1. Retomando para encerrar.

No último texto, examinamos as respostas de Tomás aos três primeiros argumentos objetores, que tentavam comprovar a ideia de que o estado de sobrevivência à morte, em que a alma subsiste mas não o corpo, nos impediria de ter acesso à felicidade plena até a ressurreição dos mortos. 

Examinaremos agora as três últimas respostas aos argumentos objetores iniciais.

  1. Os três últimos argumentos objetores e suas respostas.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento lembra que o próprio Aristóteles, na sua Ética a Nicômaco, descreve a felicidade como aquele estado dinâmico e estável que não encontra obstáculos em seu fluir. Ora, A alma subsistente, separada do corpo pela morte, possui obstáculos em seu agir, porque está separada da sua dimensão material que lhe permitiria continuar em relação com a criação e com os que sobrevivem aqui, e de certo modo anseia pela superação desse estado de incompletude – o que determina a imperfeição de sua felicidade até a ressurreição final, em que, novamente íntegra, contemplará Deus desimpedidamente. Logo, o corpo faz falta, após a morte, para que a alma goze da vida plena, e isso impede a felicidade, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Existem duas maneiras pelas quais uma coisa pode “impedir” a outra. A primeira maneira é quando as coisas se opõem como contrárias: deste modo, por exemplo, a água pode impedir o fogo, como o gelo pode impedir o aquecimento. Este tipo de impedimento realmente bloqueia a felicidade, de modo que, presente um impedimento deste tipo, a felicidade não é alcançada. O exemplo, aqui, seria o pecado mortal: pecando-se mortalmente, sem que haja subsequentemente o perdão sacramental, a felicidade fica impedida.

Mas existe um outro tipo de impedimento, que não bloqueia completamente o objetivo, mas dificulta alcançá-lo, por algum defeito na coisa. Deste modo, o objetivo é alcançado, mas não de modo pleno, e pode ser incrementado. Imaginemos, aqui, alguém com alguma restrição ocular que, diante de uma belíssima paisagem, estivesse sem seus óculos. Nada o impede de gozar desde já da plenitude daquela paisagem, mas certamente colocar os óculos vai fazê-la gozar de maneira muito mais perfeita. 

A relação do corpo com a felicidade, quanto à sua ausência após a morte, é deste último tipo: não é um impedimento que veda a obtenção da felicidade, de tal modo que, chegando-se à visão beatífica, a plenitude se dá inteiramente ao sujeito que morre em santidade. Mas o advento da ressurreição final lhe acrescenta uma perfeição que permite a ele estar ainda mais completo nessa felicidade que já lhe foi dada de modo integral. 

O quinto argumento objetor.

A felicidade é um estado de perfeita satisfação, em que o desejo é plenamente satisfeito, e portanto repousa, porque já não resta mais nada a desejar diante da saciedade plena. 

Mas no estado de separação do corpo e antes da ressurreição final a alma ainda deseja sua reunião ao corpo, de tal modo que seu apetite não se encontra em repouso, repleto, e ainda tem algo a desejar. Logo, a ausência do corpo impede a felicidade até a ressurreição final, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Tomás faz, aqui, mais uma de suas distinções maravilhosas; de fato, diz ele, quanto ao objeto do seu desejo, a alma se encontra perfeitamente saciada, como ente desejante, quando morre em santidade e alcança a visão beatífica. Não há nada a ser desejado além daquela visão, e a alma sabe disso. Mas ela sabe também que não está completa como ser, de tal modo que aquele bem pleno, completo, além do qual não há mais o que desejar, pode ser usufruído por ela apenas de modo incompleto, não porque seja um bem incompleto (não é), mas porque ela própria está incompleta em sua natureza. De tal modo que a ressurreição final permitirá que, completada em sua unidade essencial de corpo e alma, possa gozá-lo ainda mais completamente. Como diz o Salmo 62(63), “Deus, vós sois o meu Deus/ com ardor vos procuro/ minha alma está sedenta de vós/ e minha carne por vós anseia/ como terra sedenta e sem água”. Portanto, na ressurreição final, a felicidade não aumentará por parte da relação com Deus – que já é completa – mas por parte do sujeito, que, reintegrado em sua natureza completa, poderá viver ainda mais completamente essa felicidade. 

O sexto argumento objetor.

A felicidade humana, na santidade, é equiparável à felicidade dos santos anjos. Mas os santos anjos são felizes na sua natureza espiritual completa, íntegra, inteira, ao passo que a alma separada do corpo, antes da ressurreição final, não tem sua natureza completa, inteira, justamente porque não é anjo, mas um ser essencialmente de corpo e alma. Não pode, pois, ser feliz de modo inteiro, como os anjos o são. Logo, a ausência do corpo impede a plenitude da felicidade humana, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

É verdade que os humanos que morrem em santidade são encaminhados à mesma bem-aventurança dos anjos; e, de fato, alguns seres humanos alcançam tamanha intimidade com Deus na santidade que chegam a ficar mais próximo dele do que alguns dos anjos mais simples. No entanto, antes da ressurreição final, de fato há um descompasso na natureza humana, que não impede de modo algum a amizade plena com Deus (que é a própria felicidade), mas que, sanada pela ressurreição final, permitirá um desfrute mais pleno dessa mesma amizade – quando os seres humanos desfrutarão da inteireza de natureza como os anjos já desfrutam desde sempre. 

3. Concluindo.

Terminamos o texto anterior com um paradoxo: nesta vida humana, biológica, temos a natureza completa do ser humano – corpo e alma, que nos permite entrar em relação plena com a criação, com os outros e conosco mesmos. Mas não podemos entrar em relação plena com Deus, face a face; precisamos da relação mediada pelos sacramentos e sacramentais. 

Após a morte e antes da ressurreição final temos a incompletude da natureza: estamos separados do nosso corpo biológico, que foi destruído pela morte, mas, se morremos na graça, chegamos à relação face a face com Deus, não mediada. Deste modo, já não há sacramentos nem sacramentais, mas a felicidade plena que é o próprio Deus. Embora nossa natureza esteja incompleta, porque estamos desprovidos de corpo. Finalmente, na ressurreição, podemos ser, ao mesmo tempo, integralmente humanos e inteiramente felizes.