1. Retomando para concluir.

O prazer é parte inseparável da felicidade. A felicidade não é um caminho para o prazer, como se este último fosse a meta final e a felicidade fosse apenas um meio para sentir prazer. Tampouco podemos dizer que a felicidade é o próprio prazer. Não. A felicidade consiste na relação com Deus, face a face, de tal modo a desfrutar de todo o bem e de toda a verdade que está em Deus, e que é Deus. Mas não há como separar isso do fato de que contemplar todo o bem e toda a verdade é algo profundamente feliz, profundamente alegre. De alegria espiritual, de gozo completo – que não exclui, na ressurreição, o corpo. A alegria é parte inseparável da felicidade e por isso a acompanha necessariamente. 

Munidos destes princípios, que vimos no último texto, vamos revisar agora os argumentos objetores iniciais,que tentavam comprovar a tese de que a felicidade não envolve necessariamente o prazer – que, como sabemos, está equivocada – para estudar as belas respostas de Tomás.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que o próprio Santo Agostinho nos ensina que a recompensa da fé é a visão de eus em plenitude. Ora, se isso fosse algo que nos trouxesse prazer,então não estaríamos buscando Deus por ele mesmo, mas pelo prazer que isso nos proporciona, e portanto seríamos egoístas e manipuladores de Deus. Ocorre que a fé é uma virtude, como sabemos, e a recompensa da virtude é a felicidade, como ensina Aristóteles na Ética a Nicômaco. Logo, a felicidade não envolve o prazer, mas a visão de Deus que basta para nos fazer felizes, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Aquele que for bem-aventurado, por graça de Deus, e alcançar a plena visão de Deus, terá seu prêmio na própria visão de Deus. ocorre que esta visão sacia todo desejo, toda aspiração, toda inclinação, toda vontade, e finalmente faz o coração repousar. Não pode haver nada fora dessa plenitude, e é claro que o coração assim plenificado e satisfeito não pode senão sentir-se alegre e satisfeito, desfrutando de seu prêmio. Logo, a alegria, o deleite, não são consequência da visão de Deus, mas são aquilo que essa própria visão provoca em nós. Portanto, o prazer está incluído na felicidade como um elemento inseparável dela, não como consequência.

O segundo argumento objetor.

A felicidade basta. Ela é, por definição, suficiente e completa, ou então já não é propriamente a felicidade no sentido próprio, senão algum tipo de antecipação parcial e incompleta que se vive provisoriamente. Ora, se ela precisasse ainda ser completada por algum tipo de prazer, gozo e deleite, ela não seria completa e suficiente em si mesma. Uma vez que ela consiste na relação de amizade de Deus, na visão mesma de Deus, que basta, o prazer não está necessariamente envolvido nela, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Mais uma vez, Tomás explica que o prazer, a alegria na contemplação de Deus, em vê-lo face a face, não é uma consequência da felicidade, mas é algo intrínseco a ela mesma, isto é, não há como estar na presença de Deus e não sentir a mais plena alegria e prazer. 

O terceiro argumento objetor. 

A felicidade é um estado permanente de plenitude do corpo e da alma, e pressupõe a perfeita satisfação da mente na contemplação da verdade e do bem. Ora, os prazeres mais intensos nos desconcentram e muitas vezes até impedem o bom funcionamento da mente, porque turvam a razão. Logo, os prazeres são incompatíveis com a contemplação estável e ininterrupta da felicidade. Assim, a felicidade não envolve os prazeres, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Não é verdade que o prazer sempre embota a mente e os sentidos. Ao contrário, aquelas atividades que fazemos com prazer são sempre feitas com maior atenção e perseverança. De fato, a vida virtuosa deve incluir o prazer no exercício da virtude, como nos ensina o próprio Aristóteles na obra Ética a Nicômaco. De fato, a verdadeira virtude envolve agir com prazer no que se faz, porque isso nos leva a agir ainda melhor. Portanto, o prazer que atrapalha, que interrompe, é aquele que não decorre da própria atividade virtuosa que se está praticando, mas de algum outro estímulo que distrai – por exemplo, um forte estímulo sensível pode turvar ou até impedir a atividade intelectual. Mas o prazer de que se fala aqui é aquele indelevelmente ligado ao próprio agir bem. 

  1. Concluindo.

Segundo Aristóteles, na sua Ética a Nicômaco, a nossa plenitude de desenvolvimento espiritual não pode ser separada da questão dos prazeres e das dores. De fato, os prazeres e as dores nos levam a agir, e nem sempre nos levam a agir bem. Podemos sentir prazer com coisas más e sentir dor com coisas boas. Está aí, segundo Aristóteles (citando Platão) a maior fonte de desencaminhamento das pessoas, quanto à felicidade. Quando os prazeres e as dores são buscados por si mesmos, e não como resultado inseparável do agir bem ou do agir mal, o ser humano se perde. “Por isso”, diz Aristóteles,  “deveríamos ser educados de uma determinada maneira desde a nossa juventude, como diz Platão, a fim de nos deleitarmos e de sofrermos com as coisas adequadas, que nos deveriam realmente causar deleite ou sofrimento, pois essa é a educação certa”. Que verdade simples! Como são perversos nossos prazeres que surgem da prática do mal, por uma mente não educada para o bem, ou nossas dores pela dificuldade de agir virtuosamente.