- Retomando.
Estudar, obter graus acadêmicos, tornar-se um grande cientista, um sociólogo ou jurista, talvez um doutor em medicina, tudo isso ainda é bem atraente em nossos dias – tanto quanto nos dias de Tomás – e é muito bom (desde que não leve ao orgulho, à soberba, mas ao serviço). Mas será que este é o objetivo último do ser humano? Aprofundar-se em conhecimentos científicos, talvez mesmo filosóficos, será a nossa felicidade plena?
Vimos esta hipótese no texto anterior, de que o saber científico – conhecimento, sabedoria, compreensão – seria o objetivo último do ser humano, aquilo que o tornaria feliz de verdade; vimos os três argumentos iniciais: o primeiro nos lembra que, segundo Aristóteles, o conhecimento intelectual é a atividade mais elevada do ser humano – e a felicidade decorre justamente de fazer aquilo que é mais elevado. O segundo, na mesma linha, lembra que conhecer é o anseio mais profundo do ser humano, e portanto alcançar o conhecimento deve conduzir à felicidade, uma vez que responde aos nossos anseios mais profundos. O terceiro lembra que é o conhecimento, científico, metódico, refletido, que leva nossas potencialidades à plenitude; deve ser, portanto, o caminho da felicidade. Por fim, o argumento contrário nos lembra que as Escrituras (Jeremias 9, 22) nos advertem de que o próprio Senhor aconselha: “o sábio não deve se gloriar de seu saber”. Logo, o caminho intelectual das ciências naturais, humanas ou mesmo filosóficas, embora seja um bom caminho para os que conservam o coração humilde, não deve ser o lugar próprio da felicidade.
Colocados assim os termos do debate, vamos estudar a própria resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Já sabemos que a felicidade pode ser tratada de duas maneiras: 1) Como aquela felicidade plena, perfeita, que é esperada, na glória, por aqueles em quem a graça devolveu a amizade com Deus em vida, ou 2) Aquela felicidade parcial, ainda incompleta, gozada por quem ainda está a caminho.
Tomás vai usar, então, uma analogia para explicar a diferença essencial que existe entre a nossa felicidade limitada, passageira e contingente na Terra e a bem-aventurança dos santos; a diferença entre a felicidade plena dos santos no céu e a felicidade passageira na vida terrena, diz Tomás, é similar àquela que existe, por exemplo, entre, por um lado, a prudência ponderada, refletida e sapiencial de um grande general em guerra, por um lado, e a astúcia de um animal predador que busca sua presa furtivamente, por instinto.
Deste modo, a felicidade plena, perfeita, não pode consistir no simples desenvolvimento intelectual propiciado pela aquisição das ciências humanas e naturais. Se a felicidade plena é assunto para uma situação transcendente – não apenas no sentido de envolver o céu, mas de envolver o ser humano inteiro, com sua dimensão espiritual que ultrapassa os limites deste reino criatural, parece muito claro, por outro lado, que estes conhecimentos científicos, acadêmicos, universitários, por mais importantes que sejam – e são – não podem ultrapassar sua própria natureza de conhecimento imanente. E a imanência não pode conceder senão uma felicidade limitada, que, aliás, só existe porque e quando aponta para a felicidade perene do céu.
Toda ciência humana ou mesmo natural tem sua origem na interação sensorial do ser humano com seu entorno: trata-se de observar, experimentar, medir, pesar, acumular e analisar dados; isto é, nenhum conhecimento estritamente científico pode ultrapassar o seu objeto e seu método. E estes não incluem a plenitude do espírito. A perfeição que o ser humano só alcança se for elevado pelo próprio Deus a uma relação com Ele. Ocupar-se de conhecer a criação é bom, mas não deve ser nosso objetivo final na vida.
- Encerrando por enquanto.
Desenvolver o nosso intelecto, conhecer profundamente a natureza, desenvolver o conhecimento científico, tudo isso envolve conhecer as criaturas, o mundo criado e sua estrutura. E tudo isso é uma tarefa que Deus deu aos seres humanos, sem dúvida. Mas não devemos nos esquecer de que tudo isso deve ser feito para a maior glória de Deus, em nós e no mundo. A ciência deve nos fazer crescer; não devemos nos inchar de orgulho humanista. Além disso, muito mais do que um simples acúmulo de conhecimento intelectual, a felicidade é uma relação – a relação com Deus. E por isso ela não pode “morar” no intelecto simplesmente.
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