- Introdução.
Aqui, mais uma vez, tem-se a necessidade de tornar muito clara a diferença da visão tomista sobre o prazer, a alegria, a felicidade e a visão de Deus. Por um lado, temos visões filosóficas como aquelas de cunho kantiano, que desconfiam de toda alegria, de todo prazer como resultado da vida reta em Deus. Para os kantianos, não devemos agir de modo nenhum movidos por qualquer busca de alegria ou deleitação na felicidade. Ao contrário, a verdadeira virtude seria agir movido pelo senso racional de dever, especialmente contra as inclinações sensíveis ou a busca de alegria ou de felicidade; cumprir o dever por dever apenas, e o próprio Deus, existente ou imaginado, nos recompensaria, na vida eterna, com prazeres e alegrias. Assim, o objetivo da ética, em Kant, é cumprir o dever pelo dever, e o resultado, na vida eterna, não é estabelecer amizade com Deus e chegar a vê-lo face a face, mas ser remunerado por ele com prazeres e alegrias. Isto não poderia estar mais longe da visão tomista: Deus não é um “remunerador” de quem agiu eticamente bem, mas o encontro com ele é é o próprio objetivo de nossa vida. Não se trata de encontrar com Deus para que ele nos premie com alegrias e prazeres, mas vê-lo para desfrutar da sua amizade e sua presença: querê-lo por ele mesmo.
Mas por outro lado há quem aponte que o objetivo da vida é o prazer, e portanto a nossa conduta seria fundamentada não numa busca pela amizade de Deus, não numa busca pelo próprio Deus, mas na busca pelo prazer e fuga da dor. os utilitaristas ou consequencialistas, que defendem isso, não poderiam também estar mais longe de Tomás.
Já sabemos que a alegria que acompanha a felicidade não é o nosso objetivo – o nosso objetivo é a amizade pessoal com Deus, vendo-o presencialmente. Mas a alegria é indissociável dessa visão. Mas agora debateremos o seguinte: o que é mais importante para nós, a própria visão de Deus ou a alegria que está associada inseparavelmente a ela? Vamos ao debate.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial nos propõe que o prazer, a alegria a ser gozada na felicidade, é mais importante do que a própria visão de Deus. Assim, o objetivo final, a plenitude da vida humana, estaria muito mais no prazer a ser gozado em razão da relação de presença e amizade com Deus do que propriamente nessa presença mesma. Há três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor quer provar a hipótese inicial a partir de uma citação de Aristóteles. Para Aristóteles, o que marca a perfeição, a plenitude de uma operação, é seu desfrute. Vale dizer, não posso dizer que alguma situação é plena, ou perfeita, a menos que eu possa desfrutar, aproveitar-me, gozar dessa situação. Não posso dizer, por exemplo, que tenho um carro se não puder passear com ele. Não posso dizer que tenho um amigo se não tenho nenhum momento de convivência com ele. Assim, é o prazer da amizade com Deus, e não a própria presença de Deus, que é o elemento mais importante da felicidade, conclui impensadamente este argumento.
O segundo argumento objetor.
Segundo este argumento, aquilo que torna uma coisa mais atraente para nós deve ser, sem dúvida, sua parte mais atraente. Ora, nada é mais atraente para nós do que o desfrute do prazer daquilo que desejamos; por isso a natureza torna tão cheias de prazer as atividades mais essenciais da vida humana: comer, para a sobrevivência pessoal, e o sexo, para a sobrevivência da espécie. Se não fossem tão cheias de prazer, certamente essas atividades seriam negligenciadas, com grande risco para nós e para a espécie humana. Assim, de modo análogo a alegria e o júbilo gozoso, na eternidade, têm prioridade sobre a própria visão de Deus na felicidade eterna, conclui o argumento, de maneira irrefletida.
O terceiro argumento objetor.
A nossa fé será respondida, na felicidade eterna, pela visão de Deus face a face (1 Coríntios 13, 12), mas o desfrute, o gozo da amizade com Deus, de sua presença face a face, será a resposta ao amor agápico que tradicionalmente é chamado de virtude infusa da caridade. Mas São Paulo nos diz (1 Coríntios 13, 13) que o amor é maior do que a fé, e portanto mais essencial do que esta (1 Coríntios 13, 1-13). Assim, o desfrute da alegria da visão é um elemento mais importante, na felicidade eterna, do que a própria visão de Deus, conclui este argumento.
- O argumento contrário à hipótese inicial.
Depois de examinarmos os três argumentos que tentavam comprovar a hipótese inicial, passamos a examinar o argumento que se opõe a ela, conhecido como argumento sed contra. Esse argumento começa afirmando que as causas sempre têm mais importância do que os efeitos, já que, eliminadas as causas, os efeitos também desaparecem. Ora, prossegue o argumento, a alegria, o desfrute do gozo eterno pela visão de Deus, é um efeito cuja causa é a própria visão de Deus, concedida aos santos. Então, a visão de Deus face a face, que é causa da nossa alegria, é mais fundamental do que a própria alegria que decorre dela, conclui este argumento.
- Concluindo.
Somos livres, por sermos filhos de Deus. Podemos sentir, de modo ordenado e adequado, todo tipo de alegria e prazer. Mas atenção: nada é mais importante do que o próprio Deus. Nem seus dons, nem a alegria eterna dos santos, nada pode ser mais importante do que o próprio Deus. Veremos mais sobre isto no próximo texto.
Deixe um comentário