- Introdução.
Se buscássemos o bem por causa do prazer que ele nos dá, ou seja, se o fim último do ser humano, como querem os utilitaristas e os hedonistas, fosse o prazer, ou ao menos fugir da dor, não seríamos mais do que animais sofisticados. Mas existem aqueles que, de fato, movem-se pelo bem – inclusive pelo bem árduo, que só é alcançado enfrentando o mal com fortaleza. Pensemos nos pais de uma criança muito doente, ou numa religiosa que cuida de idosos abandonados. Eles buscam o bem, mas em meio a provações que não são, de nenhum modo, fontes de prazer.
Ocorre que a alegria que decorre da fortaleza – ou de qualquer virtude – é inevitavelmente acompanhada de prazer. Será que isso torna a virtude menos virtuosa? Não, porque não se trata de um prazer que surja como fim da ação, senão como consequência dela. Será que isso ocorre sempre? será que a resposta da virtude – inclusive das virtudes teologais – sempre implica, como consequência necessária, o prazer? E será que isso torna menos pura a busca da felicidade? Eis o debate que faremos nesta questão, e mais especificamente neste artigo. Vamos a ele.
- A hipótese provocadora inicial.
Para provocar o debate, o artigo propõe uma hipótese controvertida: parece que a felicidade plena do ser humano não envolve o prazer, não implica necessariamente uma situação deleitável para aquele que a alcança. E o artigo apresenta três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese inicial.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Para comprovar a hipótese inicial, o primeiro argumento cita Santo Agostinho, que na obra De Trinitate nos ensina que “a recompensa total da fé é a visão”. MAs sabemos que a fé é uma virtude, ou, mais precisamente, é uma virtude teologal, isto é, é um dom de Deus, que nos é infundido pela graça como consequência da graça santificante que nasce da vida sacramental.
Ora, sabemos que a felicidade é a recompensa total da virtude. Se a fé é uma virtude, e seu prêmio único e total é a visão de Deus, então a felicidade não envolve algum tipo de prazer ou deleite em si, conclui apressadamente este argumento.
O segundo argumento objetor.
A felicidade basta e se basta. Ela é aquilo pelo qual vivemos, nos movemos e existimos, e não existe em função de mais nada senão dela mesma. Ela tem que ser o fim, o objetivo supremo que se justifica por si mesma. Se ela fosse algo que conduzisse a outra coisa, então essa outra coisa é que seria o fim, e não ela. Como alguém toma um remédio para curar-se e não porque o remédio é um fim em si mesmo, ou ainda alguém busca ganhar dinheiro para comprar as coisas necessárias para a sobrevivência, e não para acumular dinheiro. Ora, se a essência da felicidade é a visão de Deus, é claro que a visão de Deus deve bastar para satisfazer o ser humano. Então a deleitação, o prazer, não se relaciona com a felicidade, porque, neste caso, quem busca a felicidade estaria buscando o prazer e não a simples visão plena e satisfatória de Deus. Logo, diz o argumento com um enfoque um tanto kantiano, o prazer não está relacionado de modo necessário com a felicidade.
O terceiro argumento objetor.
A nossa felicidade deve ser plena e permanente, e não pode sofrer interrupções nem ser impedida. Ela é uma operação de nosso ser, inclusive de nosso intelecto, que se plenifica pela visão de Deus. Mas o desfrute do prazer interrompe, muitas vezes, a ação da mente, o processo de intelecção, como sabem aqueles que já viveram um intenso prazer sexual, por exemplo. Ninguém conseguiria, digamos, resolver um complexo problema de trigonometria enquanto desfruta do prazer sexual. Ninguém poderia prosseguir numa contemplação plena e ininterrupta da verdade absoluta se estivesse se deliciando de prazer, simultaneamente. Logo, o desfrute do prazer não está envolvido na felicidade plena, conclui o argumento.
- O argumento contrário.
O argumento contrário à hipótese inicial vai nos lembrar aquela afirmação de Santo Agostinho nas suas Confissões, de que a felicidade é a alegria que provém da verdade. Ora, a alegria é um deleite, um prazer que sentimos e gozamos. Logo, conclui este argumento, a hipótese inicial está errada e a felicidade envolve, sim, o desfrute do prazer.
- Encerrando por enquanto.
A ideia de uma felicidade fechada em si, não sensível, que não envolve a alegria, parece, num primeiro momento, garantir a pureza de intenções e retidão ética – o bem buscado por si mesmo, não pela utilidade para algum desfrute posterior. Isto parece se opor a qualquer tipo de consequencialismo ou utilitarismo na busca por Deus e na ética, mas é um extremo que deve ser olhado com cuidado. Se o utilitarismo é um desvio, também o é uma ideia de dever, de obrigação, de submissão a Deus que independe da alegria. A alegria é parte inseparável da felicidade, não como consequência, mas como parte intrínseca. Veremos mais sobre isto no próximo texto.
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