1. Retomando.

No último texto, vimos que a hipótese proposta afirmava que a perfeição do corpo não estava envolvida na felicidade, no sentido de que o corpo não teria relação com o próprio estado de felicidade plena e final. Vimos os argumentos que tentavam comprovar esta ideia, tentando nos convencer de que o corpo, a preocupação com a saúde e a integridade corporal, com elementos como a castidade e a temperança que nos proporcionam uma boa relação com ele, são realidades apenas desta vida, bens secundários, que não seriam importantes para a felicidade plena e final – que seria um estado estritamente espiritual, e portanto nada corporal estaria envolvido nela.

Mas vimos também o argumento contrário a esta hipótese, que, fundamentado na Bíblia – tanto no Antigo quanto no Novo testamento – reafirma que a bem-aventurança envolve as relações humanas materiais e se estende ao corpo e seus membros, de tal modo que a existência e funcionalidade do corpo também está envolvido na bem-aventurança plena.

Postos os termos do debate, vamos estudar a resposta sintetizadora de Tomás. 

  1. A resposta de Tomás.

É claro que a felicidade possível nesta vida é sempre limitada e passageira, embora verdadeira quando arraigada em Deus. Ora, mesmo nesta vida o nosso corpo está envolvido na nossa missão de felicidade: é pelo nosso corpo, e por nenhum outro meio, que conseguimos entrar em relação com a criação, com os irmãos e com Deus, e até mesmo a atividade intelectual e reflexiva depende do corpo e suas estruturas para ocorrer. 

Isto não significa que precisamos ter um “corpo perfeito” para alcançar a felicidade que nos cabe por aqui mesmo, ou pelo menos um “corpo perfeito” no sentido atlético ou estético. Mas significa que a saúde, a funcionalidade, o equilíbrio corporal também estão envolvidos em nossa vida e felicidade. Até naquilo que diz respeito à nossa relação com Deus: a vida sacramental, as Escrituras, a própria Igreja, a própria história na qual Jesus se revela Deus e realiza a nossa salvação, são instâncias que envolvem o nosso corpo e o demandam. O corpo, sua saúde, seu desenvolvimento virtuoso e sua funcionalidade são, portanto, desejáveis. O corpo desta vida, com todos os seus defeitos e limitações, sua idade e suas deficiências, deve ser tratado sempre como um dom de Deus, essencial para a vida humana.

E quanto à felicidade após a morte? 

Existem aqueles que defendem que a separação entre o corpo e a alma, na morte biológica, é algo que favorece grandemente a alma, possibilitando uma felicidade ainda mais completa. Livre do corpo, de seus limites, suas dores e defeitos, a alma poderia ser capaz de entrar numa comunhão mais direta e perfeita com Deus e gozar de uma felicidade mais plena e estável. Assim, estes defendem que a ressurreição final, em que a alma volta a estar provida de corpo, não seria algo com reflexos na felicidade, ou até seria uma desvantagem. De tal modo que a felicidade plena prescindiria de que o ser humano estivesse num estado de perfeita integração entre corpo e alma. Ou melhor, eles imaginam que qualquer retomada da dimensão material seria um verdadeiro prejuízo a essa felicidade. Não há como não enxergar, aqui, traços da velha heresia gnóstica, que considerava bom o espírito e má a matéria.

Não podemos concordar com essa ideia de que a ressurreição final seria uma desvantagem, de que ter um corpo seria até um obstáculo à felicidade humana. Na verdade, os seres humanos são, essencialmente, substâncias compostas de corpo e alma, de modo que a ressurreição é a devolução da integridade substancial dos seres humanos.

Assim, diz Agostinho, o corpo é necessário à felicidade, tanto como pressuposto para ela quanto, após a ressurreição final, como requisito para a sua plenitude.

De fato, como pressuposto, nesta vida biológica, o corpo é necessário para que entremos em relação com a criação, com os outros e com Deus – daí a sabedoria do regime sacramental de santificação, que respeita a necessidade que temos da mediação física para a relação com Deus. Aqui, nesta vida biológica, o corpo não é perfeito, no sentido de que ele está sujeito a patologias, defeitos, limites, envelhecimento, deficiências e outros percalços. Mas a felicidade, aqui, está em saber que, mesmo com este corpo limitado, podemos entrar em relação virtuosa com a criação, com os outros e, pela graça, com Deus, de tal modo que a limitação do corpo não é impeditiva da felicidade (embora limitada e instável) que podemos gozar nesta vida.

Mas após a ressurreição, o corpo espiritual já não será biológico, estará integralmente submetido à alma e a Deus e será a plenitude da nossa natureza, que poderá, enfim, ser totalmente elevada à glória. Deste modo, a felicidade plena da vida eterna implicará um corpo espiritual, perfeito em sua integridade. 

  1. Encerrando por enquanto.

Buscar a perfeição física nesta vida, condicionar nossa felicidade aqui na terra ao domínio estético e atlético do próprio corpo, buscando a saúde plena e a beleza estonteante, valendo-se inclusive de recursos avançados de medicina para frear artificialmente o envelhecimento e o decaimento, em busca de uma eternidade por aqui mesmo. Isto não pode levar à felicidade. Mas a perfeição do corpo espiritual será natural após a ressurreição dos corpos, sem que haja, ali, vaidade ou arrogância, concupiscência ou culto ao próprio ego. é muito interessante perceber que aquilo que é natural na vida eterna pode ser aberrante nesta vida: no paraíso, por exemplo, a nudez é gloriosa, ao tempo que, nesta vida, ela pode representar a imodéstia e o culto à concupiscência. É por isso que devemos ter consciência de que uma vida virtuosa pode significar aceitar os limites desta vida e não tentar viver uma “ressurreição” antecipada sem Deus. O corpo ressuscitado, que já não é biológico, revelará quem somos de fato. Perfeitas e belas criaturas espirituais.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.