1. Retomando para concluir.

Vimos tudo isto nos últimos textos. Agora, munidos destes princípios, vamos revisitar com Tomás os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

Vimos, neste artigo, a hipótese de que a felicidade não implica a pureza e a retidão da vontade, mas apenas o pleno conhecimento de Deus. Mas no último texto estudamos a resposta de Tomás, que nos aponta, em suma, que a retidão da vontade é necessária tanto para chegar à visão de Deus (Mt 5, 8), como permanece, uma vez atingida esta visão, já que Deus sacia plenamente todos os anseios do coração do ser humano, não restando mais nada, nenhum bem, a ser buscado fora de Deus. Assim, a vontade reta é pressuposto e elemento da felicidade.

De posse deste precioso ensinamento, vamos revisitar os argumentos objetores iniciais – que tentavam provar o contrário – para estudar as respostas de Tomás a eles.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás. 

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que a felicidade é, antes de tudo, uma condição de plenitude da dimensão intelectual do ser humano. Ou seja, a felicidade é um encontro com a Verdade. Mas o próprio Santo Agostinho já nos ensinava que verdades podem vir a ser conhecidas mesmo por aqueles que não têm uma vontade honesta e reta. Logo, a vontade reta não é elemento da felicidade, conclui este argumento.

A resposta de Tomás.

Santo Agostinho admite que mesmo as pessoas más podem conhecer verdades naturais, mas não que o conhecimento da Verdade, ou seja, a construção de uma relação de amizade com Deus, não passe pela disciplina e pela construção de uma vontade virtuosa. De fato, a verdade, que é Deus, só é encontrada pela graça, e a graça é incompatível com um coração impuro. Tomás está com a razão, e 1 João 3, 5-6 nos ensina isto. 

O segundo argumento objetor.

O que vem depois não pode depender daquilo que vem antes, lembra o argumento. Ora, a vontade só pode se inclinar para aquilo que o intelecto apreende antes. Logo, a felicidade, que é a plenitude da mente, não pode depender da vontade honesta como pressuposto, porque deve precedê-la, quer dizer, a felicidade, como encontro com a verdade, é alcançada independentemente de se ter uma vontade reta, conclui o argumento.  

A resposta de Tomás.

É verdade que não se pode amar senão aquilo que se conhece, e nesse sentido a inclinação da vontade sempre vem depois de alguma apreensão intelectual. Mas isso não significa que os atos intelectuais não sejam, eles próprios, precedidos por algum ato de vontade, no sentido de que a vontade nos inclina a saber mais sobre aquilo que é bom. Ademais, o primeiro ato da vontade é justamente aquele movimento para a felicidade que nos faz caminhar em busca dos bens concretos com que nos deparamos nesta vida e, principalmente, em busca do bem universal que é Deus. quem não é movido por essa primeira inclinação para a felicidade cai em alguma espécie de depressão, porque não encontra motivação para caminhar. Logo, podemos considerar que, no sentido mais fundamental, essa inclinação primordial da vontade à felicidade é, falando de modo absoluto, o primeiro movimento para a felicidade, mas só alcançará seu fim se for honesto e reto, isto é, se de fato buscar a felicidade ali onde ela pode ser encontrada

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento nos lembra que aquilo que é meio para um fim se torna inútil quando o fim é atingido. Por exemplo, um navio já não é mais útil a quem já alcançou o porto de destino. ora, prossegue o argumento, a vontade reta, disciplinada e virtuosa, que aponta para o fim último do ser humano, que é a felicidade, já não é necessária quando se chega a esse fim, isto é, quando se atinge a felicidade final. Assim, quando se alcança a felicidade, a vontade reta e a virtude moral já não são necessárias, e podem ser abandonadas, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Nem tudo aquilo que se dirige a um fim é abandonado quando se atinge esse fim; de fato, só abandonamos aquilo que era imperfeito e incompleto. Assim, é claro que os meios para o fim, quando implicam o caminho para esse fim e o processo de atingi-lo são abandonados quando o fim é atingido. Mas a ordem, a perfeição, a orientação ao próprio fim, o aperfeiçoamento obtido, tudo isso fica, mesmo quando o fim é atingido. Pensemos num estudante que cursa a faculdade de medicina: certamente, uma vez que se forme, já não terá necessidade de provas, aulas e treinamentos, mas manterá consigo os ensinamentos obtidos, as virtudes desenvolvidas, a experiência da caminhada e o desejo de continuar a ser médico. De modo semelhante, a vontade permanece virtuosamente voltada para o bem universal, mesmo quando ele é atingido. 

  1. Concluindo.

Talvez seja difícil para nós entender a estrutura da liberdade para Tomás. Fomos feitos para Deus, como lembra Santo Agostinho, e portanto a nossa liberdade consiste justamente em escolher livremente aquilo que é a única opção para nos plenificar. Em suas “Quaestiones de Potentia”, Tomás nos diz que “a necessidade natural, segundo a qual se diz que a vontade necessariamente quer algo, como a felicidade, não entra em conflito com a liberdade da vontade. De fato, a liberdade se opõe à violência e à coação, e não há compulsão naquilo que move algo de acordo com a estrutura de sua natureza; mas há violência e compulsão, de fato, quando o movimento natural é impedido. Ali onde a vontade livremente deseja a felicidade, ela assim a deseja necessariamente”. (q. 10, a. 2). 

Portanto, em Deus, nossa vontade ficará retificada, estabilizada para sempre, no modo de plena liberdade, de estabilidade na alegria, de amor eterno com Deus. E será livre num sentido que sequer podemos imaginar. Mas para chegar lá, precisamos ser “terreno fértil” para a graça: disciplina, luta, busca ativa da santidade, porque a graça não destrói nem elimina a natureza, mas a pressupõe e eleva. Deste modo, a retidão e a pureza da vontade são pressuposto e elemento da felicidade.