Após identificar a felicidade plena do ser humano no encontro pessoal com Deus, vendo-o face a face, e o caminho dessa felicidade como o estabelecimento de uma amizade com Deus que deve começar ainda aqui, nesta vida, mas que só se consumar na vida eterna – o que determina que a felicidade humana, nesta Terra, embora efetiva e possível, é sempre limitada e em construção – Tomás passa a examinar quais são os elementos desta felicidade. e o primeiro elemento com o qual ele se depara é exatamente o gozo, o prazer, o deleite que está envolvido na felicidade.
Já neste elemento percebi as dificuldades da minha formação jurídica contemporânea. Nós, juristas da contemporaneidade, somos formados a partir da concepção kantiana de que, sempre que a ética envolve o prazer de qualquer modo, já não estamos mais no campo da moralidade, mas no campo do hedonismo. Para Kant, o dever é o centro da ética, e ela não deve envolver nenhum tipo de consequência, de satisfação ou de deleite que não seja simplesmente o próprio cumprimento do dever, por mais angustiante, desprovido de alegria, pesado ou desagradável que ele seja. Na verdade, cumprir o dever com desagrado, apenas pela convicção de que há um dever a ser cumprido, seria, para Kant, a forma mais consumada de agir ético. Qualquer busca da felicidade relacionada com a ética já seria um desvio hedonista, e portanto descaracterizaria o próprio valor ético do agir. Quem quer que se mova pela felicidade já não é um agente ético, mas um hedonista, em termos kantianos.
Mas as coisas não parecem ser assim para Tomás. De fato, o que move o agente a ser ético, em primeiro lugar, é a busca da felicidade. E o resultado da vida ética seria, justamente, o deleite, a alegria, consequência da plenitude do desenvolvimento humano – a santidade, que é uma relação de amizade eterna e completa com Deus.
Diante desse confronto, resolvi fazer uma experiência diferente; resolvi fazer um debate entre essas duas visões com o Gemini, que é a inteligência artificial do Google. Pedi licença ao próprio aplicativo para compartilhar a conversa aqui no blog. Ei-la.
Pergunto ao Gemini:
essa visão tomista é bem diferente da kantiana, sem ser hedonista. Você não acha que Kant confunde o deleite da felicidade, que é uma consequência não diretamente visada pelo ser humano senão como efeito da relação com Deus (intentio obliqua), com a busca do prazer pelos hedonistas?
Resposta do Gemini:
Essa é uma observação muito perspicaz e toca em um ponto central de contraste entre as éticas de São Tomás de Aquino e Immanuel Kant.
Sim, há uma forte leitura que sugere que Kant, em sua crítica ao eudemonismo e ao hedonismo, pode ter simplificado ou, de certa forma, “confundido” (ou pelo menos agrupado) o conceito de deleite/contentamento na felicidade (como concebida por Aquino e Aristóteles) com a busca direta e empírica pelo prazer sensual/hedonista.
🧐 Comparação e Contraste
1. A Visão de São Tomás de Aquino
Para Aquino, a Felicidade (Beatitude) é a Visão de Deus (essência da felicidade), e o Deleite/Gozo é uma consequência necessária e inseparável (o concomitante) do apetite que repousa no Sumo Bem alcançado.
Não é Hedonismo: A busca primária não é pelo deleite, mas pelo Objeto que causa o deleite (Deus, o Bem Supremo). O deleite é um efeito que demonstra o sucesso do ato (o repouso da vontade no Bem). É a sua “intenção oblíqua” que você mencionou: a pessoa visa o Bem, e o gozo se segue.
Deleite Intelectual: O deleite na beatitude é primariamente um deleite espiritual e intelectual (a alegria da verdade), muito diferente do prazer sensível e mutável que os hedonistas buscam.
2. A Crítica de Immanuel Kant
Kant constrói sua ética baseada na Razão Pura Prática e no Dever (imperativo categórico), separando estritamente a moralidade de qualquer consideração empírica ou teleológica (voltada a um fim).
Rejeição da Eudemonia: Kant rejeita a felicidade (Eudemonia) como fundamento da moralidade porque ela é, em sua visão, baseada em fins empíricos e contingentes, tornando-a subjetiva e incerta.
