- Retomando para concluir.
Ser mais estudado, ser um grande cientista, ter conhecimentos científicos, filosóficos, até teológicos, é certamente algo bem, dizíamos no último texto. Mas não é isto que constitui nossa felicidade. Conhecemos tantos grandes cientistas infelizes, conhecemos tantas pessoas simples que são felizes que quase nos sentimos tentados a dizer que a verdade é justamente o contrário… mas também isso seria uma afirmação temerária. É claro que ser mais informado, mais culto, mais possuidor de ciência e filosofia nos torna pessoas mais completas, mas a felicidade não é algo que decorre do cultivo do próprio ego. A felicidade é uma relação. É uma relação com o único que realmente é feliz. Mas estamos nos adiantando – isto será assunto para outros textos e debates mais adiante.
Por ora, devemos retomar os argumentos iniciais – que tentavam comprovar a hipótese de que a felicidade está no intelecto científico – para, munidos dos princípios que adquirimos no texto anterior, entendê-los e responder adequadamente a eles. Vamos a esta tarefa.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento, para tentar provar a hipótese de que a felicidade é algo próprio do intelecto científico, lembra que foi o próprio Aristóteles que definiu a felicidade como a operação da função mais perfeita do ser humano. Ora, não há função mais própria, mais perfeita do ser humano do que o desenvolvimento do conhecimento científico. Logo, a felicidade tem como lugar próprio o intelecto especulativo que guarda o conhecimento científico, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
É claro que, na passagem citada, Aristóteles trata do aperfeiçoamento humano nesta vida terrena, como ser humano. E quando ele trata do aperfeiçoamento intelectual, ele está falando de algo muito mais profundo do que o simples acúmulo de conhecimento científico, no sentido acadêmico do termo. Ele está falando, realmente, em contemplação do mundo criado, com toda a admiração que isso traz, e em desenvolvimento de virtudes intelectuais, como a sabedoria, a prudência e o amor pela criação. Neste sentido, o desenvolvimento intelectual pode, de fato, representar um caminho de desenvolvimento daquela felicidade limitada e contingente que é alcançável nesta vida mortal, responde Tomás.
O segundo argumento objetor.
Todos os seres humanos querem saber. Essa curiosidade natural é própria da nossa inquietude intelectual, e é desejada pelo poder de nos aperfeiçoar, e por nada mais. Não é algo que exista para outro fim senão para o crescimento humano. Ora, é próprio da felicidade ser aquilo que não se busca por outro fim senão para ela própria. E assim é o desenvolvimento do intelecto, pelo crescimento da ciência e da sabedoria em nós. Logo, a felicidade é algo próprio do nosso intelecto científico, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É verdade que todos queremos saber, e é verdade que esse é um desejo natural; também é verdade que este é um desejo que se justifica por si mesmo, tendo razão de fim. Assim, é certo que o desenvolvimento intelectual, como desenvolvimento de capacidades e virtudes humanas, é parte da felicidade. Mas, apesar disso tudo, o intelecto que se desenvolve pelo conhecimento científico não é o lugar próprio da felicidade plena, que envolve o desenvolvimento de uma relação de amor com Deus, pelos motivos que já debatemos em outros textos.
O terceiro argumento objetor.
A felicidade, diz o argumento, é resultado do florescimento humano, do desenvolvimento pleno das capacidades propriamente humanas de alguém. Ora, nada pode ser mais propriamente humano do que o desenvolvimento das capacidades intelectuais, uma vez que o ser humano é o único animal que as possui. Logo, o desenvolvimento das capacidades intelectuais é o modo próprio para o ser humano atingir a felicidade própria do ser humano, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não há dúvida de que o ser humano tem como próprio o intelecto, e que as nossas capacidades intelectuais se desenvolvem pelo estudo e pela produção de conhecimento reflexivo, metódico, propriamente científico. Mas esse não é o ápice do desenvolvimento do intelecto humano: o ser humano é o único capaz de desenvolver, pela fé, o conhecimento amoroso de Deus, e este é o verdadeiro ápice do desenvolvimento intelectual humano, diz Tomás.
- Concluindo.
O simples conhecimento intelectual é algo desejável. O conhecimento reflexivo e metódico próprio do desenvolvimento intelectual científico é, sem dúvida, algo muito bom, muito condutor do humano à plenitude. Mas não é o mais elevado, o mais capaz de levar o ser humano à felicidade no sentido próprio. Veremos mais sobre isto nos próximos textos.
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