1. Introdução.

Não podemos conhecer diretamente os anjos e as coisas angelicais – nas quais incluímos, também, as coisas demoníacas. Mas não há dúvida de que temos grande curiosidade por elas. Essa curiosidade se manifesta, em todos os tempos, por uma dupla tendência: honrar os anjos como “deuses” (ainda em nosso tempo vemos essa tendência acontecer, por exemplo, na chamada new age) ou querer ser como anjos, desprezando as coisas materiais e nossos próprios corpos como “prisões” ou coisas de menor valor. São as religiões de caráter gnóstico, como os espiritualistas de origem cristã ou não, fortemente influenciadas pelo platonismo ainda tão presente entre nós.

Será que conhecer e cultuar os anjos, tomá-los como exemplo, tentar viver vidas mais “imateriais” e angelicais, será que é este o caminho para a felicidade? Este é o debate aqui. Vamos a ele.

  1. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese inicial vai nos propor, para provocar o debate, que conhecer os anjos, honrá-los, venerá-los ou adorá-los, e até imitá-los, levando uma vida mais “imaterial” e angelical, seria o caminho para a felicidade plena do ser humano. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

São Gregório Magno, numa homilia, afirmou, certa vez, que de nada adiantaria participar das festas humanas se não chegarmos a participar das celebrações dos anjos, querendo dizer que este é o objetivo final da felicidade. Mas como podemos participar dos festejos dos anjos, senão conhecendo, cultuando e elegendo os anjos como meta e exemplo de vida? Assim, diz o argumento de modo imprudente, é na contemplação dos anjos que reside a felicidade plena do ser humano.  

O segundo argumento objetor.

Um ser atinge a sua perfeição, diz um antigo ditado, quando sua consumação atinge seu princípio de existência, é por isso que a geometria considera o círculo como a figura perfeita: sempre há perfeita coincidência, em cada ponto, entre seu princípio e seu fim.

Ora, sabemos  que a mente humana pode se elevar muito pelo estudo e pela contemplação da natureza criada. Mas os anjos nos iluminam com conhecimentos muito superiores, sobrenaturais mesmo, que nos aperfeiçoam intelectualmente para além de qualquer coisa que possamos aprender naturalmente – é o que ensinam os grandes e antigos estudiosos dos anjos, como o Pseudo-Dionísio. Assim, devemos nos dedicar a conhecer mais sobre os anjos, porque nesse conhecimento está nossa felicidade perfeita, alega este argumento.

O terceiro argumento objetor.

A perfeição de algum ser está sempre em alcançar o máximo de sua capacidade, aproximando-se das naturezas que estão imediatamente acima delas na escala de perfeição natural. Assim, os seres inanimados que se aproximam em perfeição dos seres vivos sempre nos interessam, como é o caso de certos compostos orgânicos que têm características quase de seres vivos. Os vegetais que apresentam comportamentos similares aos dos animais, como as plantas carnívoras, que são capazes de se mexer e capturar presas, são muito interessantes para nós. De modo análogo, os animais que apresentam comportamentos sagazes, quase humanos, são muito interessantes para nós. Ora, acima de nós, na escala de perfeição de seres, há os anjos. Portanto, quando desenvolvemos nossa espiritualidade de modo a nos tornar mais parecidos com anjos, tornamo-nos mais perfeitos, e portanto mais felizes. Logo, a felicidade plena está em conhecer os anjos e tentar se tornar mais parecidos com eles, diz um tanto imprudentemente este argumento. 

  1. O argumento contrário à hipótese inicial.

O argumento contrário à hipótese inicial, que sempre chamamos de argumento sed contra, nos faz lembrar aquilo que as Escrituras nos ensinam sobre a perfeição do ser humano. E cita Jeremias: “Aquele, porém, que se quiser vangloriar, glorie-se de possuir inteligência e de saber que eu, seu Senhor, exerço a bondade, o direito e a justiça sobre a terra”. Portanto, a verdadeira felicidade humana não está em estabelecer relação com os anjos, nem em conhecê-los profundamente ou imitá-los, mas em buscar o Senhor, conhecê-lo e ser mais parecido com ele, diz o argumento. 

  1. Encerrando por enquanto.

Não há dúvida de que conhecer os anjos e contar com eles é uma coisa boa, e a Igreja mesma nos ensina isso. Aqui na Suma estudamos um livro inteiro sobre os anjos. Mas não está neles a nossa felicidade plena. Veremos mais sobre isto no próximo texto.