- Introdução.
Muitos acreditam que todo erro, todo desvio, na conduta humana, vem de algum tipo de ignorância. Se o ser humano tiver todo o conhecimento de alguma situação, ele inevitavelmente se conduzirá de modo virtuoso. Assim, as pessoas cultas, segundo este pensamento, são levadas irremediavelmente ao bom agir, ao querer reto. a vontade não teria outro caminho a não ser seguir o conhecimento que se possui. Deste modo, o processo de educação seria simplesmente um processo de informação, de aquisição de conhecimento. Mas este pensamento não reflete a realidade da vida, tal como vivida.
De fato, sabemos que os piores males da humanidade – as guerras, a escravidão, a exploração econômica da humanidade, a grande corrupção governamental, as grandes organizações criminosas – tudo isso é realizado, em seu núcleo, por pessoas muito cultas, muito bem informadas. Na verdade, o próprio Diabo é um intelecto majestoso, muito mais informado e muito mais inteligente do que qualquer ser humano, ou qualquer criatura, pode chegar a ser. Mas tem uma vontade torta, como todos os seres humanos que se envolvem nas atividades mencionadas. Parece, pois, que nem sempre o desvio moral decorre de uma falta de conhecimento. Eis o que vamos debater agora.
Será que a felicidade pode ser conquistada por quem tem uma inteligência muito bem formada, uma cultura imensa, muita ciência, muito saber, mas não tem uma vontade reta? É este o debate que iniciamos aqui.
- A hipótese inicial.
A hipótese inicial vai nos chamar ao debate ao propor que, de fato, o que importa para ser feliz não é ter uma vontade reta, ou melhor, a felicidade não envolve uma retidão de vontade. Há três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que a plenitude do ser humano é algo que envolve sua dimensão intelectiva, que é justamente aquilo que o diferencia das outras criaturas. Ora, nosso intelecto não depende de retidão moral, de retidão da vontade, para funcionar bem. Na verdade, o próprio Santo Agostinho já intuía isso, quando se corrigiu dizendo: “reprovo o que eu próprio disse naquela oração que fiz, nos seguintes termos: Deus, quiseste que só os puros conhecessem a verdade. De fato, podemos constatar que muitas pessoas que não são puras são capazes de conhecer muitas verdades”. Portanto, a felicidade independe de retidão da vontade, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O que vem antes, diz o argumento, não pode depender daquilo que vem depois. Ora, o ato de nossa inteligência precede ao ato da nossa vontade, porque não se pode amar senão aquilo que se conhece. Logo, o aperfeiçoamento do intelecto, que leva à felicidade, não depende de uma vontade moralmente reta, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Se alguma coisa é necessária para atingir um objetivo, ela se torna desnecessária após aquele objetivo ter sido atingido. Assim, por exemplo, preciso de um navio para atravessar o mar, mas quando chego no porto de destino já não preciso de navios. ora, prossegue o argumento, a retidão da vontade se mede justamente porque a vontade reta se ordena ao fim, que é a felicidade. Mas quando se alcança a felicidade, a vontade reta já não é necessária, porque já não há algo a alcançar. Portanto, a retidão da vontade não é um elemento da própria felicidade, mas apenas um meio para alcançá-la, conclui o argumento.
- O argumento contrário.
Como argumento contrário à hipótese inicial, existem algumas citações bíblicas relevantes; por exemplo, Mateus 5, 8: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus”. Ou ainda Hebreus 12, 14: “Procurai a paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor”. Portanto, diz este argumento, a retidão de coração, que é a santidade, é parte da felicidade e a constitui, e portanto não se pode aceitar a hipótese inicial, conclui.
- Encerrando por enquanto.
Será que alguém pode ser de fato feliz apenas por ter um intelecto muito bem informado, mas tendo uma vontade desorientada? Será que alguém pode ser feliz sem ser, ao mesmo tempo, santo e puro de coração? Eis o que está em jogo neste debate. A ideia de que a liberdade, entendida como ampla possibilidade indiferente de escolher entre o bem ou o mal, representa a própria felicidade, e que, portanto, os santos e os amigos de Deus seriam menos livres, e por esta razão menos felizes, é justamente resultado desta visão. Mas estamos nos adiantando. No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás sobre este importante assunto.
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