1. Retomando.

No último texto, vimos a hipótese problemática inicial de que a felicidade plena, a consumação do ser humano, não envolve o desfrute da alegria, do gozo, do prazer, nem como requisito, nem como elemento, nem como consequência. Vimos os três argumentos que tentam comprovar essa hipótese inicial, apresentando a felicidade como algo que se justifica em si mesmo, e portanto não pode ter envolvimento com algum tipo de prazer para nós. O primeiro argumento objetor cita Agostinho para afirmar que, segundo esse santo, a felicidade se consuma na visão de Deus, e é esta visão, e não algum tipo de prazer ou desfrute associado a ela, que é nossa recompensa. O segundo argumento diz que, se a felicidade é plena e suficiente, seria inadequado imaginar que ela precisaria ser acompanhada por qualquer tipo de deleite ou prazer, como se ela fosse apenas um meio para um gozo humano. o terceiro argumento diz que o prazer intenso, o desfrute deleitoso, é algo que nos toma e até impede nossa razão de funcionar adequadamente. Mas a nossa inteligência, para ser feliz, precisaria estar numa contemplação plena e ininterrupta do pleno bem e da plena verdade, sem que fosse atrapalhada ou impedida por algum tipo de deleite, já que a felicidade, para ser plena e definitiva, não pode sofrer esse tipo de impedimento. por fim, o argumento sed contra, opondo-se à hipótese inicial, cita o próprio Santo Agostinho para lembrar que a felicidade consiste em alegrar-se com a verdade, e a alegria é, sem dúvida, um prazer a ser desfrutado. 

Munidos com esses elementos favoráveis e desfavoráveis à hipótese inicial, examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

  1. A resposta sintetizadora da Tomás.

O que queremos dizer quando dizemos que uma coisa “implica” outra, ou tem relação com a outra de modo necessário? Tomás nos ensina que esta expressão pode ter quatro significados:

  1. Em primeiro lugar, uma coisa pode ter relação com a outra como pressuposto dela; assim, por exemplo, para que haja uma aula é preciso que haja um professor que tenha conhecimento do assunto.
  2. Em segundo lugar, podemos dizer que uma coisa implica outra como aperfeiçoamento: deste modo, diz Tomás, a alma existe como aperfeiçoamento do corpo, no sentido de que corpos inanimados existem – e portanto nem sempre um corpo tem uma alma – mas os corpos que são dotados de almas como sua forma essencial são mais perfeitos do que aqueles cuja forma é uma estrutura inanimada.
  3. Em terceiro lugar, como apoio ou complemento externo. Como a moldura embeleza o quadro, ou os amigos podem nos ajudar a terminar mais rapidamente um trabalho que poderíamos fazer sozinhos com mais dificuldade.
  4. Como um elemento que necessariamente acompanha outro, um fenômeno que está indelevelmente ligado a outro. Deste modo, o calor é intrínseco ao fogo, como molhar-se é algo que está intrinsecamente ligado ao fato de estar na chuva. 

Quando falamos, portanto, que a felicidade implica o gozo do prazer, da alegria, estamos falando em algo que se encaixa neste quarto modo de implicação: não é que a felicidade seja um meio para conseguir prazer – como se o prazer fosse uma consequência externa à felicidade. Na verdade, a alegria, o júbilo espiritual, é algo que é um elemento intrínseco à própria felicidade, faz parte dela de modo inseparável. Quem fala em felicidade, fala num estado de alma que envolve o júbilo, a alegria, não como mera consequência, mas como parte inseparável da própria felicidade. Aquele que alcança a felicidade alcança o júbilo e a alegria espiritual que são parte integrante dela, não como consequência, mas como um dos elementos que a compõem. 

3. Encerrando por enquanto.

Ser felizes. Somos livres para a felicidade, não para qualquer outra coisa que nos afaste dela. Mas a liberdade sempre inclui em si a possibilidade de repudiar, de desistir, de se afastar voluntariamente da felicidade. A liberdade só é livre quando inclui em si a possibilidade de falha e a felicidade só é feliz quando se chega a ela livremente. E a liberdade dos filhos de Deus, que é a única conducente à verdadeira felicidade, nos faz mais livres, mais donos de tudo, e principalmente mais alegres, mais abertos ao gozo e ao desfrute de tudo o que há de bom no mundo. Esse desfrute, no entanto, não pode nos desviar do centro da própria felicidade, que é a relação com Deus. Eis o cerne da ética: poderíamos definir a ética, então, como aquela educação para a liberdade dos filhos de Deus, que é a felicidade. O fato é que os filhos de Deus, livres como são, querem toda a alegria, todo o júbilo que existe neste mundo criatural, mas querem-nos de tal modo que não nos afaste da alegria plena que é Deus. 

Como ser livre, como ser dono de tudo, como ser aberto a todo desfrute, a todo prazer, sem perder o rumo do fim, do único fim que nos plenifica? E que está aberto a todos, ou, como diz o Papa Francisco, a “todos, todos, todos”? Eis o problema que esta primeira seção da segunda parte da Suma quer resolver. 

No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.