- Retomando para concluir.
Como vimos no texto anterior, a felicidade decorre da santidade, que permite a visão pessoal de Deus, isto é, estabelece com ele uma relação de presença pessoal eterna e infindável. É impossível que essa relação não seja a fonta do gozo mais extraordinário, do prazer mais intenso, do deleite mais perfeito. Mas esse prazer não é, de modo nenhum, o objetivo, aqui. Essa clareza, do discernimento quanto ao objetivo final de nossa vida, é essencial para atingir a própria felicidade. Quem busca o prazer como fim, como essência da felicidade, está condenado a ser inevitavelmente infeliz. Portanto, é falsa a hipótese inicial de que o prazer, a alegria a ser gozada na felicidade, é mais importante do que a própria visão de Deus.
De posse destes princípios, vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais para estudar as respostas de Tomás a eles.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
Para Aristóteles, diz o argumento, ninguém pode dizer que alguma situação é plena, ou perfeita, a menos que possa desfrutar dessa situação. Não posso dizer, por exemplo, que tenho um carro se não puder passear com ele. Não posso dizer que tenho um amigo se não tenho nenhum momento de convivência com ele. Assim, é o prazer da amizade com Deus, e não a própria presença de Deus, que é o elemento mais importante da felicidade, conclui impensadamente este argumento.
A resposta de Tomás.
Na verdade, diz Tomás, Aristóteles não está dizendo que o desfrute é algo que está separado daquilo de que se desfruta, como se, por exemplo, o prazer de comer fosse algo distinto do próprio ato de comer. O prazer relacionado a alguma atividade é inseparável da atividade mesma; isto parece muito claro em algumas posições morais da Igreja com relação ao prazer relacionado, por exemplo, ao sexo, que tende a ser separado, pelo nosso mundo contemporâneo, do próprio sentido da atividade sexual como algo intrinsecamente ligado ao sacramento do matrimônio e indissoluvelmente vinculado aos fins da união e da procriação. A Igreja sempre nos lembra que o prazer de uma atividade não se desvincula da própria atividade em seu sentido inteligível, como o gozo da santidade não se desvincula da relação de amizade pessoal com Deus, mas é um elemento dessa amizade mesma.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que nada é mais atraente para nós do que o desfrute do prazer daquilo que desejamos; por isso a natureza torna tão cheias de prazer as atividades mais essenciais da vida humana: comer, para a sobrevivência pessoal, e o sexo, para a sobrevivência da espécie. Assim, de modo análogo a alegria e o júbilo gozoso, na eternidade, têm prioridade sobre a própria visão de Deus na felicidade eterna, conclui o argumento, de maneira irrefletida.
A resposta de Tomás.
O prazer de algum ato concreto é um bem, mas é um bem particular, de modo que nunca é a coisa mais importante naquele ato. A sua inteligibilidade intrínseca é muito mais importante do que o prazer particular associado. Os animais movem-se apenas pelo bem particular, de tal modo que um animal realiza as atividades como alimentação e cruza apenas por causa do bem sensorial envolvido. Nós, seres humanos, porém, somos capazes de entender o caráter abstrato do bem envolvido em alguma atividade, de modo reflexivo, e podemos praticá-la porque sabemos que ela é boa, muito além do próprio prazer envolvido. Assim, um ser humano pode fazer jejum por motivos médicos ou religiosos, mesmo tendo uma inclinação sensorial enorme para a alimentação, ou pode forçar-se a se alimentar, mesmo sem sentir prazer em determinado alimento, apenas porque entende que aquilo é bom para sua saúde. Assim, o bem sensível do prazer está sempre subordinado ao bem inteligível da atividade, e não o contrário. Deste modo, a amizade com Deus é mais profunda, mais inteligível, mais completa e mais importante do que o prazer que disso possa resultar.
O terceiro argumento objetor.
A nossa fé será respondida, na felicidade eterna, pela visão de Deus face a face (1 Coríntios 13, 12), mas o desfrute, o gozo da amizade com Deus, de sua presença face a face, será a resposta ao amor agápico que tradicionalmente é chamado de virtude infusa da caridade. Isto é, acreditamos em Deus por nossa fé, mas saboreamos sua presença pelo amor infuso de caridade em nós, já que, quando chegarmos à presença de Deus, a fé já não será necessária, mas o amor será pleno..
É São Paulo que nos diz (1 Coríntios 13, 13) que o amor é maior do que a fé, e portanto mais essencial do que essa (1 Coríntios 13, 1-13). Assim, o desfrute da alegria da visão é um elemento mais importante, na felicidade eterna, do que a própria visão de Deus, conclui este argumento.
A resposta de tomás.
O amor não nos leva a desejar a pessoa amada por causa do prazer que ela nos causa e do qual desfrutamos, embora este seja importantíssimo. O amor nos leva até o amado por causa do próprio amado, cuja presença desejamos, e o desfrute é apenas uma consequência de sua presença. Deste modo, é a presença de Deus para nós que nos dá a felicidade em primeiro lugar, e não o desfrute dessa presença..
3. Concluindo.
Deus é a felicidade, e a relação com ele é nosso fim. O prazer que decorre daí é importantíssimo, mas é consequência, não é um objetivo direto. É essencial hierarquizar nossa vida com base nesse princípio.
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