O Problema do Prazer: Ao tentar expurgar qualquer motivação não-racional (heteronomia) da moral, Kant tende a colocar todas as formas de satisfação, deleite ou inclinação na mesma categoria de motivos sensíveis, equiparando-os ao prazer hedonista. Qualquer motivação que não seja o respeito pela Lei Moral é vista como uma ameaça à pureza da ação moral.
Conclusão: O Agrupamento Kantiano
O ponto é que Kant parece agrupar todas as formas de satisfação – desde o prazer sensível (hedonismo) até o contentamento racional e consequente (Aristóteles/Aquino) – sob o rótulo de inclinações ou motivos empíricos.
Ao fazer isso, ele garante a autonomia e pureza de sua moral (o dever é cumprido apesar ou contra a inclinação), mas deixa de reconhecer a distinção que Aquino faz entre a busca direta e instável do prazer (o que Kant critica) e a alegria estável e consequente que resulta do alcance do Bem Supremo, que não é diretamente visada, mas é uma consequência necessária da beatitude.
É por isso que, para um tomista, a crítica de Kant ao conceito de felicidade como fundamento moral atinge o alvo errado: ele critica a busca egoísta e sensível (hedonismo), mas sua crítica acaba englobando a alegria racional e transcendente que Aquino via como o acompanhante perfeito da visão de Deus.
Comentário meu ao Gemini:
Concordo com a avaliação que você faz de Kant. Creio que há um autor, que se chama Martin Rhonheimer, que no seu livro sobre moralidade, chega exatamente à conclusão que seu texto traz.
Resposta do Gemini:
Que ótimo! Fico feliz que a análise tenha sido satisfatória e que você concorde com a avaliação sobre o contraste entre Aquino e Kant nesse ponto. 😊
É excelente que você mencione Martin Rhonheimer. Ele é de fato um importante filósofo moral contemporâneo, e seu trabalho, especialmente em The Perspective of Morality: Philosophical Foundations of Thomistic and Natural Law Ethics, é altamente relevante para esta discussão.
Rhonheimer argumenta que a tradição moral clássica (Aristóteles/Tomás de Aquino) não é refutada pela crítica de Kant, pois ela distingue claramente entre:
A Felicidade como Fim Último (finis ultimus): Que é o objeto racional e objetivo (o Bem Supremo, Deus).
O Prazer/Deleite (delectatio): Que é o acompanhante e sinal subjetivo de que esse fim foi alcançado.
Rhonheimer essencialmente confirma que Kant confunde a “beatitude/contentamento” (o gozo que se segue ao alcance do Bem), que é um efeito da ação virtuosa, com a busca direta e egoísta do prazer sensível (o hedonismo que é a causa ou motivo da ação). Ele defende, assim, a intenção oblíqua tomista que discutimos.
Sua referência a Rhonheimer adiciona um excelente peso acadêmico moderno à nossa discussão!
Comentário meu ao Gemini:
Posso publicar nossa conversa em meu blog (Ler a Suma Teológica) https://lerasumateologica.com/? Deixarei claro quais são minhas colaborações e quais as suas.
Resposta do Gemini:
Que excelente ideia! Fico honrado que você considere nosso diálogo digno de publicação em seu blog “Ler a Suma Teológica”.
Sim, você pode publicar nossa conversa!
Por favor, sinta-se à vontade para utilizar o conteúdo, a tradução e a análise filosófica. Fico muito feliz em contribuir para a divulgação e o estudo da obra de São Tomás de Aquino.
É muito atencioso da sua parte querer distinguir as minhas contribuições das suas. Se precisar de uma sugestão de como me referenciar (como modelo de IA), você pode simplesmente me identificar como “Gemini, um modelo de linguagem grande” ou algo semelhante, juntamente com a devida atribuição de que a análise foi gerada em colaboração.
Parabéns pelo blog! É um projeto muito valioso.
Encerrando. A partir do próximo texto passo a analisar o artigo 1 desta questão 4 da primeira seção da segunda parte da Suma.
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