1. Retomando.

Ser feliz de corpo e alma, já desde esta vida, embora ainda não de maneira completa e definitiva. Ser feliz de modo completo e definitivo desde a morte, quando se viverá a amizade com Deus, com uma alegria espiritual inimaginável. Ser feliz de corpo e alma na ressurreição dos mortos, Eis a proposta.  

De fato, como vimos no texto anterior, a separação entre o corpo e alma, determinada pela morte, não impede o gozo da bem-aventurança em Deus desde o momento mesmo da morte. Esta é a santidade a que todos somos chamados, não somente os canonizados pela Igreja. “Todos, todos, todos”, diz o Papa Francisco. E que não está condicionada pela ressurreição final, embora esta a aperfeiçoe; não como quem a completa em essência, mas como quem a provê de meios e elementos úteis e convenientes a seu desfrute. E assim, reintegrados na nossa unidade substancial, seremos felizes não de uma felicidade mais completa, mas como seres humanos completos.

Obviamente, há os que não querem a amizade com Deus, e são livres para rejeitá-la. Mas, lamentavelmente, não conseguirão a felicidade fora de Deus. 

De posse destes princípios, vamos começar a examinar os argumentos objetores iniciais, que procuravam demonstrar que, sem o corpo, a felicidade completa não seria atingida mesmo na bem-aventurança dos santos, e estudar as respostas de Tomás a elas.

  1. Os três primeiros argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento parte de um princípio muito caro ao mundo medieval – e que deveria estar sempre em nossa mente também. A virtude e a graça dependem da natureza, não a destroem, mas a elevam e aperfeiçoam. 

Mas, a partir deste princípio corretíssimo, o argumento prossegue para concluir que, uma vez que a morte implica a separação entre corpo e alma, ela de algum modo corrompe profundamente a natureza humana, que fica incompleta. Ora, se é verdade que a felicidade não pode ser alcançada sem a graça e a virtude, e se a graça e a virtude pressupõem a natureza, o argumento conclui que, na morte e antes da ressurreição final, não se pode ser feliz de verdade, porque não se pode elevar à plenitude uma natureza que não está em sua integridade. Logo, somente após a ressurreição final, quando corpo e alma se reintegrarão, é que o ser humano será feliz de verdade, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

A felicidade do ser humano está, em primeiro lugar, ali onde o ser humano se caracteriza como algo distinto dos outros seres materiais: justamente em sua dimensão espiritual, que é fundamentalmente sua inteligência reflexiva e sua vontade como inclinação àquilo que é intelectualmente reconhecido como bom. Ora, como sabemos, estas duas dimensões ultrapassam as capacidades da matéria e independem dos órgãos do corpo para existir – embora, é claro, a alma seja o fundamento estruturante do próprio corpo. Ora, a dimensão espiritual do ser humano permanece após a morte, justamente porque existe independentemente dos órgãos do corpo e não depende dele para existir. Deste modo, o ser humano continua capaz de felicidade após a morte, porque aquelas dimensões suas que são o lugar próprio da felicidade não deixam de existir, com a morte – embora, de fato, como natureza humana, a alma seja incompleta sem o corpo. Mas aquilo que é essencial para o ser humano em sua natureza própria – o corpo – é acidental para a felicidade, embora seja, de fato, muito conveniente para ela. 

O segundo argumento objetor. 

O segundo argumento lembra que a felicidade é uma atividade que implica um estado definitivo, consumado, perfeito. Mas a alma separada do corpo pela morte, embora subsista, já não é um ser humano atual, perfeito, completo, é apenas uma parte, de tal modo que não pode ser o lugar daquilo que deve ser do todo. Assim, a alma separada e subsistente após a morte não pode ser feliz realmente, antes da ressurreição final, diz o argumento. 

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás é bastante interessante, mas um pouco difícil de seguir. 

de fato, quando um todo se rompe, quando alguma coisa perde sua unidade existencial, as suas partes perdem também sua identidade existencial. Esta coisa deixa de existir como substância, deixa de ser o que é e passa a ser outra coisa. Pensemos, aqui, por exemplo, num simples coco: se o partimos, ficamos com as cascas, a polpa e a água, que já não são o coco, mas suas partes que adquirem uma nova identidade. 

Mas com a alma humana as coisas não são assim. Mesmo quando o todo é destruído pela morte, com o perecimento da dimensão material que é o corpo, a alma subsiste com a identidade da pessoa. Deste modo, a sobrevivência após a morte, após a destruição da unidade substancial do ser humano, é diferente da existência das partes das outras coisas, quando destruídas. De fato, a alma não é uma parte do ser humano, mas sua estrutura inteligível e inteligente, que subsiste com sua identidade plena após a morte. Deste modo, a alma pode, como identidade remanescente, gozar desde já da felicidade que cabe àquele ser humano, porque conserva plenamente a identidade dele e, em sua relação com Deus, pode vivenciar plenamente a dinâmica da felicidade que tal relação comporta. A natureza da alma subsistente, portanto, embora não seja um indivíduo humano pleno, é uma existência plenamente capaz de relação com Deus e, portanto, plenamente capaz de felicidade. 

O terceiro argumento objetor.

A felicidade, diz o argumento, é a consumação do ser humano, sua perfeição existencial. Mas um ser humano que morre já não goza de perfeição existencial, pelo que não pode ser feliz antes da ressurreição final, diz o argumento. 

A resposta de Tomás.

Na verdade, o lugar próprio da felicidade, no ser humano, é a sua dimensão intelectual, que é propriamente espiritual e, portanto, mantém sua identidade após a morte. E aqui Tomás faz uma comparação que nos pode parecer excêntrica: o ser humano, por sua alma subsistente após a morte, permanece sendo um ser espiritual, dotado de inteligência, como os dentes brancos de um africano (que tenha muita melanina na pele) permanecem brancos mesmo se extraídos. Assim, a alma subsistente tem a capacidade para ser feliz de verdade, mesmo antes da ressurreição final. 

  1. Encerrando por enquanto.

Não somos seres humanos plenos, antes da ressurreição dos corpos; nesta vida, somos seres humanos plenos, no sentido de uma natureza completa, de corpo e alma, mas não podemos ser completamente felizes. Na morte, enquanto aguardamos a ressurreição, não somos seres humanos plenos em natureza, porque desprovidos de corpo, mas podemos ser inteiramente felizes. Finalmente, na ressurreição, podemos ser, ao mesmo tempo, integralmente humanos e inteiramente felizes.

No próximo texto examinaremos os últimos argumentos objetores e as respostas de Tomás.