1. Retomando.

Será que somos capazes de uma relação pessoal com deus, vendo-o assim como ele é e conhecendo-o na presença de sua própria essência? Será que esta é a nossa plenitude, que nos fará realizados e felizes? 

Vimos, no texto anterior, a hipótese controvertida de que nossa plenitude não pode incluir esse encontro e esse conhecimento pessoal, e portanto essa não é a possibilidade mais alta do ser humano e nem sua plenitude e felicidade. Vimos dois argumentos iniciais que tentam comprovar essa tese: o primeiro argumento lembra que, segundo o Pseudo-Dionísio, o ser humano simplesmente não conhece, nem pode conhecer Deus imediatamente, diretamente, em pessoa mesmo, porque isso ultrapassa a condição humana. Deus é simplesmente desconhecido para nós, disse esse escritor antigo.

O segundo argumento lembra que a plenitude de um ser guarda proporção com suas capacidades. Ora, prossegue o argumento, a capacidade necessária para conhecer Deus pessoalmente ultrapassa a capacidade humana; somente um intelecto divino poderia conhecer um objeto divino, diz o argumento. E por isso é impossível que a felicidade humana seja o encontro pessoal com Deus, conhecendo-o, diz o argumento.

O argumento contrário lembra que é a própria Escritura que diz (1 Jo 3, 2): Quando ele aparecer, seremos semelhantes a ele e o veremos assim como ele é. Portanto, a promessa de nossa felicidade consiste, segundo a Bíblia, em encontrar com Deus, estabelecendo com ele um conhecimento de presença e amizade, e por isso não se pode aceitar a hipótese inicial.

Estudemos agora a resposta sintetizadora de Tomás. 

  1. A resposta sintetizadora de Tomás. 

Tomás não hesita: reafirma com tranquilidade e firmeza que a nossa felicidade só pode estar no encontro frente a frente com Deus, conhecendo-o com nosso próprio ser, amando-o como ele é em si mesmo, estabelecendo uma relação de proximidade e presença, de amizade íntima com ele. E Tomás nos dará duas razões pelas quais acredita que as coisas são assim:

  1. O ser humano não consegue se satisfazer enquanto há algo para conhecer, algo para conquistar, algo para buscar. Quem busca dinheiro quer sempre mais. Quem quer bens, sempre quer acumular mais. Quem busca o poder sempre quer conquistá-lo, mantê-lo e aumentá-lo. Quem busca conhecimento sempre quer saber mais, ler mais, pesquisar mais. 

Alguém poderia dizer que renunciou a todas as vontades, a todo conhecimento, a todo desejo, e vive a vida num estado de desinteresse e alheamento do mundo. Mas quem já não quer nada para conquistar, nada para buscar, nada para conhecer, apesar de existirem tantas coisas boas que atraem a inteligência e a vontade humanas nesta vida, entra simplesmente num estado de depressão que pode levar até à autodestruição. Portanto, nesta vida, os bens que podemos almejar, embora possam nos trazer satisfação momentânea e alguma felicidade, não podem nos dar a satisfação plena, que é aquela situação que chamamos de felicidade.

  1. A segunda razão é colocada por Tomás com uma frase que parece um tanto hermética, difícil de entender: “A plenitude das capacidades de alguma coisa deve ser proporcional à natureza de seu objeto”. O que ele está querendo dizer é que nenhum ser pode estar satisfeito sem que desenvolva as suas capacidades até o fim, e esse desenvolvimento tem sua medida no objeto da capacidade. Um animal predador, por exemplo, tem a capacidade de buscar sua presa, descobri-la, atacá-la, vencê-la e devorá-la. Não pode estar satisfeito se estiver, por exemplo, trancado numa jaula de zoológico sendo alimentado com bifes e ossos. Um grande cientista certamente não viverá satisfeito se estiver trancado numa cela sem acesso a material de leitura e pesquisa. Há, portanto, por um lado, uma capacidade buscando satisfazer-se, e, por outro, aquele objeto próprio, capaz de satisfazê-la.

Ora, a mente humana tem a inclinação natural de buscar conhecer o que as coisas são em si mesmas, não nos bastando saber que elas existem e estão por aí. Segundo Aristóteles, o ser humano tem uma inteligência cujo objeto é a quididade das coisas. Não nos basta olhar as aparências, os fenômenos, os efeitos. Precisamos investigar, perquirir, questionar, de tal modo a descobrir as verdadeiras causas. Assim, nosso coração nunca estaria verdadeiramente satisfeitos se, olhando o mundo criatural, não perguntássemos e buscássemos a causa das causas, aquilo que é capaz de explicar toda a realidade sem precisar, por sua vez, ser explicado por nenhuma outra coisa, porque não é um efeito e, portanto, não tem causas. Sem chegar a essa causa sem causas, nossa mente não repousa. Isto pode ser demonstrado na infindável sequência de “porquês” que as crianças às vezes nos dirigem, buscando entender o mundo. Embora às vezes nós nos cansemos de responder a elas, elas não se cansam de perguntar.

Assim, diz Tomás, nossa mente não se satisfaz simplesmente em deduzir que há um Deus por trás da realidade criada. Não se satisfaz em ter informações, mesmo reveladas, sobre esse Deus. 

Temos a necessidade de ir a fundo nessa relação com Deus. De modo análogo àquele pelo qual uma pessoa no deserto pode saber sobre a água, conhecer sua existência, conhecer sua estrutura molecular e suas qualidades físico-químicas, mas não ter acesso à água para matar a própria sede – e não sobreviver ao deserto, por fim – o ser humano precisa encontrar-se com Deus, conhecê-lo relacionalmente, estar em Sua presença, vê-lo assim como ele nos vê, para poder descansar o coração na felicidade. Qualquer coisa menos do que isso não nos dará a felicidade plena.

3. Encerrando por enquanto. 

Todas as coisas são boas, porque Deus as criou boas. Todas as pessoas podem ser parceiros de relações, e a pertença a um povo é algo essencial para a nossa felicidade. Tudo isso é verdade, mas não repousa inteiramente o coração. Como um sedento no deserto: as roupas são necessárias, o alimento é necessário, a saúde é necessária, mas a água é indispensável para a sobrevivência. Também no caso da nossa plena felicidade, todas as coisas são necessárias, mas apenas a relação verdadeira, presencial, pessoal com Deus – quer dizer, vê-lo em essência, como diz Tomás – é que pode nos fazer alcançar a plenitude e repousar todos os desejos e toda busca.