1. Retomando.

Vimos, no último texto, a hipótese controvertida de que a felicidade dispensa a retidão da vontade, isto é, que ela implica apenas a plenitude intelectual, mas já não demanda a retidão na escolha e o controle dos próprios impulsos. Vimos três argumentos que tentam comprovar esta hipótese. O primeiro argumento lembra que o próprio Santo Agostinho afirmava que a felicidade é uma condição intelectual que envolve encontrar a verdade, mas que a retidão e a pureza de coração não são obstáculos para que se conheçam muitas verdades, logo não são elementos intrínsecos da própria felicidade. O segundo argumento afirma que é preciso primeiro conhecer para depois amar, concluindo que, uma vez que a felicidade aperfeiçoa em primeiro lugar o intelecto, a retidão da vontade não é requisito para ela. Por fim, o terceiro argumento lembra que os meios já não são necessários quando se atinge o fim, e que a inclinação da vontade para a felicidade é algo que já não é necessário quando a própria felicidade é conquistada. Mas o argumento contrário lembra que a pureza de coração é pressuposto para ver a Deus (Mt 5, 8) e que somente na santidade podemos chegar à visão de Deus (Hb 12, 14). Uma vez que a santidade envolve a retidão da vontade, então a felicidade envolve essa mesma retidão, diz o argumento contrário.

Estudemos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás. 

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Para ser feliz é necessário ter pureza de vontade, quer dizer, honestidade nos propósitos e reta intenção. Quer para alcançar a felicidade, quer para vivê-la. 

De fato, não se pode alcançar a felicidade sem uma vontade devidamente ordenada, madura e disciplinada. O fim é aquilo que dá significado à vontade, como a forma dá significado à matéria. Sem a mão de Michelângelo, aquele bloco de mármore que hoje é a Pietà – essa escultura mundialmente admirada – seria ainda apenas um bloco de mármore. 

É claro que o fim dá significado à vontade; mas isso não implica imaginar que a vontade se dirige passivamente para o fim. Do mesmo modo que Michelângelo não conseguiria esculpir a Pietà na água, uma vontade desordenada, indisciplinada, desonesta, imatura, jamais vai se deixar guiar até aquilo que a inteligência identifica como seu fim último. Por exemplo, um estudante farrista, imaturo, indisciplinado, pode até almejar ser admitido num exame para cursar uma faculdade importante, mas dificilmente terá a disciplina necessária para preparar-se adequadamente. Portanto, a vontade bem disposta, ordenada, é pressuposto da felicidade. 

Mas a vontade bem disposta, ordenada, também é um elemento da felicidade já alcançada, em especial da felicidade que decorre da santidade dos que estão em Deus. De fato, os que estão em Deus na eternidade têm a vontade reta, madura, estável, porque estão sob o Bem universal, e não precisam desejar nada fora da ordem, nada que não seja pleno, bom, satisfatório sob todos os sentidos. Deus é aquilo para o qual nossa vontade foi criada, de tal modo que ela se faz perfeitamente ordenada quando está unida a ele. 

E mesmo quando ainda se está a caminho, a vontade reta é capaz de discernir, pela graça, “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos”, ensina São Paulo em Filipenses 4, 8. Tudo isto, como sabem os que correm a estrada da santidade, faz parte daquilo que nos torna verdadeiramente felizes, mesmo ainda nesta terra. 

Deste modo, não pode existir felicidade sem uma vontade reta, madura, disciplinada, quer pelo esforço da virtude – constituindo o “bom terreno” para o semeador (Mateus 13, Marcos 4, Lucas 8), quanto pela graça que nos conduz àquele sem o qual nada podemos fazer (João 15, 5).

3. Encerrando por enquanto.

Sem santidade não se pode ver Deus. Mas o que é a santidade? Para aqueles que acreditam que sua liberdade não é nada mais do que poder afirmar a própria autenticidade, no sentido de poder escolher o que quiser e sempre que quiser, indiferentemente àquilo que possa ser “bom” ou “mau”, Deus não é livre, como livres não são os santos. De fato, os santos sempre escolhem o bem, e não podem escolher o mal. Mas esse “não podem” não é jurídico, mas ontológico: não é que a eles o mal se apresente como uma possibilidade aberta à liberdade, que eles optam por não escolher, em nome de uma obediência rigorosa a Deus, abrindo mão de sua liberdade; não é isso. O mal, por definição, é aquilo que não deveria sequer atrair a vontade, e por isso jamais deveria ser objeto de escolha. Escolhemos o mal porque ele se apresenta, equivocadamente, como algum bem, que, embora seja menor, menos valioso, atrai enganosamente nossa vontade, em prejuízo de algum outro bem maior. Sacrificamos o bem maior pelo menor, ou o bem alheio pelo bem egoísta, quando escolhemos o mal. Ou melhor, quando escolhemos mal frente aos bens que se apresentam a nós. Não somos livres, portanto, para sopesar adequadamente a hierarquia dos bens e escolher bem, quando escolhemos o mal sob o pretexto de “liberdade” e “autenticidade”. 

Deste modo, apenas Deus é livre, porque nele o bem está em perfeita ordem, e se confunde com seu próprio ser. E somente os santos são livres de verdade, porque sempre escolhem com perfeição. 

No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.