Introdução.
Eis mais um daqueles debates que parecem muito técnicos, muito distantes da realidade, mas na verdade são fundamentais, porque ajudam a clarear conceitos e entender posturas de vida, e serão fundamentais para fundamentar todo o pensamento ético e vivencial que se segue. De fato, para Tomás, a ética é a grande resposta à pergunta: “como devo viver para ser feliz”? E isto numa chave, como já vimos, inteiramente não-hedonista e não-utilitarista. Mas aqui o enfoque é outro: trata-se de entender a relação com Deus, que é nosso fim e a nossa felicidade, de um modo inteiramente não-gnóstico, por um lado, e não-possessivo e não dominador, por outro. Como chegar a ter uma relação com Deus, que não seja uma simples relação entre objeto de conhecimento e sujeito conhecedor, por um lado, e não seja, por outro, uma relação em que um dos pólos da relação domina o outro?
De fato, os dois riscos existem: tanto o de abordar Deus como um objeto de um conhecimento intelectual objetificante, teórico, científico, frio, distante, à moda dos gnósticos, por um lado, e, por outro, não estabelecer com ele uma relação de domínio, de controle, de possessão. No ponto central está o estabelecimento de uma verdadeira relação de amor com ele. E não há amor sem compreensão.
Mas estamos nos adiantando. Por ora o debate a ser estabelecido é: em que sentido podemos dizer que a felicidade envolve a compreensão de Deus? Vamos a ele.
A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial, proposta para iniciar e provocar o debate, é de que a felicidade não envolve a dimensão da compreensão, na relação com Deus. No sentido de que a relação com Deus não precisa envolver nosso conhecimento, alguma dimensão de apreensão intelectual de Deus. Há três argumentos que tentam comprovar esta hipótese inicial.
Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que, na sua Carta a Paulina sobre a visão de Deus, nos ensina que chegar até Deus com a mente é grande alegria, mas compreendê-lo é impossível. Logo, a felicidade não envolve a compreensão, diz o argumento, apressadamente.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento diz que a felicidade própria do ser humano envolve apenas sua inteligência e sua vontade, e não envolve outras capacidades humanas, como os sentidos e a sensibilidade emocional. Ora, prossegue o argumento, a inteligência anseia pela verdade plena e universal, e a vontade busca o bem universal e completo. Tudo isso fica satisfeito pela relação de amor estabelecida quando se chega à visão de Deus. Portanto, é desnecessário falar de algum outro elemento como a compreensão, quanto à felicidade humana. Assim, a felicidade plena não envolve a compreensão, diz o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento começa lembrando que a felicidade não é simplesmente um estado, mas é uma dinâmica, uma operação, uma atividade humana. Ora, diz o argumento, o que determina o conteúdo de uma atividade humana é seu objeto, e os objetos mais amplos e completos que podem plenificar o ser humano são dois: a verdade, que plenifica seu intelecto, e o bem, que plenifica sua vontade. Assim, não precisamos imaginar que exista um terceiro elemento, a compreensão, já que esses dois elementos – a verdade e o bem universais – já plenificam toda a dinâmica, toda a operação perfeita dos seres humanos. Portanto, não há algo como a compreensão que seja um elemento necessário da felicidade, conclui o argumento.
O argumento contrário à hipótese inicial.
Numa passagem muito significativa da Primeira Carta aos Coríntios (9, 24), São Paulo descreve assim a plenificação humana: “Nas corridas de um estádio, todos correm, mas bem sabeis que um só recebe o prêmio. Correi, pois, de tal maneira que o consigais”. Assim, a felicidade não envolve apenas chegar a conhecer toda a verdade ou a desejar todo o bem, mas envolve um esforço para alcançar e conquistar a relação existencial com Deus. Em outras palavras, a felicidade envolve a compreensão de Deus, no sentido de compreendê-lo como um amigo compreende outro amigo, ou um amante compreende outro amante. Portanto, a compreensão é elemento essencial da felicidade, afirma este argumento.
- Encerrando por enquanto.
Não se pode enfatizar mais quão contemporâneo é este debate. Será que a felicidade, que é o repouso na santidade pelo desfrute do amor de Deus, envolve algum tipo de proximidade intelectual com Deus? Ou é apenas algo teorético, ou, pior ainda, algo simplesmente afetivo e voluntarioso? Veremos mais sobre isto no próximo texto.
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