1. Retomando para concluir.

A visão que Tomás tem da ética é radicalmente diversa da nossa. Tomás pressupõe que todos querem ser felizes, honestamente, e que essa felicidade só pode estar na plenitude do ser humano. A plenitude do ser humano está em Deus, só pode ser alcançada pela graça, entrando numa relação pessoal com ele. A ética seria, assim, a parte do ser humano nessa busca: o que posso fazer, como posso agir, para ser feliz?

Mas antes de saber como posso agir, Tomás quer identificar com muita clareza o que é a felicidade. Neste momento, o debate é: a felicidade é um simples conhecimento de Deus e uma tendência a ele, ou envolve também uma relação existencial de interpenetração com ele, que chamamos de “compreensão”? A tese inicial era a de que não existe nenhuma compreensão possível, quando se trata da relação do ser humano com Deus. Mas já vimos, no último texto, que essa compreensão, esse tocar e deixar-se tocar por Deus, é um elemento da nossa felicidade.

Agora, Tomás vai revisitar os argumentos objetores iniciais, com estes princípios, para responder adequadamente a eles. 

  1. Os argumentos iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor. 

O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que nos ensina: “alcançar a Deus com a mente é grande felicidade, porém é impossível compreender”. Logo, a felicidade não envolve a compreensão, diz o argumento, apressadamente. 

A resposta de Tomás.

Tomás faz, aqui, uma de suas famosas distinções. De fato, diz ele, a noção de “compreensão” tem mais de um sentido. Num sentido mais forte, ela representa aquela incorporação daquilo que é compreendido naquilo que compreende. Podemos dizer assim: o Brasil compreende 26 Estados-Membro e o Distrito Federal, no sentido de que eles estão inteiramente incorporados ao Brasil. Assim, neste primeiro sentido, a noção de “compreensão” envolve um certo domínio, uma absorção que é incabível na relação do ser humano com Deus. Deus não se deixa dominar, não se deixa incorporar, não pode ser objeto de delimitação e domínio por nenhuma criatura. Mas há um outro sentido para compreensão, que é aquele da interpenetração existencial que ocorre entre seres que se relacionam no amor – que é o de estar presente, estar disponível para o outro. Assim, posso dizer que um esposo deve compreender a esposa e vice-versa, no sentido de que devem estar próximos um do outro, procurar o entendimento, a amizade, o fortalecimento da relação na concórdia e na confiança. Não há uma relação de amor teorética, platônica, que possa conduzir à felicidade – somente a interpenetração, a presença recíproca, a compreensão existencial, pode trazer felicidade. É neste último sentido que a noção de compreensão se aplica à nossa relação com Deus e está envolvida em nossa felicidade. 

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento diz que a felicidade é algo que implica o aperfeiçoamento do ser humano naquilo que ele tem de mais propriamente humano, isto é, na sua inteligência – capacidade de conhecer a verdade – e na sua vontade – capacidade de buscar o bem. Ora, Deus é a verdade plena e o bem universal, e isto é suficiente para saciar o ser humano. Portanto, segundo o argumento, é desnecessário falar de algum outro elemento como a compreensão, quanto à felicidade humana. Assim, a felicidade plena não envolve a compreensão, diz o argumento. 

A resposta de Tomás.

O ser humano, pela sua vontade, é capaz de amar, e de se inclinar e esperar aquilo que ama. A vontade humana, portanto, é o lugar do amor e da esperança; mas ela também é o lugar da presença da pessoa amada, que sacia e aquieta o coração. A vontade, por fim, é o lugar da alegria e do prazer que decorrem da existência completada pela presença do amado. Neste sentido, a felicidade implica a passagem da esperança, que pressupõe um estado ainda de busca pelo amado, para a compreensão e o júbilo que decorrem da presença do amado ao amante. Deste modo, a compreensão, entendida como a interpenetração e o júbilo do amor, é parte da felicidade. 

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que a felicidade não é uma simples condição estática, mas é uma dinâmica – uma operação humana estável, permanente e completa. Ora, diz o argumento, as operações se identificam por seu objeto. Mas as operações mais propriamente humanas são o conhecimento, cujo objeto é a verdade e cuja operação é a visão, e a busca e encontro do bem, cujo objeto são a esperança pelo bem buscado e o júbilo pelo bem presente. Assim, não precisamos imaginar que exista um terceiro elemento, a compreensão, já que esses dois elementos – a verdade e o bem universais – já tornam plena toda a dinâmica, toda a operação perfeita dos seres humanos. Portanto, não há algo como a compreensão que seja um elemento necessário da felicidade, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás

A compreensão não é uma operação diferente da visão da verdade e do repouso no bem. Trata-se dessas mesmas realidades vistas a partir da perspectiva existencial, isto é, a relação de amor, de amizade, com Aquele que é toda a verdade e todo o bem é algo a ser vivido, a ser gozado com essa interpenetração de aceitação e companheirismo recíproco que chamamos de compreensão. 

  1. Concluindo.

Tomás é tudo, menos um intelectual frio e um racionalista impessoal. Ele não proclama suficiente o conhecimento distante e teórico de Deus, nem mesmo a vontade de ser salvo como uma “entrada” para um “clube de felizardos” que viverá eternamente numa espécie de hotel de luxo no céu. Ele está consciente de que a felicidade que o ser humano procura (e procura naturalmente, independentemente da moção da graça) está apenas numa relação existencial com Deus, de amizade e confiança recíprocos, a ser vivida de coração para coração. Sem a percepção desse desejo e sem a perspectiva dessa relação a ética não pode ser um movimento interno de busca pelo bem. Veremos mais sobre isto ao longo de toda esta parte da Suma.