- Introdução.
O ser humano é uma substância que consiste em corpo e alma unidos essencialmente. Não se pode pensar no ser humano sem pensar nessas duas dimensões. Mas somos mortais, o que significa que, em algum momento, essa união substancial se romperá. E a sobrevivência, como sabemos, será da parte imaterial.
Ocorrem, aí, dois problemas: 1. Se a felicidade é impossível ao ser humano sem a união substancial com o corpo, então os que “matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10, 28) devem ser efetivamente temidos, porque são capazes de excluir o ser humano da situação de santidade, de bem-aventurança pela união imediata com Deus, e a promessa de Jesus ao bom ladrão (ainda hoje estarás comigo no Paraíso, Lc 23, 43) é vã. 2. Se a bem-aventurança, a felicidade, pode ser plena e imutavelmente alcançada apenas pela alma separada, então de fato somos como os anjos, seres essencialmente espirituais, e não há sentido em falar numa “ressurreição dos mortos” no sentido corporal, como é a fé da Igreja. Eis, então, o grave problema que vamos debater: qual o sentido do corpo na felicidade final?
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, proposta para provocar o debate, é a de que o corpo é indispensável à felicidade, de tal modo que não se pode falar em felicidade quando o ser humano subsiste sem o corpo. Vale dizer, naquele estado intermediário entre a morte e a ressurreição final, em que subsistimos apenas como almas separadas, a felicidade, a bem-aventurança, simplesmente não seria possível, diz a hipótese. Dada a profundidade do debate, são apresentados seis argumentos objetores neste artigo, e não os três habituais. Vamos examiná-los.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento parte de uma premissa verdadeira: a graça não age contra a natureza, nem sem ela, nem substituindo-a, mas pressupõe a natureza e a eleva. Ora, prossegue o argumento, após a morte, nosso corpo perece, e a alma que sobrevive não é u ser humano em sua natureza própria, mas apenas uma parte remanescente, incompleta. Ora, a parte remanescente, separada do todo, é sempre imperfeita, porque é incompleta. Logo, a graça não pode elevar aquilo que é imperfeito, incompleto, à plenitude. Logo, não existe a possibilidade de que o ser humano seja feliz imediatamente após a morte, e antes da ressurreição final, conclui apressadamente este argumento.
O segundo argumento objetor.
Já vimos, em debates anteriores, que a felicidade é uma dinâmica, na verdade ela é uma operação perfeita do ser humano plenificado. Mas apenas um ser humano completo, pleno, pode realizar uma dinâmica plena. Ocorre que, após a morte e antes da ressurreição final, a alma separada não é um ser humano pleno, porque lhe falta justamente a dimensão material. Logo, não pode existir felicidade em sentido próprio para a alma separada, conclui o argumento de modo irrefletido.
O terceiro argumento objetor.
Este é até mais simples, mais raso. Ele lembra, simplesmente, que a felicidade é a plenificação do ser humano. Mas uma alma que subsiste à morte não é um ser humano, mas apenas uma subsistência parcial. Logo, não pode haver felicidade na alma separada do corpo, conclui.
O quarto argumento objetor.
A felicidade, segundo Aristóteles, é aquele estado em que nada pode reter, nada pode colocar obstáculo à atividade plena, estável e dinâmica do ser humano. ora, a alma sem corpo de certo modo sofre obstáculo à sua operação plena, porque não pode realizar as operações que realizava nem manter as relações diretas que mantinha quando estava integrada ao corpo. Isto a impede, dificulta de certo modo sua plena integração à relação com Deus, porque mantém nela a expectativa de reintegrar-se ao corpo na ressurreição final. Logo, sem o corpo a alma não pode atingir a plena felicidade, conclui.
O quinto argumento objetor.
A felicidade, lembra o argumento, é alcançar o bem universal, aquilo que é bom em todos os sentidos e não deixa espaço para desejar mais nada, porque inclui tudo o que pode ser bom. A vontade de quem é realmente feliz repousa em estado de total satisfação e já não tem mais o que desejar. Ocorre que a alma separada do corpo ainda deseja sua reintegração na ressurreição final. Então, se ela ainda tem carências, desejos, não se pode dizer que ela é feliz, conclui o argumento.
O sexto argumento objetor.
Jesus nos ensina que, na vida plena, o ser humano será como os anjos (Mt 22, 30). Mas uma alma separada não é como os anjos, como já nos ensinava Santo Agostinho. Um anjo é substancialmente completo na sua vida incorpórea, porque é essencialmente espiritual. Uma alma separada, porém, não é uma substância, e somente voltará a sê-lo depois da ressurreição final, quando será reintegrada ao corpo. Logo, a felicidade não é própria da alma separada, conclui o argumento.
- O argumento contrário à hipótese inicial.
O argumento contrário lembra que as próprias Escrituras nos ensinam que as almas daqueles que morrem em amizade com Deus já são felizes, como se lê em Apocalipse 14, 13a: “Eu ouvi uma voz do céu, que dizia: Escreve: Felizes os mortos que doravante morrem no Senhor”. Obviamente, essa declaração diz respeito ao estado das almas antes da ressurreição final, e as descreve como já “felizes”. Portanto, a felicidade dos santos em Deus não está condicionada ao corpo, conclui este argumento.
- Encerrando por enquanto.
Será que os santos são felizes no céu, gozando já plenamente a sua amizade com Deus? Será que a ressurreição final seria algo talvez um tanto redundante para eles, que já gozam de sua felicidade plena?
Veremos isso nos próximos textos.
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