Tem sido muito habitual para mim começar minhas frases ou falas com a frase “eu, por exemplo”. Fiz isso muitas vezes, sem refletir exatamente no que estava dizendo. Mas eis que houve uma situação em que eu tentava dar uma lição de moral a meus filhos, orientando-os a fazer algumas coisas e não fazer outras, quando o mais velho me retrucou:

– Pai, por que você está dizendo isto? Você mesmo não faz assim como você está dizendo…

É claro que não tive resposta a dar. De fato, após ter usado o “eu, por exemplo”, fiquei numa saia justa. É que eu, por exemplo, sempre fazia aquilo que eu próprio apontara como não sendo exemplar.

No seu belo documento chamado “Firmes na Brecha” (pode-se encontrar em português, em PDF para dowload, aqui: https://www.firmesnabrecha.com.br/downloads), o Bispo Thomas Olmsted nos ensina que ninguém chega à maturidade sem passar pela experiência da paternidade – biológica, social ou espiritual. E meu filho acabara de me ensinar uma grande lição. De fato, para o cristão, há apenas um exemplo em sentido próprio: Jesus. É claro que os grandes santos são apresentados pela Igreja como intercessores e exemplos de vida inspiradora. Mas são exemplos apenas de modo analógico. Ou seja, de modo indireto, imperfeito. E assim nos ensina o Papa Francisco na sua Carta Gaudete et Exsultate:

nem tudo o que um santo diz é plenamente fiel ao Evangelho, nem tudo o que faz é autêntico ou perfeito. O que devemos contemplar é o conjunto da sua vida, o seu caminho inteiro de santificação, aquela figura que reflete algo de Jesus Cristo e que sobressai quando se consegue compor o sentido da totalidade da sua pessoa“. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html#A_tua_miss%C3%A3o_em_Cristo

E se isso se aplica aos santos consumados, muito mais a nós, que estamos em construção. Hoje, eu diria ao meu filho, naquela situação: “filho, errei ao me propor como exemplo. O único exemplo a ser seguido é Jesus Cristo, tanto para mim como para ti“. E, de fato, há apenas uma maneira de se dirigir para a santidade. E para a sanidade, que é praticamente a mesma coisa. Resolvi cortar do meu vocabulário a expressão “eu, por exemplo”. Passar a dizer: “Jesus, por exemplo“, e crer nisso muito profundamente.

Conversando sobre isto com um padre amigo, outro dia, ele me fez uma bela observação: não é por outra razão que a cultura popular chama de “mimimi” as queixas de quem se lamenta por motivos fúteis. trata-se de uma percepção aguda de que não sair do “eu, eu, eu”, ou “me, me, me” é a razão da maioria dos queixumes irritantes. Se alguém, por exemplo, num estado de depressão, consegue dizer “tu”, está certamente num caminho mais saudável. E se consegue dizer “Tu” para Deus, essa cura pode ser ainda mais apressada.

Na Bíblia, no Livro de Êxodo (3, 14), Moisés pergunta a Deus, no episódio da sarça ardente, qual é o Seu nome. E Deus responde: “Eu Sou“. Mais adiante no mesmo livro (Êxodo 20, 7) a lei de Deus nos ordena “não tomar o santo nome de Deus em vão“. É um mandamento que a igreja Católica, em seu trabalho catequético, coloca como segundo mandamento da lei de Deus. É claro que, nas conversas cotidianas, quando dizemos, por exemplo: “sou servidor público”, ou “eu sou o esposo de fulana”, não estamos infringindo este mandamento, quando sabemos que tudo o que somos é, no fundo, dom de Deus.

Mas quando digo “eu sou” para me referir a mim mesmo, sem lembrar de que tudo o que eu sou é apenas dom de Deus, que é o único que “É” em sentido próprio, estou pecando. O mesmo poderíamos dizer da expressão “eu, por exemplo“, em seu uso corrente de nos apresentar como critério para outras pessoas. Talvez, ouso dizer, seja este uma hipótese de como podemos desobedecer a este mandamento de um modo tão impensado.

Nada nos afasta mais de Deus do que o orgulho. Diz São Tiago (Tg 4, 6), citando o Livro dos Provérbios (3, 34): “Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes“. Eu Sou é o nome de Deus, e tudo aquilo que somos é derivado, existe apenas de modo analógico, por referência à perfeição de Deus manifestada em Nosso Senhor Jesus Cristo.

O caminho que Deus escolheu para mim é personalíssimo, sujeito a quedas e não é exemplar em sentido próprio. É claro que a minha fidelidade a Deus é requerida, é necessário agir com coerência com relação à própria fé, porque a fé não pode ser da boca para fora (“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mateus 7:21) . Eventualmente eu posso até servir de inspiração para outros (sem que eu próprio expressamente o proponha). Mas só Jesus é o exemplo.

Nem sequer a vida dos grandes santos o é, em sentido próprio. E isto é algo que muito me consola: tantas vezes tive a tentação de desanimar, de renegar a santidade, apenas por imaginar que os “modelos de santidade” dos grandes santos canonizados, se tomados literalmente, seriam não apenas impossíveis, mas até inconvenientes para mim. Mais uma vez diz o Papa Francisco, na carta Gaudete et Exsultate, a este respeito:

«Cada um por seu caminho», diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho.[11] De facto, quando o grande místico São João da Cruz escrevera o seu Cântico Espiritual, preferia evitar regras fixas para todos, explicando que os seus versos estavam escritos para que cada um os aproveitasse «a seu modo».[12] Pois a vida divina comunica-se «a uns duma maneira e a outros doutra».

Portanto, e em tom de brincadeira, eu diria: eu, por exemplo, não quero mais dizer “eu por exemplo”….