1. Retomando.

Vimos, no texto anterior, o debate sobre a importância da compreensão na felicidade plena do ser humano. Será que a compreensão é parte da relação com deus que nos faz plenamente felizes?

A hipótese inicial, ali, é de que a felicidade não envolve a dimensão da compreensão, na relação com Deus. O primeiro argumento que tenta comprovar esta hipótese cita Agostinho, que afirma cabalmente que, embora possamos adquirir alguma inteligência de Deus, compreendê-lo é impossível. O segundo argumento lembra que o ser humano se caracteriza, se distingue dos outros seres, por sua inteligência e sua vontade. Logo, se a felicidade humana é a plenitude da humanização, então deve ser inteligibilidade plena e bem completo, não sendo necessário pleitear a existência de outras realidades, como a compreensão, para caracterizar a felicidade. Por fim, o terceiro argumento lembra que a felicidade não é algo estático, mas uma atividade contínua e ininterrupta, completamente suficiente para satisfazer o ser humano em todos os sentidos. Ora, o ser humano se satisfaz em todos os sentidos pela posse da verdade universal e do bem completo, e a compreensão não é necessária para isso. Por fim, o argumento contrário à hipótese inicial lembra que o próprio São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios (9, 24), manda que corramos de tal modo a conquistar o prêmio, e em 2 Timóteo 4, 7, fala de uma coroa conquistada por quem combate o bom combate e guarda a fé. Ora, tudo aponta, então, para um prêmio a ser obtido e retido, como elementos da felicidade. Ela guarda, então, marcas de algo a ser abarcado, retido, para ser plena.

Chegamos, neste ponto, à resposta sintetizadora de Tomás. 

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Para entender a estrutura da felicidade humana, que é a própria estrutura da plenitude do ser humano, Tomás nos propõe uma pequena aula de psicologia.

De fato, somente seremos plenos se a nossa meta, o nosso fim, for algo razoável para a nossa inteligência e, ao mesmo tempo, for algo desejável para a nossa vontade. Mas é claro que esse fim deve efetivamente ser atingido, não pode ficar no campo das teorias. Portanto, há, aqui, uma estrutura tríplice para a plenificação humana:

  1. Uma percepção da razoabilidade da meta, de sua inteligibilidade, que podemos vislumbrar com a nossa mente.
  2. Uma inclinação consciente para ela e
  3. o estabelecimento de uma relação existencial com ela.

A busca pelo fim, portanto, tem uma dimensão de discernimento intelectual. Deve ser refletida, deve fazer sentido, deve poder ser, de algum modo, razoável para a inteligência humana. É preciso ter um conhecimento inicial dessa meta final. Nesta vida, dependemos da , que nos permite vislumbrar, ainda que de modo incompleto e obscuro, qual é a nossa meta, qual o objetivo da nossa plenitude. 

Quanto à nossa vontade, ela precisa ser capaz de se inclinar amorosamente para o fim que a inteligência discerniu como bom. Não se trata de uma relação automática: sabemos que o ser humano é capaz de se fechar ao amor, de recusar aquilo que ele próprio percebe intelectualmente como bom. É neste sentido que uma boa vontade, isto é, uma vontade capaz de realmente se deixar inclinar pelo bem discernido, é essencial para a felicidade.

Por fim, é preciso estabelecer uma verdadeira relação de presença com aquilo que é reconhecido como fim e que move a nossa vontade. Não adianta simplesmente reconhecer intelectualmente que algo é verdadeiramente bom, nem se deixar inclinar a ela. É preciso, de fato, relacionar-se existencialmente com essa realidade, para ser pleno e feliz. E essa relação pode se desenvolver de três modos:

  1. Essa realidade buscada, coisa ou pessoa, que reconhecemos intelectualmente como fim da nossa busca e que amamos em nossa vontade pode já estar plenamente presente a nós. neste caso, não há mais nenhuma busca, porque o fim já está presente.
  2. Essa coisa ou pessoa pode estar inacessível, sem que haja a menor pista sobre o caminho ou o meio de alcançá-la. Neste caso, não há nenhuma esperança de alcançá-la, e portanto não há nenhuma busca, porque o fim é percebido como irremediavelmente ausente e inalcançável.
  3. Aquilo que discernimos como nosso fim último e que inclina nossa vontade pode não estar presente ainda, e pode mesmo estar acima das nossas possibilidades de alcance por nossas próprias forças. Mas pode ser percebido como sendo alcançável, e portanto pode estar no âmbito de nossa esperança. Neste caso, podemos buscar o fim e lutar por ele. 

Portanto, conclui Tomás, podemos discernir, na nossa relação com a felicidade plena, essas três dimensões:

  1. Intelectualmente, o caminho desde o conhecimento imperfeito até o conhecimento existencial, presencial, em que vemos como somos vistos (1 Coríntios 13, 12: agora vemos em parte, como num espelho, de modo confuso; mas então veremos face a face). É a dimensão existencial da posse intelectual da verdade universal, na plenitude.
  2. Do ponto de vista volitivo, o caminho vai da esperança que move a vontade para o bem até a posse plena do amado, na glória, quando a esperança se transforma em realização.
  3. Por fim, presente o amado, temos a dimensão da realização plena do amor, que implica essa compreensão recíproca: eu estou no amor, o amor está em mim. 

A felicidade, portanto, consiste nesta experiência existencial que vai desta primeira intuição de fé – um aperfeiçoamento do intelecto – passa pela inclinação da vontade e se consuma na presença e no estabelecimento da relação plena com o amor, quando estaremos em Deus e ele estará em nós – eis a compreensão. Ou, nas palavras lindas de São Paulo (1Cor 13, 13): Por ora subsistem a fé, a esperança e o amor – as três. Porém, a maior delas é o amor.

3. Encerrando por enquanto. 

A palavra compreensão tem mais de um sentido – inclusive o sentido de domínio despótico daquele que encerra o outro como objeto dentro de si. Não é disso que estamos falando. É exatamente no sentido de entendimento recíproco, de conhecimento confiante, que ela nos interessa como parte inseparável da felicidade que somente é possível na relação amorosa com Deus. Mas veremos mais sobre isto no próximo texto.