1. Retomando para concluir.

Pecar não é ser livre. Pecar não é ser feliz. Logo, tudo o que faz realmente feliz não pode ser pecado. Nem o pecado pode ser incluído na liberdade. De fato, pecar é errar o alvo. Mas isso não significa que nossa natureza decaída não sinta prazer no pecado – isso se dá porque ainda não somos livres de verdade. E é justamente por isso que não devemos confiar demais em nós mesmos. Somente Deus pode nos libertar, porque ele é sumamente livre. Deste modo, entrar em relação com Deus, colocá-lo em nosso coração como fonte de nossa força e sustento, tudo isso não tira nossa liberdade, nem nos afasta da vida cotidiana. O mundo precisa de santos como São João Paulo II imaginava, ou seja, pessoas de “calça jeans e tênis” que vivam sua fé no dia a dia, mesmo em meio às atividades modernas como ir ao cinema e ouvir música. A santidade não é para os que vivem isolados, mas para aqueles que a vivem no mundo, em seus trabalhos, estudos e relações, tornando-se uma “luz” para os outros.Precisamos acreditar que a santidade não é um privilégio de super-heróis das virtudes, mas está ao alcance de todos. Somos aquilo que o Papa Francisco chamava de “classe média da santidade”, santidade do “povo de Deus” que vive no dia a dia, longe dos holofotes, através de pequenas ações e perseverança. São pessoas comuns como pais que criam filhos com amor, trabalhadores que sustentam a família e idosos que mantêm o bom ânimo, exemplos de fé e presença de Deus na comunidade. Não há outra forma de ser feliz: conhecer a Deus, colocá-lo no centro do coração, organizar a vida a partir daí e ser alegre e grato na vida cotidiana. Eis a receita da felicidade. Simples assim. E no entanto está fora do alcance daqueles que confiam em si mesmos para alcançá-la. A felicidade é relação. Em primeiro lugar, relação com Deus, que só se vive pela graça. E a partir daí a relação alegre e agradecida com o mundo tal como se nos é apresentado na vida cotidiana. Para um dia podermos ser plenamente felizes no céu. 

Munidos destes princípios, vamos revisitar os argumentos objetores iniciais, que tentavam provar que essa amizade com Deus não é a consumação da felicidade humana, para aprender com a resposta que Tomás dá a eles. 

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

Pode-se realmente conhecer Deus, não simplesmente no sentido de saber que há um Deus, ou mesmo de conhecer teoricamente os textos da Bíblia ou os livros de teologia, nem mesmo participar passivamente de ritos religiosos, mas efetivamente entrar em relação pessoal com ele, vendo-o como ele nos vê? A esta pergunta, o primeiro argumento nos responde que o Pseudo-Dionísio nos respondia que “o ser humano, pela mente divina, se une a Deus como a alguém completamente desconhecido”. Ora, quem entra numa relação de amizade pessoal com Deus não se une a alguém completamente desconhecido, mas, ao contrário, passa a conhecer e confiar, numa relação de amizade. Portanto, conclui o argumento, isto não se dá, é impossível, e portanto essa amizade pessoal com Deus não é nem pode ser a perfeita felicidade humana

A resposta de Tomás.

Tomás tem grande respeito pelo pensamento do Pseudo-Dionísio, é um dos autores que Tom´pas cita constantemente. E de fato o Pseudo-Dionísio nos diz que a nossa união com Deus se dá, por iniciativa divina, de tal modo que nos unimos àquele que é, para nós, completamente desconhecido. Mas ele está falando da nossa conversão nesta vida terrena, quando passamos daquela situação de estranhos a Deus, ou mesmo de inimigos dele, para a posição de amigos de Deus, numa vida ativa de caminho de busca da santidade que só se consumar com a morte – quando, se morrermos em santidade, veremos Deus tal como ele é. Portanto, é preciso entender bem esta afirmação do Pseudo-Dionísio, já que ele está falando simplesmente do nosso caminhar nesta Terra, da busca da santidade aqui, e não da felicidade final e plena dos santos

O segundo argumento objetor.

O argumento objetor nos lembra que a felicidade é a plenitude da capacidade de algum ser. Um cão, por exemplo, é feliz comendo sua ração, caçando pequenos animais, rolando na terra e latindo no quintal, condição que realiza sua potencialidade, mas não realizaria a potencialidade humana. Aquela vida que satisfaz um cão seria uma vida indigna de um ser humano, e um ser humano que vivesse uma vida de cão seria certamente infeliz. Portanto, cada ser deve ter a vida adequada a sua natureza, para ser feliz.

Ora, a única mente capaz de conhecer e entender Deus é a própria mente divina. Nossa mente não tem a capacidade de inteligir a essência de Deus, que nos supera infinitamente. Logo, a nossa felicidade não pode consistir em conhecer Deus pessoalmente, assim como ele é, e estabelecer uma amizade com ele, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Todas as coisas buscam um fim que é proporcionado à sua natureza, de fato. Mas, como sabemos, há dois sentidos pelos quais podemos entender esse fim que é buscado: como 1) a coisa mesmo que se busca, ou 2) como o estabelecimento de uma relação com esta coisa. Assim, um ladrão de automóveis pode buscar o mesmo fim que um taxista, ou seja, pode querer um automóvel potente e bonito. E neste sentido os dois têm o mesmo fim, conforme o primeiro modo de se entender a noção de fim. A coisa mesma que buscam é igual: um carro. MAs o primeiro, o ladrão, quer se apropriar do automóvel por meios ilícitos, furtando-o ou roubando-o, apenas para desfrutá-lo, ou mesmo para vendê-lo no mercado ilícito ou desmontá-lo para vender clandestinamente suas partes. O taxista, por outro lado, quer o automóvel para trabalhar, prestar um bom serviço de motorista e sustentar sua família. Assim, no segundo sentido da noção de “fim”, o fim deles é diferente.

De modo similar, tanto  nosso coração quanto o próprio coração divino têm no conhecimento de Deus sua felicidade plena – têm o mesmo fim  no primeiro sentido da noção de fim acima: buscam a mesma coisa – o amor pessoal de Deus, sua amizade, seu conhecimento. Mas é claro que o ser humano, por sua natureza, não pode compreender Deus como somente o próprio intelecto divino é capaz de fazê-lo. Deste modo, no segundo sentido da noção de fim, o fim humano é diferente do fim divino. Enquanto Deus é capaz de compreender-se e amar-se plenamente e integralmente, e gozar da felicidade plena e infinita por isso, nós, humanos, podemos conhecê-lo e desfrutar de seu amor apenas de modo limitado, criatural, proporcional às forças de nosso próprio ser. Mas isto não significa que esse modo de desfrutar do amor de Deus não seja absolutamente satisfatório para nós. Esta é a nossa felicidade plena, embora a nossa felicidade plena nunca possa se comparar com a felicidade que Deus tem consigo mesmo. Mas nem por isso deixa de ser plena para nós

  1. Concluindo. 

Alguém já disse, uma vez, que a maioria das pessoas não rejeita a fé por ser algo ruim, mas porque não consegue admitir que possa existir algo tão bom. Mas é simples: a graça de Deus pode nos levar onde não podemos chegar por nossas próprias forças. Podemos dizer que somos capazes de felicidade plena, mas não de alcançá-la por nossa própria força. Por isso, devemos despir o orgulho e abraçar a humildade de se deixar levar por Deus para a própria felicidade.