1. Retomando.

Vimos, no texto anterior, a hipótese inicial de que, para a felicidade, seriam mais importantes a alegria e o gozo do prazer a ela inerentes do que a própria visão de Deus que geram em nós esse prazer. Vimos os três primeiros argumentos que tentam comprovar esta hipótese. O primeiro argumento lembra que o próprio Aristóteles ensina que nada é realmente possuído se não puder ser desfrutado, logo o desfrute do prazer, para este argumento, é mais importante do que a própria visão de Deus. O segundo argumento afirma que aquilo que torna uma atividade prazerosa é o que nos faz buscar essa atividade, como o prazer de comer garante nossa sobrevivência pessoal e o prazer sexual garante a sobrevivência da espécie. Assim, é a busca do prazer pleno que nos move a procurar relações com Deus, e portanto esse prazer seria mais fundamental do que a própria visão, conclui o argumento. O terceiro argumento lembra que a alegria, o prazer de estar com Deus decorre do amor como virtude, já que a fé já não será necessária nesse momento. Mas o amor é mais essencial do que a fé, diz a primeira Carta aos Coríntios, 13, 13. Logo, o prazer do amor é mais importante do que a própria visão de Deus, diz o argumento. Em seguida vimos o argumento objetor, que se opor à hipótese inicial sob o fundamento de que o prazer da felicidade é consequência da visão de Deus; mas a consequência, que é efeito, não pode ser mais fundamental do que a própria causa, que é a visão de Deus que os Santos alcançam pela amizade que estabelecem com Ele. 

Estabelecidos assim os elementos do debate, examinaremos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás inicia lembrando que a obra de Aristóteles suscita a questão da felicidade e a relação entre a posse daquilo que nos faz felizes, por um lado, e o deleite que acompanha essa posse, por outro, mas não chega a equacionar o problema de prioridade entre os dois. O que talvez demonstre o limite do pensamento aristotélico frente a toda reflexão cristã que surgirá séculos depois. De fato, a partir da perspectiva cristã, temos os elementos necessários para determinar que, de fato, a relação com Deus, que culmina em visão beatífica, é mais fundamental na nossa felicidade do que o prazer que essa relação causa em nós. Esta ordenação de prioridades é essencial para a felicidade, porque nos ensina aquilo que deve ser buscado em primeiro lugar: o reino de Deus (Mt 6, 33). Todo resto nós será acrescentado, promete o Senhor.

E isto faz sentido, tem razão, pode ser compreendido por nós. E é um ensinamento que pode e deve ser resgatado em nossa contemporaneidade. De fato, a nossa vontade busca fundamentalmente o bem. Alcançando-o, chegamos a aquietar o coração para gozá-lo. Sem estar na posse do bem, não há o desfrute. Assim, por exemplo, buscamos ouvir uma boa música porque gostamos de desfrutá-la. Se houvesse, por exemplo, uma pílula mágica que nos prometesse entrar num estado de prazer similar àquele que a música proporciona, mas nos tornasse simultaneamente insensíveis a qualquer música, certamente não a tomaríamos. 

Hoje em dia, buscamos mais o prazer, a gratificação, do que o bem que nos satisfaz. Mas isso é a receita para viver insatisfeito e nunca alcançar a verdadeira felicidade. Drogas, redes sociais, compulsões e consumismo estão nos afastando da busca árdua pelo bem, que é a única forma de ser feliz. Ordenar a vontade significa dirigi-la para a busca daquilo que a inteligência identifica como verdadeiro bem, e não a gratificação pelo prazer que o acompanha. Ou seja, na felicidade plena, é a presença de Deus, sua amizade, seu amor, que deve ter a primazia, e não o desfrute do prazer. A salvação não é um passe para um clube de prazeres eternos, mas é uma pessoa a quem se deve amar, porque nos ama primeiro: o Senhor.

3. Encerrando por enquanto. 

A felicidade envolve o gozo. Mas a busca não é pelo gozo, mas por Deus. Neste sentido, o gozo, o prazer,  a alegria da felicidade é aquilo que os antigos chamavam de intentio oblíqua, quer dizer, algo que não se busca diretamente,  mas apenas como consequência do bem que se deve alcançar. Veremos, no próximo texto, a partir destes princípios,  as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.