de Deus, numa relação com ele de amor e amizade completas. Mas sabemos que, em grande medida, nossa visão beatífica, aqui na Terra, sofre obstáculo por parte da nossa corporeidade imperfeita, decaída, concupiscente, resistente à graça. De fato, o corpo físico não é canal para a visão beatífica, mas pode ser um obstáculo para ela. Assim, após a ressurreição, nosso corpo ressuscitado não deve impedir a plena relação com Deus, ou seja, não pode ter os limites e imperfeições do corpo biológico. é neste sentido, de ser perfeitamente transparente à plenitude da felicidade espiritual, que chamamos o corpo ressuscitado de “perfeito”.
O terceiro argumento objetor.
A felicidade completa, diz o argumento, vem pelo pleno conhecimento existencial que os santos têm de Deus. Ora, o conhecimento de Deus é uma realidade espiritual, e portanto completamente abstraída da matéria. Deste modo, a presença de um corpo, qualquer que seja, seria antes um obstáculo do que um complemento para a felicidade plena. Logo, a felicidade plena não pode admitir a presença de algum corpo, ainda que perfeito, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, nosso corpo biológico limita nossa capacidade intelectual, como já dissemos. Mas nosso corpo glorioso não nos limitará, porque será um corpo espiritual, totalmente submetido ao espírito e conveniente a ele, como dissemos na resposta anterior.
- Concluindo.
A felicidade final envolve a presença de um corpo espiritual perfeito, livre dos limites dimensionais da matéria e das concupiscências terrenas, plenamente submetido ao espírito e capaz de acompanhar suas operações. Temos um primeiro sinal disso em Jesus ressuscitado, que atravessa paredes, controla sua aparência de modo a ser ou não reconhecido e é capaz de surgir e desaparecer sem os limites do espaço e do tempo. Assim será nosso corpo ressuscitado também – um corpo já não biológico, mas espiritual. Tomás tratará destes fatos mais adiante, na Suma.
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