- Introdução.
Chegamos finalmente ao centro do debate. Agora descobriremos, sem arrodeios, em que consiste a felicidade plena do ser humano, seu objetivo final, que o tornará completa e estavelmente feliz de modo permanente.
É claro que nosso coração é um poço sem fundo. Nenhum ser humano, por mais belo e carinhoso, por mais inteligente e fiel que seja, pode completar o coração de outra pessoa. Nenhum bem material, nenhum cargo de poder, nenhum dinheiro, nada disso pode preencher completamente o buraco infinito do coração humano. Todas estas coisas são boas, e devem ser almejadas; o segredo consiste em saber que elas são incapazes de saciar, e devem ser almejadas apenas na medida que nos conduzem ao nosso único fim, o preenchimento do buraco infinito do coração. Onde está aquela coisa que, se for adquirida, saciará toda vontade de adquirir novas coisas, porque já envolve em si todas elas? Onde está aquela fortuna que, uma vez adquirida, faz cessar toda ambição de ter mais, porque já é uma fortuna insuperável? Onde está aquela posição de poder que domina e se superpõe a todas as outras, porque nenhum poder mais alto pode existir? Onde está aquela pessoa que, uma vez conquistada, sacia todo desejo de conhecer ou estabelecer relação com outras pessoas?
Somente encontrando um bem desse tipo é que nosso coração poderia ser feliz em sentido próprio. Poderíamos dizer que tal felicidade consiste em poder chegar visivelmente à presença de Deus, vê-lo como ele nos vê, estabelecer com ele uma relação de proximidade total, de confiança total, de amor completo? Ou seja, como diziam os antigos, será que a felicidade consiste em chegar à visão da divina essência em si mesma? Se existir algo assim, como uma essência divina que tenha uma personalidade própria, como poderia eu tornar-me um amigo tão íntimo dela, a ponto de poder me apropriar de todo bem que ela mesma é, o bem infinito que me faria perfeitamente satisfeito e feliz?
Vamos ao debate.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese polêmica inicial quer provocar e aprofundar o debate, e por isso vai nos propor uma questão para ser aprofundada e debatida. A hipótese proposta é a de que a felicidade do ser humano não pode consistir em chegar à verdadeira presença de Deus, vendo-o assim como ele é e estabelecendo com ele uma relação de reciprocidade, de amizade, intimidade e proximidade real. Seria impossível chegar à presença mesma de Deus, vê-lo assim como ele é, estabelecer com ele uma relação de intimidade, e portanto nossa felicidade plena não pode ser esta, ou então é impossível. O artigo traz dois argumentos pelos quais as coisas parecem, ser assim como a hipótese inicial propõe.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Sabemos que, de acordo com a filosofia clássica, o conhecimento é a assimilação da própria forma da coisa pelo nosso intelecto. Assim, quando nós conhecemos, a coisa conhecida, de certo modo, passa a fazer parte de nós, une-se realmente a nós. Conhecer é fazer com que as coisas se unam a nós e de certo modo, também nos unirmos às coisas.
Mas segundo o antigo escritor eclesiástico conhecido como Pseudo-Dionísio, com Deus a situação é diferente. De fato, ele ensina que, na fé, unimo-nos a Deus, mas ele continua a ser desconhecido para nós. Mas aquele que encontramos pessoalmente é cuja essência vislumbramos não é, de modo algum, desconhecido para nós. Portanto, somos realmente incapazes de enxergar Deus em sua essência, pessoalmente, e manter uma relação de verdadeira reciprocidade substancial com ele. Logo, a felicidade plena não pode se constituir pelo encontro pessoal do ser humano com Deus, conhecendo-o em essência, conclui de modo pessimista o argumento.
O segundo argumento objetor.
Cada mente tem seu próprio grau de capacidade, e quanto mais elevado e perfeito o intelecto, maior a capacidade e a perfeição.
Sabemos que nada pode ser mais perfeito do que Deus. Portanto, a capacidade do intelecto divino é total, e sua perfeição consiste em contemplar a si mesmo, que é a perfeição plena.
Ora, o intelecto humano é muito inferior ao divino. Logo, não pode ter a capacidade de contemplar a própria essência de Deus, perfeição plena e ilimitada, que só pode ser objeto de contemplação por um intelecto igualmente pleno e ilimitado.
Portanto, a contemplação da essência divina ultrapassa o intelecto humano, e por isso seria impossível que a felicidade plena do ser humano fosse esta, conclui de modo aparentemente “humilde” o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento contrário lembra que a própria Bíblia declara (1 Jo 3, 2): Quando ele aparecer, seremos semelhantes a ele e o veremos assim como ele é. Então é a própria Bíblia que nos garante que realmente nossa felicidade consiste em conhecer Deus assim como ele é e entrar em relação com ele.
- Encerrando por enquanto
Seremos capazes de entrar em verdadeira relação pessoal com Deus e estabelecer com ele uma amizade pessoal, de tal modo que nossa felicidade plena seja desfrutar de sua perfeição e beleza plenas? É o que debateremos no próximo texto.
Deixe um comentário