- Retomando.
Os santos, os que morreram por causa do Cordeiro, os escolhidos, todos estão no céu, como descreve o Apocalipse de João em várias passagens, como por exemplo Ap 6, 9-11. Há uma grande liturgia acontecendo no céu, que envolve a alma dos que já morreram e aguardam ainda que se complete o tempo para o juízo final. Eles mantêm sua identidade e sua relação com Deus, mas estão desprovidos dos corpos. Serão felizes? sua felicidade será plena? O corpo ainda será necessário para completar essa felicidade plena? Eis o debate que fazemos agora.
No último texto, vimos a hipótese de que o corpo, a sua integração com a alma, é requisito absolutamente necessário para a felicidade humana, de tal modo que os santos não estariam gozando desde já a felicidade no céu enquanto aguardam a ressurreição dos mortos. Vimos os seis argumentos neste sentido, basicamente apelando para o fato de que o ser humano é essencialmente um ser corpóreo, e por isso não haveria possibilidade de felicidade plena na ausência do corpo. Mas vimos também a citação do Livro do Apocalipse 14, 13, que proclama bem-aventurados, ou seja, felizes de modo pleno, os que morrem no Senhor. Vale dizer, há bons fundamentos escriturais para defender que a felicidade plena não fica condicionada à ressurreição final dos corpos.
Chegados a este ponto, vamos começar a examinar a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
A felicidade nesta vida biológica.
Tomás vai iniciar lembrando que há duas noções de felicidade:
1) a felicidade provisória, processual, incompleta, sempre tênue e sujeita a variações, que podemos obter nesta vida, e
2) a felicidade estável, plena, eterna e insuperável que os santos alcançam na eternidade, quando contemplam a Deus.
É claro que a felicidade que podemos obter nesta vida é uma felicidade humana, e o ser humano é um ser de corpo e alma. Assim, ela envolve o corpo, pressupõe o corpo e se reflete no corpo, tanto quanto na dimensão espiritual. A felicidade real, embora imperfeita, que conseguimos viver nesta vida terrena diz respeito às relações que estabelecemos, e não há como estabelecer relações humanas sem o corpo. Mesmo a nossa relação com Deus, nesta vida, de algum modo pressupõe e envolve o corpo, como sabe a Igreja – e por isso existe um regime sacramental. Os sacramentos e os sacramentais são justamente isto: reconhecimentos de que precisamos de uma relação com Deus que nos envolva também fisicamente, nesta vida. De fato, a felicidade humana sempre envolve as faculdades propriamente humanas – o intelecto e a vontade – sem excluir as faculdades comuns com outros seres, como a sensibilidade (os sentidos e as paixões), a memória e a cogitação. A felicidade humana, nesta vida, é a felicidade de um ser biológico dotado de inteligência, e o envolve em todos os sentidos.
E depois que morremos?
Por conta desta constatação, alguns entendem que a alma separada do corpo, no estado intermediário (isto é, naquele estado que decorre desde a morte física até o juízo final) não seria capaz de uma felicidade plena, porque estaria desprovido de uma dimensão inteira – a dimensão corporal, e essa situação impediria a plenificação da alegria, a completa bem-aventurança, a felicidade em sua plenitude. Mas eles estão errados, por motivos que podemos perceber tanto pela fé quanto pela própria razão natural.
A fé nos ensina que, enquanto estamos nesta vida, vivemos uma espécie de “exílio de Deus”, porque não podemos nos unir a ele de modo perfeito – é o que nos ensina São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios (5, 6): “sabemos que todo o tempo que passamos no corpo [isto é, na vida biológica aqui na Terra] é um exílio longe do Senhor”. Nossa proximidade com Deus, nesta vida, é sempre mediada (daí os sacramentos e sacramentais, que já mencionamos). Isto determina que, aqui na Terra, nesta vida biológica, nossa união com Deus se dê pela fé, não pela visão beatífica (a visão direta e não mediada de Deus mesmo). Ora, no estado de vida biológica, qualquer relação, seja com Deus, seja com o irmão, seja com a criação, é sempre mediada pelo corpo – de tal modo que, excluído o corpo, não há maneira racional de relacionar-se. Sem o corpo, sem a mediação material que ele nos proporciona, não há interação, relação, conhecimento, e portanto não há felicidade possível; nem mesmo a felicidade provisória e volátil que podemos alcançar nesta vida.
