- Introdução.
Antes de prosseguir, devemos lembrar brevemente de duas coisas: vamos debater a perfeição do corpo físico como dimensão do ser humano, na plenitude que Tomás de Aquino chama de “felicidade”. Mas não estamos tratando, aqui, nem de eugenia (ou seja, de corpos mais “evoluídos” do que outros, como se existissem seres humanos mais perfeitos, mais dignos, mais dotados de eficiência em suas estruturas corporais, e por isso mais “desejáveis” evolutivamente, em comparação com “raças inferiores” ou com pessoas com deficiência ou perdas corporais), nem de “perfeição corporal” no sentido estético, de corpos musculosos e atléticos no padrão dos campeonatos de beleza ou esportivos. Estamos falando, aqui, de corpos perfeitamente virtuosos, integrados ao domínio da alma, submetidos ao fim último do ser humano que é a relação integral com Deus e com os irmãos – corpos libertados do domínio do pecado. Em que medida, pois, nossos corpos desordenados em nossa vida concupiscente atual podem ser impeditivos à felicidade, e em que medida, após a ressurreição, nossos corpos participarão livremente da liberdade dos filhos de Deus? Com essas coisas em mente, vamos passar ao debate aqui proposto.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial, proposta para provocar o debate, é a de que a nossa felicidade plena não envolve nem requer a perfeição corporal para se consumar. Seria uma realidade puramente espiritual, para a qual, afinal, o corpo é apenas um estorvo e um impedimento. É uma hipótese, portanto, muito próxima das heresias gnósticas, que consideram a matéria como má e não proveniente de Deus, e a perfeição como algo totalmente espiritual. O artigo apresenta três argumentos iniciais para tentar justificar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor começa logo afirmando que a perfeição do corpo, isto é, a sua integridade, a sua saúde, são coisas relacionadas a esta vida biológica que vivemos aqui na terra, e são bens passageiros, não próprios da vida humana como um todo, nem da felicidade a que somos chamados na vida eterna – quando o corpo há muito terá sofrido a morte biológica. Portanto, a felicidade, em sua consumação plena, final, não envolve essa integridade, essa plenitude física do corpo, conclui o argumento, de modo impensado.
O segundo argumento objetor.
A felicidade do ser humano consiste na relação plena com Deus, quando se chega a ver a sua presença real, a sua essência, assim como ele é. Ora, essa visão é uma operação espiritual, e por isso não envolve nem requer nenhum tipo de perfeição corporal, conclui o argumento imprudentemente.
O terceiro argumento objetor.
A operação da inteligência é tão mais perfeita quanto mais for independente do corpo. Qualquer um de nós que tenha passado a experiência de tentar estudar ou aprender numa situação de sono, de fome ou de doença sabe o quanto o corpo pode ser pesado ao espírito, em suas operações mais nobres. ora, não há operação espiritual mais nobre do que a relação de presença total dos bem-aventurados com Deus. Mas o corpo, com suas exigências e seus limites, não pode ajudar nessa operação, mas pode atrapalhar bastante, diz o argumento. Logo, o corpo, mesmo um corpo perfeito em sua constituição, não é algo que está envolvido na felicidade plena, conclui o argumento, apressadamente.
- O argumento sed contra.
A felicidade plena vem como consequência de uma vida virtuosa, em que a palavra de Deus não é simplesmente ouvida, mas colocada em prática com todo o nosso ser. É o que ensina São João (13, 17) em seu Evangelho: Bem Aventurados sereis, se as praticardes.
Além disso, essa felicidade não é simplesmente espiritual, mas envolve o ser humano todo, como nos ensina Isaías 66, 14: “Com essa visão vossos corações pulsarão de alegria, e vossos membros se fortalecerão como plantas”. Isto significa que, de acordo com as Escrituras, o corpo está envolvido na felicidade plena de algum modo, e a hipótese inicial está equivocada, conclui este argumento.
- Encerrando por enquanto.
Já vimos, no artigo anterior, que o corpo, a presença do corpo biológico (ou mesmo do corpo glorioso) não é condição para alcançar aquilo que é a bem-aventurança plena e eterna, que é a visão de Deus. Vimos também que a ressurreição final não nos levará a outra felicidade senão aquela mesma da visão de Deus, mas que então a desfrutaremos com uma natureza recomposta. A pergunta agora é um pouco diferente: qual a importância e a natureza do nosso corpo em nossa relação com a felicidade? Trataremos mais sobre isto no próximo texto.
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