Mas, uma vez mortos, aqueles que morrem em amizade com Deus estabelecem com Ele uma relação de visão. Esta visão significa que, na felicidade dos santos, não dependemos do corpo para nos relacionar com Deus, nem com os outros, nem com a criação: fazemo-lo por meio do próprio Deus, em cuja essência podemos ver todas as coisas. Deste modo, após a morte, superado o estágio em que dependemos da fé para nos relacionarmos com Deus, já não precisamos mais dela, e somos capazes da felicidade, sem que a ausência do corpo possa impedi-la (dada a amizade com Deus pela visão direta de sua essência). Este testemunho nos dá São Paulo também na Primeira Carta aos Coríntios (13, 13), quando nos lembra que “por ora subsistem a fé, a esperança e o amor – as três. Mas a maior delas é o amor”, e isso porque Deus mesmo é o próprio amor (1 João 4, 8). Os bem-aventurados, os que morrem na amizade com Deus e entram na santidade eterna, já não veem à maneira biológica, corporal, mas enxergam tudo em Deus, no amor. Deste modo, sua felicidade é imediata e plena, e não está condicionada à ressurreição final.
Qual é, então, o significado da ressurreição final para a felicidade eterna dos santos? É algo indiferente?
Não, diz Tomás. Ela aperfeiçoa nossa felicidade na santidade. De fato, diz Tomás, há duas maneiras pelas quais podemos dizer que uma determinada condição aperfeiçoa outra:
- Quando esse elemento que aperfeiçoa alguma coisa faz parte da própria essência da coisa aperfeiçoada. Assim, o corpo e a alma são elementos que fazem parte da própria essência do ser humano, de tal modo que a presença dos dois elementos aperfeiçoam o ser humano em sua essência. Neste sentido, a alma que sobrevive à morte é um ser humano incompleto, e a ressurreição aperfeiçoa sua essência ao restituir o elemento material faltante, reintegrando a perfeição do ser humano ressuscitado.
- Quando algum elemento aprimora uma coisa já completa em seus elementos essenciais. Assim, uma coroa de flores no cabelo pode aperfeiçoar, como ornamento, um belo rosto, sem que se possa dizer que, antes disso, o rosto fosse imperfeito.
Por isso, podemos dizer que a ressurreição final aperfeiçoa o próprio ser humano, por restituir a integridade de sua essência, rompida pela morte. Mas não completa a essência da felicidade, da bem-aventurança dos santos, que já está consumada e plena desde a morte. Assim, no sentido do item 01 acima, não se pode dizer que a ressurreição dos mortos aperfeiçoa a felicidade.
Mas no sentido do item 02 há, sem dúvida, um aperfeiçoamento da felicidade dos santos, após a ressurreição final: com a ressurreição dos corpos, a felicidade, que já estava essencialmente completa, se aprimora, porque, como diz Santo Agostinho, com a ressurreição dos corpos atende-se a uma certa necessidade de integridade na vida eterna, própria dos seres humanos, que, uma vez que não são anjos, serão completos após a ressurreição final.
- Encerrando por enquanto.
Há uma certa tendência, de nossa parte, a confundir a santidade em seu sentido amplo – aquela a que se dirigem todos aqueles que morrem em amizade com Deus, e que é acessível a todos os que nele creem, confiam e esperam e viveram uma vida marcada em algum grau pelo amor, com os requisitos canônicos para a canonização dos santos pela Igreja. Ser canonizado é um evento muito raro, em comparação com o número enorme de santos que, conforme cremos, chega à felicidade pela amizade final com Deus. Esta santidade ordinária, acessível a todos nós, constitui aquilo que o Papa Francisco costumava chamar de classe média da santidade, e devemos buscá-la com todas as nossas forças, porque não há outra maneira de ser feliz.
No próximo texto começaremos a ver as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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